O que acontece com o mundo acontece connosco. Este é mote da segunda edição da Bienal'21 Fotografia do Porto e representa, segundo o diretor artístico deste evento, uma “expansão” da caminhada iniciada em 2019.

Em entrevista ao Gerador, Virgílio Ferreira explica que a intenção era "mais uma vez, questionar, lembrar e refletir sobre esta teia tentacular na qual nós vivemos". "Nós não estamos separados do mundo, nem o mundo está separado de nós”, explica.

A decorrer desde 14 de maio, a Bienal'21 reúne 46 artistas nacionais e internacionais em 19 exposições, patentes até 27 de junho. Virgílio Ferreira destaca que todos os espaços são de acesso livre, mas pretendem ser muito mais do que uma mostra. “Acho que é um fator que distingue a Bienal é que não é um showcase”, afirma. “Aquilo que nos interessa aqui é, de facto, criar esta plataforma de criação, de investigação, de experimentação, de ensaio, e convidar artistas e curadores e comunidades a desenvolver trabalhos”, sublinha o responsável.

Gerador (G.) - A edição deste ano da Bienal tem como mote “O que acontece com o mundo acontece connosco”. O que esteve por detrás da escolha deste tema?

Virgílio Ferreira (V. F.) -  A razão que está por trás desta escolha, no fundo, reflete o trabalho que nós iniciámos há dois anos, com a primeira edição, cujo mote foi Adaptação e Transição. Também se relaciona com o eixo temático que a Ci.CLo tem vindo também a explorar em todos os projetos, e que está para além da Bienal.

Em 2019, quando escolhemos esse mote de Adaptação e Transição, de facto, foi quase visionário porque, na realidade, é aquilo que nós estamos hoje a viver, principalmente neste período de pandemia. [São] duas palavras de ordem e de força. Sem dúvida tivemos de nos adaptar, e também temos que transitar não é? Portanto, há aqui uma oportunidade. Sim, há muitas portas que se fecharam, mas também há muitas janelas que se abriram, e acho que ninguém ficou isento nisto. Acho que toda a gente foi tocada no sentido de refletir sobre a sua relação com o mundo, com os outros, o [lado] social, ecológico. Houve um momento de suspensão que permitiu, também, essa reflexão. [O mote] Adaptação e Transição também propunha isso, propunha essa reflexão sobre essas palavras, o que é que elas significavam. Portanto, [o tema] O que é que acontece com o mundo, acontece connosco expande, no fundo, essa caminhada que nós iniciamos em 2019. É quase uma espécie de espelho, ou de efeito borboleta, em que o impacto de algo que eu estou a fazer aqui, também se reflete do outro lado e tem [um efeito] em mim e vice-versa.

[Queríamos] também, mais uma vez, questionar, lembrar e refletir sobre esta teia tentacular na qual nós vivemos. Nós não estamos separados do mundo, nem o mundo está separado de nós e, portanto, esta ideia de separação - que eu acho que séculos de cultura têm, de alguma forma, privilegiado - entre nós e os animais, nós e a natureza, nós e os outros, nós e a diferença, "o" diferente, ou a nossa raça e a outra raça... essa ideia, aqui, está obviamente exposta nesse sentido e a levantar questões, quer sejam elas do âmbito social, sejam elas do âmbito ecológico, cultural, e por aí fora. No fundo foi essa intenção também, de expandirmos o mote de 2019 para este 2021.

Ao mesmo tempo também [queríamos que] o mote trouxesse, em si mesmo, uma imagem. Acho que o título é forte, acho que conseguimos visualizar qualquer coisa a partir daquilo. Isso também era importante.

(G.) - É um tema que, de certa forma, é alusivo à pandemia? Pensaram nisso quando o definiram?

