“Eu não sou a mesma tendo visto a Lua brilhar do outro lado do mundo”, disse a escritora Mary Anne Radmacher. Uma viagem pode moldar-nos para sempre, seja ela onde for. Vasco Monteiro começou a viajar sozinho aos 17 anos, e entre encontros, medos, peripécias e muito conhecimento adquirido, decidiu começar a partilhar dois mundos que, cada vez mais, se cruzam: viagens e tecnologia.

Vasco começou a viajar sozinho porque se cansou de esperar pelos outros. O caminho que foi fazendo sozinho, mas sempre acompanhado pelas pessoas com quem se foi cruzando em cada viagem, levou-o a partilhar o que foi descobrindo. Para além das suas viagens, trabalhou como consultor de viagens e emigração e como customer support na Airbnb, proporcionando-lhe “um leque de experiências e conhecimento avançados do universo das viagens, emigração e trabalho remoto”. Em junho de 2020, sentiu que todo o conhecimento e ferramentas que ia descobrindo não podiam ficar guardadas só no seu telemóvel e começou a partilhar as informações que todos queremos saber, mas nem todos temos a mestria, e o tempo, para as procurar.

Com humor, “e direto ao assunto”, Vasco Monteiro vai partilhando nas redes sociais e no seu blogue, não só as suas viagens, mas aquilo que faz para chegar a elas, e o que tira delas. Criou a Bíblia do Viajante, para todos aqueles que querem mergulhar a fundo no universo das viagens e saber como a tecnologia é o presente – porque “já chega de dicas óbvias”.

Em entrevista ao Gerador, o jovem portuense fala sobre a experiência de viajar sozinho, o que é viajar hoje em dia, e a importância da tecnologia para nos levar mais longe. Vasco coloca ainda três gerações (Boomers, Millennials e Geração Z) em perspetiva, para nos mostrar como estas podem viver o ato de conhecer outra realidade de uma forma tão diferente.

Gerador (G.) – Contar o número de países onde já foste é desvalorizar cada lugar, por mais pequeno que seja?

Vasco Monteiro (V. M.) – Eu normalmente conto países só para mim. Eu tenho um mapa onde risco os países onde já fui, mas é algo que guardo só para mim, até porque acho que se eu for, por exemplo, para a Polónia e for apenas a Varsóvia, dizer que eu conheci um país, é como se tivesse a desvalorizar todas as outras cidades da Polónia, como Breslávia, Cracóvia, etc. Portanto, o que eu fui notando nas redes sociais é que havia muita gente que colocava a contagem de países na bio ou na descrição do perfil, e eu já não sabia se faziam isso por mero exibicionismo ou se era algo que eles faziam por ter orgulho em ter ido a todos esses países. Mas eu acho que a noção de ter ido a este país ou àquele vai ser sempre subjetiva, aliás, eu não conheço Portugal inteiro, não conheço muitas cidades, portanto acho que isso é muito subjetivo.

G. – Quando começaste a viajar sozinho tinhas uns 17 anos… qual era o teu maior medo?

V. M. – O meu maior medo era ficar sozinho, não ter apoio e não ter ninguém com quem falar. Mas imediatamente, quando cheguei ao meu primeiro destino que foi Palma de Maiorca, percebi que não seria um medo. Aproveitei o facto de ser membro do Couchsurfing – uma plataforma que serve para ficar em casa de alguém, seja num sofá ou numa cama livre em troca de nada, só hospitalidade, ou de, um dia se essa pessoa quiser vir à tua cidade, tu também a possas acolher –, e quando cheguei lá senti-me muito bem acolhido. A rapariga que me estava a hospedar era uma bióloga marinha, fui sair com ela e com os amigos dela, e foi uma viagem onde conheci muita gente. Mesmo para quem viaja sozinho e fica em hostéis é fácil conhecer pessoas porque muita gente está na mesma situação e os hostéis têm eventos têm os pub crawl (um grupo de pessoas que se reúnem para ir a vários bares). Depois tens free walking tours que é para viajar com outras pessoas. Essas outras pessoas não se conhecem, mas reúnem-se no centro da cidade para conhecer vários monumentos, portanto, as pessoas só estão sozinhas se quiserem.

G. – Estás a falar apenas do lado bom, mas todas as experiências têm um lado menos bom. Qual é o lado menos bom de viajar sozinho?

V. M. – Tudo o que é partilhado é melhor, ou seja, quando vamos jantar fora ou vamos visitar algum lugar, olhar para o lado e ter um amigo ou o que for, e os dois ficamos admirados com algo, ou partilhar alguma experiência, ou ter uma conversa sobre algo, é sempre melhor do que viajar sozinho. Mesmo viajando sozinho e conhecendo pessoas, digamos que é sempre superficial de início, porque não conhecemos bem a pessoa. Portanto, acho que a grande desvantagem é não poder compartilhar os momentos com pessoas que amamos. Agora de resto acho que não existem mais desvantagens.

