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“Virgens Suicidas”: John Romão leva aos palcos distopia sobre o fim da inocência

Temas como o suicídio, o controlo ditatorial, a competição entre pares ou o amor proibido…

Texto de Ricardo Gonçalves

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Temas como o suicídio, o controlo ditatorial, a competição entre pares ou o amor proibido marcam a nova peça de John Romão, que regressa aos palcos mais convencionais, após um período em que se manteve focado no seu trabalho como diretor artístico da bienal de arte contemporânea BoCA.

Em Virgens Suicidas, peça que se estreia esta quarta-feira, dia 15, na Culturgest, em Lisboa, o encenador constrói uma distopia que fala sobre o fim da inocência e o desenvolvimento das mentalidades no período da adolescência. Neste universo, o espetador é confrontado com uma turma de ginastas controladas por três tutoras obsessivas, interpretadas por  Luísa Cruz, Mariana Tengner Barros e Vera Mantero, que tudo fazem para manter o status quo de um sistema altamente repressivo.

Para esta criação, com um tom contemporâneo, o romance homónimo do autor norte-americano Jeffrey Eugenides (1960), do qual tirou a ideia “uma distopia funcional em que tudo acaba por ser hipótese”, mas também a novela Mine-Haha, do autor alemão Frank Wedekind (1864-1918), datado de 1903, serviram como base de inspiração.

“Tinha em cima da mesa estes dois textos, que li em momentos diferentes. Conhecia já o das Virgens Suicidas, pelo romance que é genial, super intenso e um objeto incrível, e pelo filme. O texto do Frank Wedekind não conhecia. Portanto, ele chegou quando comecei a investigar sobre suicídio na adolescência e sobre estas pulsões tão sexuais quanto de morte que podem surgir neste período da adolescência”, explicou o encenador no final de um ensaio para a imprensa.

Em ambas as referências, é possível estabelecer pontos de ligação com as temáticas que John Romão pretende debater. Num cenário cru, onde sobre uma alcatifa cinzenta se encontram uma espécie de pódio, alguns colchões, um carrinho de enfermagem, correntes e mais alguns objetos, assistimos ao dia-a-dia de uma das turmas que aqui habitam, onde todos os comportamentos que forma contra as normas instituídas são visto como transgressões puníveis.

De acordo com o encenador, é desta forma que a peça – orientada essencialmente por “pulsões de morte” (Thanatos) - se torna num “um elogio à liberdade”, apesar daquilo que é representado “ser sempre uma coisa repressiva e ditatorial”. Aliando a transformação do corpo e das personalidades das jovens ginastas, Virgens Suicidas é pontuada de “momentos de liberdade”, onde a “curiosidade é um risco” a tomar.

Do espaço apresentado e daquelas personagens sabe-se apenas que as tutoras estão a formar as jovens para um espetáculo, supostamente de fim de ano, e sobre o qual se especula. A especulação é, de resto, outro dos principais factores que marca o tom da peça. Só trabalhando com isso em mente é que poderia falar de “uma certa irracionalidade” que está presente nas mentalidades dos mais jovens, acrescenta.

“Aquilo que me interessava sempre é essa impenetrabilidade de entrar na cabeça dos adolescentes”, sintetiza o encenador, destacando ainda o facto de ao contrário de um clássico da literatura adaptado à atualidade é o momento presente – em que muitos destes temas estão em cima da mesa - que atualiza os textos que aqui adapta.

Além das atrizes mencionadas, Carlos Lebre, Catarina Bertrand Torres, Céline Martins, Inês Azedo, Inês Costa Graça, Maria Costa, Marta Nunes, Margarida Caldeira, Mariana Cardoso e Mafalda Rey interpretam as jovens ginastas.

Virgens Suicidas, que teve uma pré-estreia em outubro de 2019, na Fábrica da Criatividade, em Castelo Branco, segue depois da Culturgest, para o Teatro de Campo Alegre, no Porto, estando em cena nos dias 24 e 25 deste mês.

A produção de Virgens Suicidas é do Coletivo 84, com a Culturgest, o Teatro Municipal do Porto e o Cine-Teatro Avenida, de Castelo Branco, e resultou de residências artísticas realizadas em Lisboa, nos Estúdios Victor Córdon, no CAB - Centro Coreográfico de Lisboa, na Companhia Olga Roriz, na Companhia Clara Andermatt e na ProDança, e n'O Espaço do Tempo, em Montemor-o-Novo.

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografia de Bruno Simão

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