A entrada em 2020 reforça a certeza da importância que o Teatro Municipal da Guarda (TMG) tem ocupado ao longo dos últimos anos. Com uma programação eclética – que vai dos concertos das bandas de hoje às mais clássicas, mas passa inevitavelmente pelo que mais relevante se tem feito no teatro e na dança – o TMG afirma-se como polo cultural que contagia e se deixa contagiar pelos habitantes da Guarda e por quem lá passa e decide entrar para melhor conhecer o edifício que convida a entrar pelas grandes janelas que permitem espreitar para o seu interior.

Victor Afonso é o programador e coordenador que orgulhosamente fala do TMG como se de sua casa se tratasse e que vê na Guarda o desafio e o privilégio de programar para públicos nem sempre óbvios. Licenciado em educação musical, Victor trata desde cedo a arte por tu e conhece-a tão bem ao ponto de conseguir cruzar as suas diferentes vertentes num espaço físico – o Teatro Municipal da Guarda. A esse espaço conhece os cantos, as virtudes e as fragilidades, inclusive aquelas a que podiam ser dadas as mãos por terceiros. “Durante estes 14 anos de vida, o TMG procurou várias fontes de financiamento estatal a partir de entidades privadas ou de candidaturas europeias, mas nunca foi fácil”, aponta.

A propósito da reportagem “Os Privados e a Cultura: uma história entre o estigma e o consenso”, publicada na Revista Gerador 28, o Gerador entrevistou-o para melhor entender como se gere um teatro municipal e de que forma é que os apoios privados podem ou não apoiar este tipo de estruturas. Hoje resgatámos a conversa que tivemos em setembro para voltar a pôr em cima da mesa a sua visão e a partilharmos de forma mais ampla com os leitores.

Gerador (G.) – O Teatro Municipal da Guarda é um espaço naturalmente associado ao município da Guarda. Tendo em conta o vosso contexto, qual a importância do apoio estatal/municipal na dinamização da cultura?
Victor Afonso (V.A.) – O Teatro Municipal da Guarda apenas beneficiou do apoio estatal durante o primeiro ano de atividade (em 2005). Tratava-se do POC, Programa Operacional de Cultura, impulsionado pelo então Ministro da Cultura, Manuel Maria Carrilho. Ou seja, este apoio financeiro de valores significativos durante o primeiro ano de atividade foi determinante para o TMG se afirmar na programação cultural a nível nacional. Lembrar também que o TMG foi gerido durante mais de 10 anos através de uma empresa municipal de cultura, que permitia maior autonomia e agilidade na gestão orçamental e na contratação de recursos humanos qualificados. No entanto, logo a partir do segundo ano de atividade, o Ministério da Cultura deixou de financiar os teatros, e estes ficaram à mercê quase exclusiva do apoio municipal e de algum apoio privado residual. Foi o que aconteceu como TMG, que desde 2006 até à atualidade, tem sido praticamente financiado exclusivamente pela câmara municipal. Durante estes 14 anos de vida, o TMG procurou várias fontes de financiamento estatal a partir de entidades privadas ou de candidaturas europeias, mas nunca foi fácil. A Guarda é uma cidade pequena com poucas empresas com capital suficiente para investir. As grandes marcas e empresas nacionais apenas apoiam grandes instituições de cultura com dimensão nacional, porque sabem que têm retorno e visibilidade pública. Ainda assim, houve alguns apoios pontuais de empresas, mas com montantes quase irrisórios e insuficientes. Daí que o apoio financeiro do município tem sido praticamente a única fonte de financiamento da atividade do TMG.

O Estado não pode desresponsabilizar-se de encontrar instrumentos de financiamento à criação e fruição culturais, através da ação de organismos como a DGArtes ou de projetos como o recente aprovado diploma que prevê a criação de uma rede de teatros e cineteatros e respetivo financiamento.

G. – Parece existir uma tendência de crescimento face aos apoios para a cultura por parte de privados. Considera importante e vê benefícios nesta relação entre o setor privado e a cultura?
V.A. – Sim, desde que os privados não tenham a tentação de intervir na gestão cultural das estruturas que apoiem. O tecido económico nacional e os grandes empresários sabem que a cultura é um dos setores que gera mais receita e que mais contribui para o crescimento do PIB, até mais do que a indústria automóvel. E têm começado a apoiar, mas de forma desigual, isto porque uma grande empresa prefere dar 1 milhão de euros para um festival mediático do que dar 100 mil euros para 10 projetos culturais de menor dimensão e, logo, de menor visibilidade pública (mas não menos importante do que o "megafestival"). E era interessante e produtivo que esta ordem de relações tivesse maior equilíbrio.

G. – De que forma é que a cultura pode beneficiar, ou não, destes apoios privados?
V.A. – Beneficiar pode na estrita ótica financeira e orçamental. Quanto mais investimento económico tiver a cultura (vindo de onde vier), à partida melhores condições haverá para os criadores, artistas e entidades culturais fazerem o seu trabalho. O problema é quando há promiscuidades e interferências entre os privados e a gestão cultural dos projectos, e isso não pode acontecer. A produção cultural e artística deve ter e assegurar total independência e gerir os fundos financeiros da forma que achar mais adequada.

