Tudo se alinhou com o confinamento: um projeto que estava na gaveta, a vontade de dar voz à poesia e a necessidade de combater a solidão. A Voz das Palavras é um projeto a dois, que abre janelas a um mundo mais ilustrado e poético.

O telefone toca seis vezes. Nem mais, nem menos. Do outro lado, surge a voz que aguardava a chamada: “Olá, minha querida. Como é que está?” Maria Lurdes, de 87 anos, sabe que meia hora depois das 10 horas, às quintas-feiras, de duas em duas semanas, a mesma pessoa lhe liga para conversar, levar poesia e estórias. É através da linha do telefone que as palavras musicadas fazem sentido durante aquele período da manhã. E quem as expressa é Marta Santos, responsável pelo projeto A Voz das Palavras, que agora também colabora com os Contos de Orelha a Orelha, projeto da Associação de Solidariedade Social de Marrazes (AMITEI), no concelho de Leiria.

Mas para contar esta história do princípio, numa espécie de poema, a primeira estrofe tem de, necessariamente, iniciar com “E tudo começou com uma pandemia”. Foi através da sensibilidade para o isolamento que a COVID-19 desencadeou e agravou em determinados casos, que o projeto de Marta encontrou a razão de existir. A Voz das Palavras é uma obra de Marta, animadora no município de Óbidos, e do marido, João Agostinho, diretor criativo do estúdio de design JA Design Studio, nas Caldas da Rainha.

O Dia Mundial da Voz de 2020, a 16 de abril, foi a data escolhida para o lançamento. O momento era o certo e o projeto “surge com uma vontade de maior proximidade com as pessoas em tempos de pandemia” e de levar poesia através “deste palco digital” que são os ecrãs e os telefones, conta Marta.

“Estava um pouco reticente se deveria ou não apostar no projeto porque já há muitas entidades que o fazem. Mas eu sempre achei o conceito muito interessante. O facto de podermos fazer uma chamada e do outro lado essa pessoa ouvir um poema, um texto, uma história.” Levar uma palavra de conhecimento, de poesia, mas também de amizade, tornou-se o mote deste projeto que motivou Marta desde o primeiro dia. A materialização deste desejo, há tanto a pairar na consciência de Marta, tornou-se realidade algum tempo depois de tomar a decisão de ficar em casa, de licença sem vencimento, para prestar apoio no ensino doméstico do seu filho mais velho, Sebastião.

Ao saber do lançamento do projeto, a Associação de Desenvolvimento Social da Freguesia de A-dos Negros, no concelho de Óbidos, convidou Marta para levar poesia aos utentes do lar de idosos. “Este público e esta faixa etária foi sempre uma com a qual eu sempre gostei muito de trabalhar, mesmo enquanto animadora”, e Marta ficou muito feliz por poder levar poesia aos utentes do lar porque “era também um público que eu queria chegar com a Voz das Palavras e surpreendentemente esse público vai ao meu encontro”, diz entre sorrisos.

Uma das utentes do lar, a dona Martiniana, a quem Marta se refere carinhosamente, foi uma das entusiastas da poesia. Mas não antes de fazer jus à máxima de “primeiro estranha-se e depois entranha-se” de Fernando Pessoa. “Eu recordo-me de que a dona Martiniana foi muito engraçada porque no primeiro contacto que nós tivemos eu perguntava-lhes se eles sabiam o que era isto da poesia. E a dona Martiniana disse-me: “Olhe eu não sei nada do que é que é isto da poesia, mas olhe, pode continuar a ler!” Ela não sabia o que era a poesia, mas queria continuar a ouvir”, e isso fez as delícias da contadora de histórias. Mais tarde, depois de estar mais duas vezes com Marta, o interesse da idosa resultou numa declamação à hora do lanche para todos os utentes. Melhor agradecimento era impossível para Marta. Deixou-lhes a “sementinha” e a poesia transformou os dias daqueles idosos, que iam sentindo os constrangimentos provocados pela pandemia.

E se em tempo de confinamento total não se podia viajar, Marta ia gravando poemas em áudio e ilustrando-os com vídeo, conta: “Não quero só ler poesia em áudio, também quero levar a poesia em vídeo e imagem até porque eu faço isso nas minhas leituras. Quando leio, automaticamente ligo a leitura com imagens visuais.” E a viajar, como fez com um poema de Sophia de Mello Breyner, Marta deu voz e João fez a pós-produção do vídeo, disponível no canal de YouTube do projeto.

“Olhamo-nos nos olhos pela Internet.” É assim que começa um dos poemas de José Luís Peixoto, presente no livro Regresso a casa (2020, Quetzal), o escolhido para Marta dar a sua voz após o desafio lançado pelo município de Óbidos, na Óbidos Poetry Sessions. O evento diferido, que decorreu virtualmente entre março e abril deste ano, lançou o vídeo-poema ilustrado pela voz de Marta e editado pelo marido, gravado em casa, no qual revela uma face mais intimista ilustrativa do confinamento.

Marta Santos

Marta olha nos olhos através da Internet e do telefone e apazigua a solidão através das palavras. A dona Maria de Lurdes é um dos exemplos mais flagrantes: apenas lhe saboreia a voz e as estórias que a idosa tem para lhe contar. E a idosa igual: apenas ouve e sente os poemas e as estórias que Marta lhe traz. Marta ainda não a conhece pessoalmente, mas espera brevemente vê-la com os “olhos da Internet” – através de uma videochamada.

