Porque estava calor e tempo de férias, fomos dar um pulo a Estremoz, onde as irmãs Flores e o Ricardo estavam à nossa espera para falar dos bonecos de barro da cidade. O Gil sentou-se com eles à mesa de trabalho e, enquanto falavam, de massas disformes de barro surgiam animais, amores, vestidos e primaveras. Vejam lá...

Quando passamos das ruas quentes de Estremoz para o fresco da oficina, vemos Inácia, Perpétua e Ricardo Fonseca, todos a trabalhar à mesma mesa, que está coberta de barro, de tintas, de figuras a que ainda falta dar cara, indumentária e cor. Depois de moldadas, cozidas e pintadas, serão bonecos de Estremoz de pleno direito.

A confusão é metódica e reflecte o espírito de actividade que se vive nas Irmãs Flores: a televisão ligada, vizinhos que passam com um filho pequeno para dizer bom dia e trocar dois dedos de conversa, a conversa permanente entre os três artesãos, e sempre as mãos que tacteiam, primem, moldam e pintam, sem pausas, sem deixar que as distrações o sejam.

A minha chegada interrompe o método da oficina. Sento-me ao pé de Inácia, que está a meio de moldar um rectângulo de barro com golpes rápidos e secos. É uma base, diz-me quando pergunto, mas não me diz o que vai apoiar nela. Em frente, tem a figura esboçada de uma mulher de vestido, tigelinhas de água e barro sem forma, à espera de vez. Toda a mesa está coberta de utensílios e peças por acabar.

A história dos bonecos de Estremoz — diz-me Inácia enquanto começa a enrolar quatro pedaços de barro em cilindros — data do fim do século XVII, quando um presépio de Machado de Castro acabou exposto numa igreja na cidade. Para todos os efeitos, Estremoz, de si uma região de oleiros, ficou fascinada, e começou uma produção de presépios inspirada na obra do escultor. As figuras desenvolveram-se, tornaram-se tradição, expandiram o foco do que representavam: durante os séculos seguintes, diz Inácia, surgiram representações de santos (“Toda a gente queria um Santo António em casa, mas ninguém podia pagar talha dourada”), variadíssimas profissões, e, mais recentemente, as figuras do Carnaval, com nomes como O Amor É Cego e As Primaveras.

Hoje, e até umas décadas antes da UNESCO reconhecer os bonecos de Estremoz como património cultural imaterial da humanidade, a arte ganhou nova fama. Há um interesse geral por ter pelo menos um boneco em casa — diz Perpétua, que está a pintar as figuras terminadas de cores garridas — e basta isso para garantir que quase nenhum dos bonecos pare muito tempo nas prateleiras da loja.

E há curiosidade em aprender a arte? Inácia acha que não. Pessoas que querem aprender estão interessadas em workshops, e em aulas de algumas horas é impossível transmitir o conhecimento que só anos de prática sob as instruções de um mestre podem dar. “É preciso aprender a técnica”, diz a mestre enquanto me tenta explicar os passos da aprendizagem. “Como mexer no barro, aprender a medir a leveza da mão, a maneira de enrolar... Depois é preciso praticar muito até interiorizar cada figura e aprender a história. Trabalhar barro, qualquer um trabalha, e se calhar em artes mais difíceis do que esta, mas a nossa é especial pela história que tem”.

A história destes artistas e de outros que já conheceram a técnica antes de enveredarem por outros caminhos começa precisamente nas férias grandes, quando os meses vagos impõem uma ocupação, e se esta puder situar-se no fresco de uma oficina e longe do sol abrasador do Alentejo, tanto melhor. E assim, os pais de Estremoz frequentemente pedem às irmãs Flores se os filhos não podem vir passar uns dias à oficina aprender a técnica. “Nós dizemos sempre: 'Fica e faz um bonequinho para ti’. E há muitas pessoas mais velhas que têm em casa um boneco daqui, que fizeram eles”. Ricardo foi em tempos uma destas crianças e jovens, tendo já nesse tempo praticado o suficiente para vender o produto da sua arte aos turistas que vinham ocupar a pousada da Rainha Santa Isabel. “Na América ainda deve haver muita coisa minha”, diz com um sorriso.

Foi também assim que Inácia e Perpétua começaram a trabalhar. Com 13 anos, aprenderam a modelar o barro debaixo da tutela da mestre Sabina Santos, em cuja oficina acabaram por trabalhar durante 15 anos. “Mas para nós nunca foi um hobby”, diz Inácia. “Trabalhávamos dias inteiros, como toda a gente, para ganhar o ordenado. Às vezes nem isso. Isto foi sempre uma arte pobre”.

E mesmo com o reconhecimento de que têm vindo a gozar nas últimas décadas, que garante que Ricardo e as irmãs Flores tenham de trabalhar duro para dar vazão às encomendas, a arte ainda não é rica, mas a atenção vai aumentando. Inácia aponta para quatro figuras novas, que mostram cavaleiros e damas medievais, feitas de encomenda. Os pedidos vão chegando e sendo despachados, e quem sabe quantos bonecos haverá espalhados por esse mundo.

Inácia pôs os quatro rolos de lado e fez mais dois, que juntou. Medindo a leveza da mão, que passa muitas vezes pela mesma superfície, faz dos rolos um corpo e uma cabeça de burro. A figura inteira, depois de se lhe juntar a boneca, que espera ainda um vestido, terá o nome de Senhora no Burro.

Quando saímos da oficina, voltámos do fresco e da conversa para o calor e silêncio da tarde alentejana. Chegámos ao fim da nossa visita, trazemos lembranças e apontamentos em sacos e a cabeça cheia da história da cidade, que parece mais viva por isso. Encaixamos a história no carro ­— caberá como couber — e seguimos de volta a casa, para contá-la.

Texto por Gil Sousa
Fotografias da Andreia Mayer