(V. F.) - As coisas estavam a acontecer lado a lado, mas, honestamente, não foi em resposta à pandemia - embora a pandemia também entre aqui, como é óbvio. A pandemia também é - ou pelo menos tudo leva a crer [que seja] - um dos impactos da intervenção insustentável do homem, e da forma agressiva como nós lidamos com os ecossistemas e com os animais e, toda essa questão, obviamente, está relacionada, mas [o tema da Bienal] não está diretamente ligado à pandemia. Até porque - lá está - isto é uma caminhada que nós iniciámos, já há alguns anos, e que tem aqui a sua continuidade.

Não foi a pandemia que nos fez refletir sobre isso, são assuntos que nós já estamos a refletir, e antes de haver a pandemia, havia outros problemas nos quais nós também estamos focados.

(G.) -Este ano a Bienal ocupa 19 espaços expositivos, o que é um alargamento face à edição anterior. Pode falar-nos um pouco sobre eles?

(V. F.) - Eles não são 19 espaços, são 15 espaços mas são 19 as exposições (porque há espaços que têm mais do que uma exposição). Houve um alargamento, sim, mas foi algo que aconteceu de uma forma também orgânica, porque houve novos espaços que surgiram na cidade que não existiam. Um deles, por exemplo, está relacionado com a fotografia, mas, também, houve a necessidade de encontrar espaços que são adequados a determinadas propostas expositivas e isso para nós é sempre importante. Acho que é um fator que distingue a Bienal é que não é um showcase, ou seja, nós não expomos projetos que estão resolvidos - não é que não exista isso também - ou projetos já foram publicados. Aquilo que nos interessa aqui é, de facto, criar esta plataforma de criação, de investigação, de experimentação, de ensaio, e convidar artistas e curadores e comunidades a desenvolver trabalhos. Isso significa que obviamente, depois, temos de pensar o espaço expositivo, qual o espaço que, eventualmente, faria mais sentido para este projeto. Daí ser mais esse ambiente orgânico que eu lhe falei.

Mas sim, a Bienal expandiu. Correu muito bem a primeira edição, apesar do curto tempo/espaço que nós tivemos para a preparar. Na primeira edição, também, eram 12 [exposições]...acho que não cresceu assim muito, mas cresceu em número de artistas e, se calhar, cresceu em termos de dimensão e de laboratórios, digamos assim, destas residências.

(G.) - O que pode dizer-nos acerca das obras que vão estar expostas?

(V. F.) - Há propostas bastante distintas. Há estratégias artísticas que são exploradas aqui, que são bastante distintas. Obviamente que o elemento central é a fotografia, mas também há o vídeo, o som, a palavra. Temos artistas nacionais, temos artistas internacionais, temos artistas de grande renome internacional e também temos artistas emergentes. Depois há, obviamente, exposições que são nucleares como, por exemplo, a exposição no Centro Português de Fotografia [The Horizon Is Moving Nearer] que é uma curadoria do Tim Clark. Reúne perspetivas de oito artistas de grande renome internacional e que, neste momento, têm uma visibilidade incrível, ou pelas publicações que fizeram, ou pelos livros que fizeram...  Quase todos eles são trabalhos documentais, expandidos, de longa duração e que, por exemplo, exploram tópicos como a masculinidade, a violência de género, o racismo, abusos de direitos humanos, o Trump, o Brexit, entre outros. Esta exposição é uma exposição... não querendo chamar-lhe complexa, mas... é densa. Os assuntos são densos, são complexos e, obviamente, é difícil tratar tamanha complexidade numa exposição ou num espaço expositivo. Daí estes artistas recorrerem muito, também ao texto, ao vídeo, recorrerem à fotografia. No fundo há vários media que estão envolvidos. É de facto incrível a qualidade desses trabalhos e o comprometimento destes artistas perante os temas que têm vindo a trabalhar.