G. – Sobre os medos, ainda tens medos?

V. M. – Sim, e eu sempre que vou a algum país novo ou a algum lugar novo, na semana antes da viagem, sinto, não diria medo, mas ansiedade, porque uma pessoa não sabe o que vai encontrar, mesmo que seja tudo muito bem planeado e que tenhamos todos os dados da embaixada, todos contactos, tudo organizado, podem surgir imprevistos. No entanto, isso pode acontecer em qualquer parte do mundo, inclusive a nossa rua, imprevistos acontecem. Mas há sempre portugueses, brasileiros que também falam a nossa língua, embaixadas e consulados, por isso, nunca estamos deixados à deriva, digamos assim.

G. – Num dos teus conteúdos falas sobre o facto de viajar parecer quase como uma obrigação. Porque dizes isso?

V. M. – Muitas vezes, principalmente os jovens, veem tantas contas de viajantes e de casais viajantes que andam sempre de um lado para o outro, e isso cria uma pressão principalmente dos mais jovens porque na cabeça deles pensam, “eu para ser cool, tenho de viajar, tenho de ir a qualquer lado”, e eu acredito que, muitas vezes, no fundo, eles até têm umas férias e até preferem ficar em Portugal ou não queriam ir viajar, mas sentem a obrigação de ir por pressão social, porque como está toda a gente a viajar, e como precisa de fotos para as redes sociais então vai. E eu notei isso em relatos de pessoas que me disseram que há pessoas que viajam com elas e não se lembram de pesquisar nada sobre o destino. Chegam a um país e estão mais preocupados em ter wi-fi do que propriamente desfrutar do momento, e às vezes penso que viajar então nem sempre é bom, porque as pessoas muitas vezes viajam não porque realmente querem, mas por “deixem-me viajar para tirar umas fotos e para dizer que faço qualquer coisa”. E eu falo disso porque ninguém precisa de viajar para ser cool, há momentos que não tens de estar a viajar. Eu tive agora um mês sem ir para lado nenhum, não me apeteceu viajar e não há nenhum problema com isso. E muitas vezes há aquela coisa de perguntares a alguém o que gosta de fazer no tempo livre e dizem viajar. Então e o resto? Ler, ver filmes, ou falar com outras pessoas, sei lá... Por vezes, parece que viajar fica tão banal que no próprio conteúdo até me canso de falar só de viagens. E outros bloggers que fazem posts de “a minha vida ideal seria estar sempre a viajar” ou fazem posts de “eu acordo a pensar em viajar eu vou comer a pensar em viajar”, não, tem de haver calma. Resumidamente é isso.

G. – Então é como se viajar fosse tão mainstream que perdeu a sua essência?

V. M. – Eu tenho vários seguidores que me dizem, “Já visitei muitos países, mas não partilho nada”, ou “Já viajei muitos países só que eu não gosto muito de expor a minha cara no Instagram”, e são viajantes como outros quaisquer. Agora, há viajantes que realmente viajam porque desfrutam e adoram partilhar e há excelentes contas, mas também há outros que parece que viajam só para mostrar, para contabilizar países, e não pode ser, acho que temos de acabar com isso, temos de parar para pensar e decidir se quando viajamos é realmente por nós ou se é para mostrar aos outros. Claro, toda gente que viaja, e eu também, gosta de partilhar tudo nas redes sociais com os amigos, e está tudo bem. Agora viajar só para isso mesmo, a menos que seja a profissão, não faz muito sentido. Ou até bloguistas que estão sempre a tentar ficar em hotéis sem pagar, ou ter refeições de restaurantes sem pagar. E muitas vezes as fotos extremamente editadas… tantas vezes que vamos viajar e vemos fotos de um lugar, e quando chega não tem nada a ver, é diferente porque realmente há aí um exagero muito grande na edição de fotos, até o azul da água.

