A “Menina do Mar”, conto de Sophia de Mello Breyner Andresen foi agora adaptado ao teatro com música, numa peça dirigida sobretudo aos mais novos, que acaba de estrear LU.CA, Teatro Luís de Camões, em Lisboa.

Em palco um conjunto de dez músicos, um maestro e cinco atores compõem o elenco desta nova produção que se integra também nas comemorações dos 100 anos do nascimento da escritora portuguesa, nascida no Porto, em 1909. A dirigir a pequena orquestra encontra-se Martim Sousa Tavares, neto da escritora, que traz ao palco a banda sonora original de Edward Luiz Ayres d’Abreu. A encenação está a cargo de Ricardo Neves-Neves, diretor do Teatro do Elétrico, que teve a tarefa de transformar o conto infantil para teatro, adaptando o seu dispositivo cénico aos dias de hoje.

Por entre os atores vislumbram-se, assim, televisores, onde vão passando animações, quer da personagem central do conto – a menina que quer conhecer o “mundo da terra” -, quer dos seus amigos do “mundo do mar”, acabam por dar ao público os dois lados da mesma personagem, uma abordagem distinta que permitiu a Ricardo Neves- Neves o uso, pela primeira vez, monitores de televisão, cumprindo um “desejo de há muito”, explicou à imprensa.

Dessa forma, o encenador pôde personificar os animais do conto – um caranguejo, um polvo e um peixe – sem ter de os mascarar com “fatos de espuma” e também para evidenciar a diferença de tamanho entre o rapaz e a menina do mar, que no conto de Sophia cabe na palma da mão do rapaz.

Não obstante, a verdade é que foi pela música que se formou, conceptualmente, a ideia que, posteriormente, iria moldar a encenação. Com a música Edward Luiz Ayres d’Abreu, Martim Sousa Tavares começou por ter uma ideia mental de como colocar em palco este conto, podendo ser acompanhado por música ao vivo e, uma vez que não lhe agradava a ideia de ter apenas música gravada como fundo.

Em declarações à imprensa, Martim Sousa Tavares considera, no entanto que, do ponto de vista musical, a “Menina do Mar” já “está bastante bem servida”, destacando a versão “canónica”, com música de Fernando Lopes-Graça e voz de Eunice Muñoz, a de Bernardo Sassetti, com Beatriz Batarda, uma versão “de jazz”, composta por Filipe Raposo a partir da de Bernardo Sassetti, e outra de Filipe La Féria.

“Faltava-lhe uma coisa que fosse mesmo uma produção a sério, com uma orquestra, com uma encenação de facto interessante e vim aqui fazer este desafio à Susana Menezes [diretora artística do LU.CA, Teatro Luís de Camões] mal o teatro acabara de abrir”, explicou o músico.

De acordo com o neto da poetisa portuguesa, o projeto nasceu para ser feito em Lisboa e no Porto, na Casa Andresen, antiga Quinta do Campo Alegre, ligada à infância da Sophia e do seu primo, também escritor, Ruben A., onde funciona atualmente a galeria da Biodiversidade e o Jardim Botânico do Porto.

Como curador das comemorações do centenário de nascimento da autora naquele espaço, a ideia de Martim Sousa Tavares era a de “fazer uma versão sem cenário, com músicos e atores, por ocasião do centenário de nascimento da escritora, mas como o LU.CA tinha acabado de abrir [junho de 2018] e é o único teatro infantojuvenil, vim propor a ideia à diretora artística da sala”, frisou o músico, que, na altura, se encontrava a estudar fora de Portugal há seis anos.

A ideia “agradou” a Susana Menezes, por ter a ver com uma efeméride importante, por o espaço ser direcionado para o público infantojuvenil e porque “ter um neto a dirigir uma partitura para um texto da avó, é algo que enternece todos”, explicou a diretora aos jornalistas.

Assim “nasceu a ideia de ‘isto’ ser um teatro a sério”, com o LU.CA a assumir-se como coprodutor, ainda antes de haver um encenador escolhido, já que este foi encontrado a partir de uma lista com dez nomes propostos pelo maestro, com outros tantos sugeridos por Susana Menezes, disse Martim Sousa Tavares.

A escolha recaiu em Ricardo Neves-Neves, nome mencionado por ambos, e acabou por ditar a estreia do espetáculo em Lisboa, acrescentou Sousa Tavares, sem se preocupar com o que a avó poderia pensar do espetáculo, e apenas por pensar que a autora “merece ser celebrada”.

Feliz por ver o espetáculo montado, Martim Sousa Tavares justifica a escolha deste conto apenas porque é o primeiro de uma sequência de histórias fantásticas da autora e por ser também aquele que melhor se adequa ao público mais jovem, até pela sua duração, perto de 40 minutos.

A “Menina do Mar” permanece em cena no LU.CA até ao próximo dia 12 de maio, com vários horários de manhã e de tarde. Depois disso, o espetáculo pára durante uns meses e regressa em setembro, com uma digressão que irá passar pelo Porto, Guimarães, Penafiel, Ovar, Coimbra, Aveiro, Lagos, Loulé, Bragança

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografias de Alípio Padilha

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