Depois temos a exposição na Reitoria [da Universidade do Porto], que é um trabalho que foi desenvolvido [no âmbito] de um convite que lançámos à Lydia Matthews, curadora, educadora e ativista cultural e no qual ela convida também dois artistas de grande renome internacional: o Alfredo Jaar, um artista que tem exposto em tudo o que é museu, e a Susan Meiselas, que é uma figura mítica da Magnum [Photos], que está aqui a tratar a questão do legado do colonialismo português. O Alfredo Jaar, [traz] um filme - que é uma poesia visual incrível - sobre esse impacto e a realidade em Angola e que também expande para outros tópicos, como a questão da guerra civil, a questão da pandemia do HIV/SIDA.... Há ali várias questões que estão em cima da mesa, mas sempre com um olhar em torno dessa herança colonial portuguesa.

Depois, a Souza Meiselas foi um desafio que se fez dentro das residências - dos tais laboratórios que lhe falei -, no Porto, à distância, com um grupo a coordenar aqui no terreno. [Esteve], da Faculdade de Letras, do curso de Sociologia, a Lígia ferro e uma aluna de mestrado, a Beatriz, e mais outra equipa a trabalhar sobre a comunidade afrodescendente do Porto. É uma comunidade que acaba por ser...não é invisível, ela existe e é forte, está ramificada, mas, por exemplo, comparativamente a Lisboa [é diferente]. Não tem aqueles grandes centros, como a Cova da Moura, onde há uma comunidade muito forte, onde há uma voz, uma presença que é inegável. Aqui é muito mais dispersa e, portanto, em conjunto com essa comunidade, em conjunto com artistas afrodescendentes, e à distância - a Susan em Nova Iorque, a Lídia na Grécia, e nós aqui, que fomos coordenando este projeto – é, de facto, uma imersão, por um Porto que não é conhecido. É assim uma viagem pelas memórias, pela identidade destas pessoas. Mesmo em contexto de pandemia em que tudo estava, obviamente, em confinamento, [perguntamo-nos] como é que isto aconteceu. É que também as pessoas e a comunidade se abriram ao projeto. Numa altura que nós estávamos todos fechados e com os nossos medos, como é óbvio, [as pessoas podiam questionar-se] "Mas agora vou receber estranhos?", "Mas agora vou-me expor à fotografia?", "E agora vou abrir as portas da minha casa?", "E vou contar a história da minha vida"?. Nada disso. Foi incrível a colaboração. É um trabalho que tem várias dimensões, recorre a várias estratégias artísticas, é um trabalho de colaboração pura e dura e de uma forma incrível, com a comunidade.

A exposição expande para vários formatos, até inclusive a realidade aumentada - ou seja há objetos que nos ligam a vídeos, à história dessas pessoas a partir do telemóvel. Tem aqui um corpo de trabalho muito interessante e que vai continuar. Vai ter uma grande presença online, [pois] também inclui o desenvolvimento de um site, feito em parceria com a New School. A Wanda Lidia é a curadora - é professora e coordena um curso de curadoria. Portanto, está a ser desenvolvido um site, que vai ser depois alojado no site da Bienal, onde todas estas vozes vão estar presentes e, no fundo, onde há uma partilha quer dos artistas afrodescendentes, a música, dos artistas visuais e por aí fora. É um projeto, uma exposição que eu diria bastante forte e emblemática, e que também envolve, como eu disse, a comunidade aqui do Porto.

(G.) - Já que menciona essa questão do digital, aproveito para perguntar: acha que as mudanças a que assistimos têm mais vantagens ou desvantagens? E acha que se vão tornar estruturais daqui para a frente?

(V. F.) - Eu acho que vantagens e desvantagens existem sempre. No caso das exposições, eu acho que só existem desvantagens, porque o online, por mais que nós desenhemos um site que pretende proporcionar uma boa experiência ao visitante, ao utilizador, e que as coisas - a informação e conteúdos - estejam destilados, eu acho que isto funciona como uma apresentação do projeto e não como uma plataforma expositiva, porque é bastante diferente - apesar, também, de termos uma exposição online de quatro trabalhos, mas que, depois, vão ser apresentados em Lisboa. Mas a questão da exposição é fundamental, a fisicalidade do objeto, porque este encontro do corpo com um objeto, do corpo com o objeto de arte é fundamental porque, caso contrário, esta questão da aura perde-se. O espaço conta, o som conta, a luz conta, tudo conta, não é?