G. – Na tua página apresentas-te dizendo, “já chega de dicas óbvias”. Ainda há muita desinformação?

V. M. – Eu quando digo já chega de dicas óbvias é porque, por exemplo, se uma pessoa vai para o México, uma dica óbvia seria comprar um cartão SIM – óbvia para mim porque muita gente pode não saber. O meu “combate à dica óbvia” é falar de, por exemplo, qual o site para vender os melhores cartões, quais é que têm mais dados móveis ao menor preço possível, ou dar um site com o mapa onde se apanha melhor 5G, qual é a operadora com maior cobertura, ou até em vez de um cartão SIM físico, porque não usar um cartão SIM virtual que é uma nova tecnologia. Digamos que essa parte que eu digo, “já chega de dicas óbvias”, é porque realmente se uma pessoa pesquisar no Google de forma muito básica só vai encontrar isso, se a pessoa quer pesquisar mais detalhes tem de saber ir a outros motores de busca que não o Google, tem que pesquisar em inglês, tem de pesquisar (se for para o México, por exemplo) em espanhol. Há muitos termos de pesquisa que é preciso saber para chegar a certos sites, porque se uma pessoa uma pessoa escrever só em português ou ficar-se pelos três primeiros resultados do Google, só vai encontrar coisas básicas. Para dar dicas, eu vou a fóruns, sites, blogues… O meu objetivo é passar essas dicas mais avançadas, digamos assim, para quem não está acostumado a viajar, e torná-las mais simples.

G. – Ouves muito a frase do “viajas, só podes ser rico”?

V. M. – Antes sentia mais, agora não. Havia pessoas que pensavam que eu era rico por estar sempre a viajar, que não acreditavam em mim quando eu mostrava o preço dos voos, por exemplo, fui para o Brasil por 75 €, e as pessoas não acreditaram em mim, mesmo mostrando o recibo como tinha sido uma promoção da TAP pelos seus 75 anos. Mas, hoje em dia, as pessoas já estão mais familiarizadas. Muitas vezes vejo grupos de Facebook e até comentários de familiares que não acreditam ou acham que o avião vai cair por ser tão barato. Esse tipo de coisas ainda há, sim, e muitos mitos também.

G. – Porque é que em Portugal se continua a viajar tão pouco?

V. M. – É curioso porque a maioria não viaja muito, é verdade, e depois há uma percentagem muito pequena que viaja, mas que viaja mesmo muito. Em termos gerais, há a população que viaja uma vez por ano no verão porque gosta de ir ao Algarve, por exemplo, ou ao Gerês, é aquela pessoa que viaja para fugir à rotina e descansar. Depois existem os jovens que viajam de cinco em cinco meses, três em três meses, dependendo, pela Europa, tiram proveito de companhias low cost, de hostéis, alguns conhecem couchsurfing, às vezes vão ter com outros amigos que estão a fazer Erasmus e ficam na casa deles. E depois existem as pessoas que são mais aventureiras que já viajam um pouco por todo o mundo.           

Viaja-se pouco no geral porque as pessoas ainda acham que é caro, porque na geração dos nossos pais viajar era muito caro, andar de avião para qualquer lado implicava muita logística, não existia a União Europeia. Era tudo mais complicado em termos burocráticos, e essa mentalidade foi ficando. Cabe-nos, a nós, irmos mudando isso. Uma coisa muito boa das viagens e das redes é que as pessoas vão viajando e vão mostrando quanto custa fazer determinada atividade, quanto custa o voo, o alojamento, e as pessoas vão começando pouco a pouco a viajar mais. Mas a razão principal é porque acham que é caro, ou que só através das agências é que conseguem, que não dá para fazer as coisas sozinho.

G. – Também tem a ver com a forma como vemos o dinheiro…

V. M. – É mesmo a forma como nós vemos o mundo. Se eu for jantar à noite e gastar 40 € está tudo bem, mas se calhar já não vou gastar 40 € e ir para um ginásio porque é caro. Mas o ginásio posso ir durante um mês inteiro treinar, e o jantar só uma vez. É a forma como nós enxergamos a vida. Acho que tem a ver com isso, mas é tão subjetivo.

G. – Recentemente, perguntavas na tua página sobre a forma como a Geração Z viaja, que conclusões tiraste?

V. M. – A Geração Z não tem interesse em viajar. A geração Millennials adora muito, adora gastar em experiências, é muito comum fazer um Gap Year, mas para a geração que vem aí, está tudo bastante online, e eles falam com quem quiserem online. Eles vão ter, em breve, experiências em três dimensões e toda a parte de realidade virtual. Têm bastante curiosidade em viajar, pesquisar, conhecer o mundo, mas está tudo no telemóvel e no computador. É cíclico, os nossos pais não queriam viajar, preferiam gastar em mobília, em quadros, em ter património. A nossa geração (Millennials), no geral, quase que basta ter uma cama e um armário no quarto, e o resto é para viajar e para viver a vida. E agora os mais novos (e mais novos de 18 para baixo) estão mais preocupados com as experiências digitais, em gastar no digital, jogar e comunicar online. Pelo menos foi essa a conclusão que eu tirei.

