Locarno, 17 de agosto de 2019 — Pedro Costa recebia o Leopardo de Ouro pelo filme Vitalina Varela e Vitalina, a própria, o Leopardo de Melhor Interpretação Feminina. O filme conta a história de uma mulher cabo-verdiana que vem para Portugal três dias após a morte do seu marido, depois de ter estado 25 anos à espera de um bilhete de avião. Esta é a história de Vitalina Varela, mulher que se interpreta a si mesma e conta a sua história a Pedro Costa, que a regista com a cumplicidade inegável entre os dois. 

O percurso de Pedro Costa é já (re)conhecido em Portugal, tendo-lhe sido dedicada uma retrospetiva em Serralves ainda no ano passado. Sobre Vitalina Varela sabemos o que conta no filme e agora o que revelou em entrevista à organização de Locarno — para si, o amor é a base de tudo. 

Foi na rodagem de Cavalo Dinheiro (2014) que o realizador conheceu Vitalina Varela, chegando a incluir uma parte da sua história na narrativa. Decidiu dedicar-lhe um filme no qual a sua vida passa para a tela, mas que espera ultrapassar os seus limites.

Cavalo Dinheiro estreou no Festival de Cinema de Locarno em 2014

Sobre Vitalina, Pedro Costa disse à Lusa: “Ela faz-nos um pouco mais fortes porque tem convicções e tem fé, e acreditou em nós. Na nossa história ela é a rainha, e contagiosa, capaz de dar a todos nós um pouco de esperança”. “Ela é uma força da natureza, do passado, do presente e também do nosso futuro”.

Já Vitalina, na emotiva entrevista que deu em Locarno, mostra gratidão ao realizador que se tornou seu amigo. 

Vitalina olha para o prémio como um reconhecimento “cheio de amor e carinho”

“Pedro Costa é um homem muito importante para mim. Dá-me muita força, dá-me muita ajuda, dá-me muita coragem”, diz Vitalina nessa mesma entrevista. “Quando passo por momentos difíceis, eu vou chamar o Pedro Costa e ele vai estar lá para mim a qualquer hora”, continua enquanto se emociona.

Pedro Costa já tinha mostrado como o cinema pode ser o espaço para pensar lugares reais muitas vezes calcados em Portugal; fá-lo, desde que começou o seu percurso cinematográfico. Em Ossos (1997) e No Quarto de Vanda (2000) foi até às Fontainhas e à semelhança do que aconteceu com Vitalina, conheceu Vanda Duarte, que acabou por ser a protagonista de No Quarto da Vanda

Vitalina Varela, para quem o presente em Portugal nem sempre parecia risonho, leva tantas outras histórias como a sua para a tela. E a certeza que fica é clara: o cinema pode ir muito além da tela, transbordando dela para quem o faz e quem o recebe.

Texto de Carolina Franco
Fotografia de Festival de Locarno disponível Facebook

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