A atmosfera que é criada em cada uma das exposições faz parte dessa experiência que o público tem que ter e tem que passar. Até porque, a forma como esses conteúdos artísticos são apresentados e destilados, numa plataforma online...estamos extremamente limitados, por muito criativos que possamos ser, por muitas estratégias que se possa encontrar, não é a mesma coisa, nunca será.

Agora, no sentido de partilha, de [divulgação] de qual é o programa, que artistas é que lá estão, que conteúdos é que estamos a tratar, [revelar] uma imagem ou duas que sejam emblemáticas da exposição, acho que nisso, obviamente, o website é fantástico e cumpre muito bem a sua função, mas como uma plataforma expositiva eu acho que é muito redutor.

(G.) - Mas há mudanças que vieram para ficar?

(V. F.) - Estas questões não me parece que estejam em cima da mesa, pelo menos da nossa parte. Está em cima da mesa que queremos obviamente continuar a pensar o espaço expositivo e olhar para os projetos artísticos e serem apresentados nesse contexto. Claro que o online, em termos de disseminação, é fantástico. Porque qualquer pessoa em qualquer parte do mundo pode aceder ao website e perceber o que é que está a acontecer, mas essa experiência [física] tem que acontecer, tem que ser site specific, e, por isso, o espaço expositivo é fundamental. Pode não ser um espaço expositivo comum, tradicional, mas o espaço é importantíssimo.

(G.) - Sei que foram disponibilizados "blocos" no site, pensados para alargar as possibilidades e chegar a uma maior audiência. Pode explicar em que consistem?

(V. F.) - Lá está: para, também, podermos expandir esses conteúdos, partilhar as diversas exposições e temáticas que estão aqui a ser abordadas e criar esses tais blocos, este tal corpo, desenhámos, no fundo, um roteiro. É um protocolo que nós propomos, quer a famílias, público adulto ou escolas. O roteiro é o mesmo, mas o desafio que nós lançamos é ligeiramente diferente - porque uma coisa é lançar um desafio destes a um público adulto e outra é uma família ou a uma escola.

Aqui, de facto, o objetivo foi poder expandir os conteúdos artísticos, também, de forma a poder partilhar, a desafiar, [para] a audiência se poder envolver com estas exposições e com esses mesmos conteúdos a partir de uma outra perspetiva, que não seja só a perspetiva do artista, que não seja só a perspetiva do curador. No fundo, é uma ferramenta que permite ao público podê-la utilizar e  auto guiar-se, se quisermos, e também poder construir ali a sua própria opinião ou visão. É uma alavanca para despoletar ali questões, para despoletar conversas mesmo entre a família, para despoletar pontos de vista sobre aquelas exposições e sobre aqueles conteúdos. Em vez de, se calhar, andarmos a deambular de exposição em exposição - e “agora vou para uma”, “agora vou para outra” - e não haver, se calhar, ali uma ligação entre elas, esta ideia foi [para isso], criar ligações entre estes núcleos e, também, trazer aqui um pouco mais de lúdico, em que, enquanto família [se pensa]: "vamos explorar isto","podemos fazer este roteiro hoje, se calhar" e "vamos visitar estas exposições e vamos ver como é que impacto é que isto tem em nós", "o que é que isto nos fala?", "o que é que isto nos diz?". Portanto, acho que é mais nessa perspetiva de mediação com os públicos e de poder contribui com esta ferramenta para também poder facilitar essa mediação.

(G.) - Já na primeira edição, o tema da Bienal -nesta ideia de relação com o mundo - acabava por relacionar-se com a questão da sustentabilidade. Na sua opinião, a arte pode ter um papel mais relevante na consciencialização em torno das alterações climáticas?