G. – Então a forma como os Millennials encaram o viajar, vai mudar a forma como vamos construir o mundo?

V. M. – O que eu noto é que os Millennials, em breve, e já está a acontecer, vão tornar-se CEO de empresas, e vão ter cargos sénior, e já está a começar a ver uma flexibilidade muito grande. Se quiser ir de férias para não sei onde, pode tirar uns dias para trabalhar lá. Eu trabalho de forma remota e vou poder fazer isso no ano que vem, vou ter férias e também trabalhar onde quiser. Já não há tanto aquela pressão de vir para um escritório, portanto é mais de “trabalha onde quiseres desde que esteja feito”. E o facto de querermos investir nas experiências vai influenciar a geração que vem depois desta, para que eles possam viajar mais também.

G. – Então, olhando para a Geração Z, vão deixar de existir as típicas agências de viagens, como será este mercado?

V. M. – As agências de viagem tê de se reinventar, porque o que eu noto é cada vez mais gente que quer viajar de forma independente, principalmente os jovens, porque fica mais barato do que ir a uma agência de viagens. Quanto às agências de viagens do futuro, eu acho que têm de apostar levar, por exemplo, um determinado grupo de amigos a sítios na Jordânia na Costa Rica, têm de oferecer experiências mais personalizadas. Porque, sinceramente, os mais jovens não vão comprar aqueles pacotes a x euros para as Maldivas ou para Punta Cana. Claro que sempre vai haver uma percentagem de quem compra, mas a maioria parece que já não querem, não querem estar uma semana deitados a apanhar sol. Que é algo muito comum nos boomers, que gostam de tirar férias para passar uma semana sem fazer nada, o que também é bom, mas não é o que interessa á nossa geração.

G. – Já falaste sobre tecnologia. Como é que se mistura com as viagens?

V. M. – A tecnologia é muito importante. Hoje em dia há mesmo sites para tudo, há apps para tudo: há apps para calcular a gorjeta que se deve deixar no restaurante em cada país do mundo, apps para saber como ir do lugar a para b. Longe vão os tempos em que se viajava com o mapa muito grande ou tirávamos muitas fotografias a certos detalhes dos lugares, agora tiramos mais a nós próprios porque já é muita informação e muita fotografia online, a menos que certas pessoas façam isso por prazer, claro. Mas acho que a tecnologia é fundamental porque conseguimos saber de tudo, conseguimos saber em que zonas é que devemos ficar em cada cidade, quais as mais perigosas, qual o melhor cartão SIM, até podemos saber se a água da torneira em determinado país é potável ou não, podemos saber quais os bancos nos quais devemos levantar dinheiro, quais cobram menos taxa de levantamento… A Internet tem tudo, é só mesmo saber onde procurar. Mas como eu sei que é muito difícil encontrar e há pessoas que não sabem procurar ou não querem fazer isso, eu faço por elas. Estou sempre a partilhar conteúdo, e às vezes eu mesmo penso que já não tenho mais nada para dizer, mas aparece uma coisa nova todos os dias

G. – É isso que tens tirado da tua página, que o mundo das viagens é infinito?

V. M. – Sim é mesmo infinito, porque há sempre qualquer coisa a falar, mas também muitas vezes repito conteúdo por outras palavras, porque as pessoas não se lembram de os terem visto, ou só troco os exemplos, então dá sempre para nos reinventarmos. Mas o mais importante que eu aprendi é mesmo ir aos lugares e ver por nós próprios. Mesmo que alguém me diga que teve uma má experiência nalgum lugar, que isso não seja impeditivo de eu ir. Eu já viajei muitos lugares e não gostei muito de Marraquexe, por exemplo, mas há pessoas que foram e que adoraram e dizem que é o seu lugar preferido, então é impossível uma pessoa tirar conclusões antes de ir. Claro que podemos tentar obter opiniões de muitas pessoas, que cuidados devemos ter, o gostaram mais e o que gostaram menos, mas enquanto não formos nós a um certo lugar, é impossível tirar conclusões.

G. – O que podemos esperar do teu projeto no futuro?

V. M. – Para já estou só no Instagram, Tik Tok e no blogue, mas espero ir para o YouTube. O YouTube ainda é um oceano azul em Portugal. Há muito poucos youtubers, muito poucos mesmo. Em Portugal, tudo o que está no digital para qualquer nicho é um oceano azul, não há quase ninguém. Não há muita gente que partilhe dicas de sites e apps, ou como eu que partilho viagens e tecnologia. Há muito para ser explorado.

G. – Para finalizar: é mais fácil ir ou voltar?

V. M. – Essa é difícil. Eu acho que é mais fácil ir. É mais fácil porque quando estamos numa certa rotina queremos mudar e ver coisas novas, então é mais fácil ir. Mas voltar também é bom, porque é sempre bom ter algo a que podemos chamar casa. Toda a gente, mesmo aqueles que viajam pelo mundo de um lado para o outro, têm sempre a sua casa, a sua cidade natal onde está sua família.

Texto de Patrícia Nogueira
Fotografias da cortesia de Vasco Monteiro

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