Embora muitas vezes tenha feito biscates de tradutor-intérprete enquanto era adolescente, para receber mais algum dinheiro para a folia, considero que trabalho a sério desde os meus 21 anos, quando fiquei na faculdade a dar aulas logo depois da licenciatura.  Mas, no mundo empresarial, apenas entrei quando tinha 25 anos. Desde esse tempo – e por inerência de funções – muito tenho viajado.

Era na altura em que eu ajudava a desenhar uma rede de representantes internacionais que abrangia quase todos os continentes. Tínhamos contratos para discutir e assinar, reuniões duas vezes por ano para acertar objetivos e definir estratégias, e ainda havia duas ou três Exposições Mundiais também anualmente, muitas vezes fora da Europa.

Mais tarde, quando comecei a   ser observado pela gestão de topo  internacional da atividade, fui nomeado perito da Comunidade Económica Europeia para  as minhas áreas de intervenção e nessas funções muitas vezes viajei para a sede (Bruxelas,  duas vezes por mês, durante quase 5 anos) e para os novos países que tinham surgido como consequência da queda do muro de Berlim e da Perestroika,  para dar formação.

A UE estava na forja, o mundo parecia novo e um local admirável para trabalhar, agora que o muro tinha caído e que todas as esperanças eram possíveis.

Mas mesmo nessa altura em que por inerência da  função tinha direito a viajar em classe executiva, sempre continuei a não achar muita graça aos tempos perdidos nos aeroportos e aos “aeroplanos”…
E reparem que nesses tempos  viajar de avião não tinha mais problemas do que sermos conduzidos na cabine ao lugar designado, e depois esperar que o gentil pessoal de bordo começasse a trazer os whiskies….

Recordo que nas viagens recorrentes para Bruxelas o pessoal de cabine já me conhecia pelo nome e sabia o que eu bebia (serviço exemplar da TAP, esse sim, deixa-me saudades).

Todavia – e não obstante algumas mordomias de passageiro frequente – sempre considerei que viajar de avião era, e ainda o é, uma necessidade,  sem meter nessa equação as variáveis condicionantes do prazer.  O avião era apertado para gente de peso como eu (acho que ainda somos “gente”, mas não sei por quanto tempo mais…), a comida a bordo era de recurso, e  se tínhamos o azar de ter ao lado uma “melga” numa viagem de longo curso nem lhes digo os tormentos que passávamos.

Havia momentos menos maus, como naquela vez em que viajava de Seul para Paris na “Air France”, em executiva. O único passageiro de 1ª classe – um alto dignitário de um país africano com quem tínhamos reunido no Congresso da UPU da Coreia – aborreceu-se de lá estar sozinho naquelas poltronas imensas e como me conhecia veio pedir à hospedeira que me deixasse ir para o lado dele, para conversarmos. A hospedeira queria era ir descansar (o que se compreende) e disse logo que sim.

E então é que foi ver o vosso amigo a ter acesso direto a garrafas de Veuve Cliquot das verdadeiras (não miniaturas!!) e foie gras Comtesse Du Barry…

Mas se tivesse de fazer um balanço destes mais de 40 anos de muitas viagens, e à parte o fator muito  importante de nunca ter havido uma chatice séria, isto é, de  o “avianito” sempre me ter ido  buscar e de me pousar depois sem grandes problemas, não posso dizer que fiquei “fan” do transporte aéreo.

Devo sublinhar que consegui passar por estas exéquias sem nunca ter voado no que se chama “low cost”, uma invenção demoníaca para ainda mais retirar atratividade às viagens de avião.

Hoje em dia, o que se poderá dizer? Só de pensar que partimos podendo acontecer que no regresso mude a situação sanitária no país de origem e lá ficamos de quarentena…

Está difícil a vida para os que têm mesmo de viajar em trabalho para fora do velho continente. Não bastava a existência de restrições – que não são de agora – quanto ao consumo de álcool a bordo (sempre ajudava a passar o tempo), como ainda por cima temos de usar máscara facial em todo o percurso (presumo que se tire para comer).

Tudo isto me leva a considerar que sendo hoje um mal necessário viajar de avião em negócios, só quem seja muito corajoso ou se encontre naquela fase da vida em que “l’aventure c’est l’aventure” (mesmo sem pensar em raptar o  falecido Johnny Halliday para fins publicitários…) é que escolherá este meio de transporte para atividades de lazer. Que me perdoem os amigos da indústria hoteleira este desabafo sincero. Mas eu vou para fora cá dentro…Em busca do cabrito estonado e de outras coisas parecidas.

-Sobre Manuel Luar-

Manuel Luar é o pseudónimo de alguém que nasceu em Lisboa, a 31 de agosto de 1955, tendo concluído a Licenciatura em Organização e Gestão de Empresas, no ISCTE, em 1976. Foi Professor Auxiliar Convidado do ISCTE em Métodos Quantitativos de Gestão, entre 1977 e 2006. Colaborou em Mestrados, Pós-Graduações e Programas de Doutoramento no ISCTE e no IST. É diretor de Edições (livros) e de Emissões (selos) dos CTT, desde 1991, administrador executivo da Fundação Portuguesa das Comunicações em representação do Instituidor CTT e foi Chairman da Associação Mundial para o Desenvolvimento da Filatelia (ONU) desde 2006 e até 2012. A gastronomia e cozinha tradicional portuguesa são um dos seus interesses.  Editou centenas de selos postais sobre a Gastronomia de Portugal e ainda 11 livros bilingues escritos pelos maiores especialistas nesses assuntos. São mais de 2000 páginas e de 57 000 volumes vendidos, onde se divulgou por todo o mundo a arte da Gastronomia Portuguesa. Publica crónicas de crítica gastronómica e comentários relativos a estes temas no Gerador. Fez parte do corpo de júri da AHRESP – Associação de Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal – para selecionar os Prémios do Ano e colabora ativamente com a Federação das Confrarias Gastronómicas de Portugal para a organização do Dia Nacional da Gastronomia Portuguesa, desde a sua criação. É Comendador da Ordem de Mérito da República Italiana.

Texto de Manuel Luar
Ilustração de André Carrilho 
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