(V. F.) - Nós acreditamos que sim, é o nosso motor de força, para também produzirmos e organizarmos esta Bienal e outros projetos que estamos a desenvolver. Acreditamos que a arte tenha mais uma força, mais uma voz. Os artistas têm também essa voz. A criatividade, aqui, acho que é fundamental [para] ativar mecanismos de imaginação, porque, no fundo, nós estamos a falar de uma transição cultural. Ela tem que ser feita a partir da imaginação, ela tem de ser feita também a partir de visões, de deslumbramentos e, também, ao mesmo tempo, tem que ser feita a partir de denúncias, de crítica, de especulação, de utopias e distopias. Eu acho que esse é o grande papel da arte, é colocar as questões, é provocar-nos, interpelar-nos, é sensibilizar-nos, é tocar-nos. Eu acho... não acho, tenho a certeza, que a arte sempre teve esse papel e esteve sempre presente em momentos de grande mudança de paradigmas. Estamos, de facto, a enfrentar, já há algum tempo, essa mudança de paradigma e, portanto, eu acho que é um motor fundamental para ser ativado, um recurso incrível. Depois não é só o conteúdo que é exposto, ou que é publicado, ou que é apresentado ao público que vai visitar estas posições, mas só o facto do artista, do curador, já estar a pensar isto, estar a trabalhar com uma comunidade, estar a trabalhar num contexto, estar a trabalhar sobre um tema, isso também é um motor, porque tudo conta aqui.

Pode ser um impacto pequenino mas que, de repente, tem uma disseminação qualquer. Há sementes que estão a ser lançadas. Quando há artistas que andam há anos a desenvolver determinados projetos, e percorrer vários contextos, e várias comunidades... eles estão a semear sementes, estão a olhar a partir de uma perspetiva, de uma câmara, e ela está-se a relacionar com pessoas, está a tocar essas pessoas. Portanto, ele está a levantar questões sobre aquelas realidades. Tudo isso começa aí. Isto não são trabalhos feitos à distância, nem são os trabalhos feitos num escritório. Obviamente [que isso] também acontece - há trabalhos que são feitos no estúdio - mas tudo isso conta.

Não é só quando apresentarmos o trabalho - porque aí obviamente é uma partilha com um grande público - mas todo o processo ativa forças, ativa relações e ativa partilhas. Eu acho que elas têm, por si só, um impacto e trazem uma consciencialização, um pensamento, uma reflexão sobre essas questões.

(G.) - Este ano trabalham isso também através de um workshop, correto?

(V.F.) -Sim, também trabalhamos isso através do workshop Art In Action [Climate and Social Responsibility] e, à semelhança do ano 2019, nós juntamente com a Fundação Europa-Ásia propusemos fazer um guia. Chama-se um Guia Verde, foi o primeiro guia a ser lançado na Europa em que nós fizemos o mapeamento das organizações e estruturas artísticas que estão em território português a trabalhar e a responder criativamente às questões da insustentabilidade ou da sustentabilidade. Foi lançado e está disponível online, gratuitamente e trouxe, de facto, esse trabalho, digamos, preparatório, de identificar.

Identificámos mais estruturas do que aquelas que couberam ali no Guia - também algumas, na altura, não se disponibilizaram a responder às questões que era preciso responder para estar presente nesse guia.

Este ano, também temos este workshop que é para nos trazer, no fundo, esse desafio de pensar em sustentabilidade da prática artística, de produção de um evento - como por exemplo a Bienal'21 Fotografia do Porto e outros - [pensar] qual é o impacto que isto tem, qual é o retorno que tem, como é que se medem essas questões, como é que se pode, de alguma forma, compensar essa pegada [ecológica]. Portanto, estamos, obviamente, a refletir sobre isso tudo. Algumas estruturas já o fazem muito bem, reflorestando, por exemplo... ou fazendo o que quer que seja. Portanto, essa questão de pensar também nos recursos que usamos e a forma como usamos, a energia que usamos... Este workshop tem essa intenção, sim.