G. – Existe ainda algum estigma face à participação de privados e marcas na cultura?
V.A. – Só pode gerar estigma em mentes conservadoras e preconceituosas. A cultura gera economia, gera fluxos turísticos, cria empregos e contribui para uma melhor e mais feliz sociedade. Não vejo como a participação de privados na cultura possa ser estigmatizante, é antes altamente estimuladora no sentido que pode alavancar e desenvolver os projetos culturais pela via financeira. De resto, pensemos que há projetos culturais portugueses que se não fosse o apoio privado simplesmente não existiriam, como é o caso do concurso BES Photo (desde 2004 Novo Banco Photo). Sem este apoio essencial dificilmente existiria este importante projeto de fotografia. Grandes instituições culturais, desde teatros municipais e nacionais, festivais de música e cinema, têm associados marcas e empresas, como apoios ou mecenas oficiais. Era bom que houvesse mais apoio mecenático à vida cultura nacional – como em Espanha que é bem mais expressivo.

G. – E as marcas, sente que olham para os meios mais periféricos e do interior como uma aposta ou, pelo contrário, o investimento continua focado nos grandes centros urbanos?
V.A. – Falou de estigma numa pergunta anterior. O verdadeiro estigma está no chamado “interior”, porque ele é entendido pejorativamente como a periferia da periferia, como se só alguns grandes centros urbanos do litoral fossem exemplos icónicos nas boas práticas culturais. O interior, do qual a Guarda faz parte, luta para sobreviver, e a cultura é uma boia de salvação, porque ajuda a fortalecera coesão territorial e a afirmar a cidade a nível nacional. A visão dos detentores do grande capital e dos CEO das médias e grandes empresas é de que raramente olham para o interior como uma oportunidade ou uma aposta. Antes preferem injetar milhões em projetos seguros de imediato retorno publicitário. O TMG é um equipamento moderno que está ao nível – ou até melhor – dos mais referenciados teatros de qualquer cidade do país, inclusive do Porto e Lisboa. Tem uma programação rica, diversificada e regular durante todo o ano desde 2005. Era importante que os investidores olhassem para o interior e vissem que era um serviço público investir aqui, como alavanca de desenvolvimento a todos os níveis. Mas há bons exemplos, como a primeira Feira Ibérica de Teatro ocorrida em junho numa cidade do interior, o Fundão. É um bom exemplo que contraria o preconceito e o sentimento de superioridade do “país do litoral.”

G. – As marcas são os mecenas do novo milénio?
V.A. – É uma perspetiva interessante. E comprova-se quando olhamos para grandes festivais que já não vivem sem a marca na sua designação: EDP Cool Jazz, NOS Primavera Sound, Vodafone Parede de Coura ou MEO Sudoeste. Mas não tenho a certeza se as marcas abafam ou destroem a verdadeira essência e identidade dos eventos culturais, de tão expostas que estão em todo o lado. Nem faço ideia se têm algum tipo de interferência perniciosa na programação artística desses festivais… Se a não houver interferência, nada a opor. Mas como referi anteriormente, os mecenas não devem ser os únicos a financiar a atividade cultural, mas também é um dever do Estado central e do Estado descentralizado.

Há um filósofo que adoro, Gilles Lipovestsky, que tem refletido há muitos anos sobre o fenómeno do consumismo, da modernidade e da cultura na era global e digital. E ele defende que a noção de cultura se alterou profundamente na última década. Nos nossos dias, moda, publicidade, turismo, arte, urbanismo… nada escapa ao domínio da cultura. Esta transformou-se numa cultura-mundo (título de um livro do ensaísta), a do tecnocapitalismo generalizado, das indústrias culturais, do consumismo à escala global, dos média e das redes digitais. Mas é preciso saber discernir o valor da verdadeira “cultura transformadora” (como defendia Sophia de Mello Andresen) da cultura do entretenimento proporcionado pelo mundo alienado e efémero da moda e da publicidade. E vou continuar a acreditar que, mesmo que não haja intervenção dos mecenas, se pode continuar a fazer boa arte e boa cultura com pouco dinheiro, havendo criatividade para tal (e exemplos não faltam).

G. – Enquanto agente cultural, que abordagem é que o Victor defende que as marcas devem adoptar ao tentar entrar no universo cultural?
V.A. – As marcas e empresas por detrás destas devem tentar compreender a verdadeira e genuína identidade cultural de um teatro, de uma instituição ou de um projeto. Os mecenas devem ter visão e conhecimentos do tecido cultural nacional e perceber as assimetrias regionais (que as há e são muito acentuadas).Um CEO com boa formação cultural que saiba analisar o efeito que o apoio pode proporcionar a determinada produção cultural. Por outro lado, a comunidade artística e os agentes culturais devem também saber olhar para as marcas como potenciais instrumentos catalisadores da cultura – apesar da visão pessimista do já citado Lipovetsky. Depois deve haver negociação ponderada e proceder a protocolos de colaboração profícua para ambas as partes. Se as empresas detentoras das marcas não tiverem segundas intenções unicamente comerciais, e se os agentes culturais esvaziarem a cabeça de preconceitos, talvez se incremente esta relação e os frutos ajudem ao desenvolvimento do país.

A reportagem “Os Privados na Cultura: uma história entre o estigma e o consenso”, integrada na Revista Gerador 28, é publicada domingo, dia 12 de janeiro, em gerador.eu. Até lá podes saber mais sobre o Teatro Municipal da Guarda, aqui.

Texto de Carolina Franco e Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografias de TMG disponível no site oficial

Se queres ler mais notícias sobre a cultura em Portugal, clica aqui.