O projeto Contos de Orelha a Orelha surgiu no início deste ano, depois de os idosos do centro de dia terem de ficar em casa por causa da pandemia. Foi então que a AMITEI lançou uma open call para contadores de histórias. Marta concorreu e foi selecionada e, em conjunto com mais de 40 contadores profissionais e amadores, ajudam a sossegar o isolamento e a solidão de idosos no concelho de Leiria. É um projeto intergeracional, criado para “para diminuir o isolamento a que estas pessoas estão sujeitas devido à pandemia e promover a sua socialização”, refere Miguel Mesquita, técnico superior de animação sociocultural da AMITEI, em declarações à agência LUSA.

É então que, de duas em duas semanas, meia hora depois das 10, às quintas-feiras, o telefone toca seis vezes. Nem mais, nem menos. E a voz de Marta encontra a de Maria de Lurdes.

Da manta da avó para o mundo das letras e do Ler & Contar

“Tenho a certeza de que foi na poesia que eu abri muitas janelas para algumas respostas. Mesmo hoje, eu encontro na poesia muitas respostas”. A resposta sobre o que é a poesia para Marta é misturada com muitos significados. “Costumo dizer que, para mim, a poesia é uma janela aberta e é dessa janela aberta que consigo ver muita coisa. Daí eu ter este carinho tão especial pela poesia”, reflete a contadora de histórias.

O interesse pelas letras e, mais tarde, pela poesia, começou na manta da avó. Sentada a ouvir atentamente, o “bichinho” pelo “mundo encantado das histórias” começou aí. “Eu lembro-me quando me perguntavam o que é que eu queria ser quando era pequenina e eu respondia que queria fazer histórias! Queria ser um ‘fazedor de histórias’”. Marta ficava fascinada com a arte de contar histórias e queria ser igual.

Na casa dos pais, conta, não havia muitos livros, mas existiam os de poesia de poetas locais, poetas de Óbidos. E havia um em especial. Um livro de poesia chamado Flores, de um poeta local, o qual Marta perdeu o rasto. Curiosamente, encontrou-o nas mãos do marido. “Acredito que a minha ligação com a poesia está um bocadinho também nesse livro e nesses livros que eu abria e lia, que olhava e observava, ali, em casa dos meus pais.”

O tempo foi passando e nas voltas das rimas, Marta não seguiu a área da Literatura. Tornou-se animadora na Câmara Municipal de Óbidos e quis uma nova estrofe que o município lhe proporcionasse uma formação em Itália sobre a arte de contar histórias: “E foi quase o meu passaporte para este mundo da contação, este mundo de narração oral.” Enquanto animadora, trabalhou com uma turma do 1.º ciclo “muito especial”, caracteriza a profissional, e do encontro de duas gerações com quem adora trabalhar, as crianças e os idosos, Marta decidiu reunir num livro os poemas dos avós e dos netos. De Mãos Dadas é o livro que reúne a poesia de duas faixas etárias, diferentes, mas tão ricas entre si.

Mas a pandemia apareceu na métrica da poesia da vida de Marta e fê-la tomar uma decisão: ficar em casa com o filho mais velho em regime de ensino doméstico. Com o passar dos meses, nasceu a Voz das Palavras. E dos desafios que sucederam ao projeto, o Ler & Contar – Poetas que nos habitam fazem parte do currículo. O projeto, dinamizado em municípios portugueses e também em Angola, tem como principal objetivo divulgar os poetas e os escritores da zona de forma lúdica e gratuita. No seu website, são várias as estórias que estão à distância de um clique.

Marta conheceu Glória de Sousa, da coordenação do projeto, e através da colaboração do Ler & Contar com a Câmara Municipal de Óbidos, foi convidada a ingressar o projeto, em 2020. Assim, Marta deu voz, com outros autores, ao legado poético de Armando Silva Carvalho, nascido em Olho Marinho em 1938. O poeta licenciou-se em Direito, mas foi no jornalismo, na tradução e na publicidade que fez vida. Editou várias obras e recebeu, entre outros, o Grande Prémio da Poesia APE, o Prémio PEN Clube e o Prémio Fernando Namora. O resultado desta homenagem foi um vídeo-poema a várias vozes e a disponibilização gratuita de poemas.

Entre o combate à solidão e ao isolamento através da Voz das Palavras, dos Contos de Orelha a Orelha, e de outros desafios que vão surgindo à contadora de histórias, o futuro avizinha-se mais libertador: “Eu quero muito levar a poesia à rua” e “ter este contacto de poder ler poesia olho no olho”. E não apenas em Óbidos. A ideia é continuar a manter a Voz das Palavras um projeto agregador de comunidades, onde o elo de ligação são os autores e a sua escrita. O confinamento provocado pela pandemia apenas veio reforçar que é necessário ligar as pessoas através das palavras, através da literatura e da poesia.

Na estrofe final deste projeto, Marta tem um turbilhão de ideias para implementar. A pouco e pouco começa a alcançá-las: conseguiu ingressar no ensino superior e, mais tarde, quer lançar um livro de poemas da sua autoria. Apesar de ser mãe a tempo inteiro, dedica-se a este outro rebento, o rebento das palavras que, por agora, une comunidades através dos olhos e ouvidos da Internet e da distância de uma chamada telefónica.

Se queres ouvir o projeto na voz de Marta Santos, clica aqui e ouve o segundo episódio do podcast "A Medida Certa na Cultura" sobre a vila de Óbidos, Cidade Criativa da UNESCO na Literatura.

Texto de Ana Sofia Paiva
Fotografias da cortesia de Marta Santos
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