(G.) - Ainda que o percurso percorrido não tenha sido muito longo, qual o balanço que faz da primeira edição da Bienal? E que espectativas tem para este ano?

(V.F.) - O balanço acho que é extremamente positivo, não só pelo envolvimento dos artistas que nós temos, que trabalham e partilham connosco os seus projetos de uma forma bastante generosa e de nomes que também são figuras que têm uma presença e que têm uma voz muito forte a nível internacional. Isso por si só expande muito o trabalho que estamos aqui a fazer e acho que é um voto de confiança neste programa e nestas interações que nós temos.

Depois, os parceiros também são incríveis. A esse nível, também, acho que houve uma consolidação de parceiros que já tínhamos trabalhado e que estavam connosco e agora reforçou-se essa parceria. Também acho que é um voto de confiança e de mérito, se quisermos, [que confirma] que o projeto tem todo sentido para existir. E, obviamente, também a qualidade artística que está aqui presente. Esses conteúdos, que estão visíveis já no nosso website, que é extremamente sério e de grande qualidade. Isso também demonstra todo este trabalho que se tem feito, preparatório, mas que também se está a consolidar, está a ganhar corpo, está a ganhar estrutura e densidade.

Portanto, acho que o próximo passo é continuar a aprofundar porque isto é um caminho longo e não é uma primeira edição ou numa segunda edição que se faz um "tchanan" de mágica - apesar de ela existir, porque há muitas coisas mágicas a acontecer - mas ela tem que continuar. Este trabalho tem que ser a longo curso. Daí nós termos decidido [que] estes são os assuntos que nós vamos sempre continuar a trabalhar. Daqui por dois anos, sei lá... Muitas vezes as bienais, a maior parte delas - ou todas as que eu conheço - saltam de um tema para outro. [questionam] "O que está agora na ordem do dia?", "Ok, a imigração, então este ano vamo-nos concentrar na imigração". Agora foi a pandemia, vê-se muitos projetos a tratar a pandemia... nós decidimos traçar este caminho e queremos ir aprofundando, consolidando, questionando, refinando aquilo que é necessário refinar e ir expandindo. Mais uma vez, também, é isto que caracteriza muito a Ci.CLo, esta ideia cíclica mas que não se repete, que se vai renovando e que se vai refinando e que se vai construindo, vai-se aprofundando. Esta ideia, de dois em dois anos, é importante para isso, porque há um ano de criação, de laboratório, de experimentação de também envolvermos os artistas a trabalhar e a produzir conteúdos, para depois apresentá-los de uma forma inédita na Bienal. Esse percurso, esse caminho, esse processo para nós é importante.

(G.)-Os espaços são todos de acesso livre...

(V.F.) -Tudo, sim.


(G.) - É algo que pretendem manter?

(V.F.) - Sim, e não é por acaso. É mesmo muito importante mantermos esse acesso livre.

(G.) - Mas, calculo que isso acarrete maiores dificuldades para a organização da Bienal...

(V.F.) -Sim é verdade, mas esse foi um ponto que nós definimos e, até ser possível, [vai manter-se]. Se calhar, há quem pense de outra forma e às vezes também nos questionamos "e se o público contribuísse, nem que fosse com um euro?". É muito dinheiro, e se calhar, neste caso em concreto, poderíamos, por exemplo, tornar isto mais generoso também para quem trabalha nos projetos artísticos. Nesta fase, não existe bilheteira, mas, se calhar - é como lhe digo - as coisas também podem mudar e podemos pensar que estará na hora certa, na altura de toda a gente ter que contribuir, mas há muitos desses espaços que não cobram bilheteira (ainda que se pudesse passar a cobrar, atenção). Nós decidíamos e era tipo "a partir de agora, nesta Bienal, vamos criar aqui uma bilheteira". Mas para já ainda não estamos nessa fase.

Texto por Sofia Craveiro
Fotografia via Unsplash

O Gerador é parceiro da Bienal'21 Fotografia do Porto

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