Fazer uma curta-metragem em quarenta e oito horas. Esta é a premissa para aqueles que se querem aventurar na construção de uma história em contrarrelógio, com o objetivo de chegar ao Filmapalooza 2022: «Independentemente dos prémios que podem ganhar, não queremos que os filmes morram no 48h».

Participar no The 48h Film Project Lisboa é muito simples: reunir uma equipa, fazer a inscrição e ir ao evento de Kick Off para recolher os elementos obrigatórios (inclui sempre uma personagem, uma frase e um objeto) do desafio e saber que género de curta-metragem terão de fazer. O que vem depois é o mais desafiante. Segundo Ricardo Mendes, produtor-executivo, é preciso «entusiasmo, e aceitar o desafio de testarmos a nossa criatividade». Independentemente do mundo artístico, ou não, que têm, todos são convidados a candidatarem-se, não sendo ainda necessário material apropriado – «Não interessa o material que usam porque já participaram filmes, e venceram, que foram feitos em telemóvel, por isso não há essa limitação técnica», desafia o produtor-executivo do evento.

O evento já tem história, com mais de 30 000 curtas-metragens realizadas, e é um sucesso em todo o mundo. Foi criado nos Estados Unidos, em 2001, mas só em 2009 os portugueses começaram a poder participar no desafio. Ricardo Mendes agarrou no projeto em 2016 e, entre um crescimento e uma pandemia que desafiou os moldes, tem procurado trazer uma consciência social ao projeto, este ano com a ILGA como parceiro do prémio, Cinema pela Igualdade.

Em entrevista ao Gerador, Ricardo Mendes falou sobre o que acontece nas quarenta e oito horas e deu dicas de como ter uma boa curta-metragem. Ricardo falou ainda do espaço para as curtas-metragens em Portugal e de como a presença da ILGA no The 48h Film Project Lisboa vem abrir um debate sobre temas urgentes para o cinema mundial.

As inscrições para o The 48h Film Project Lisboa encontram-se na primeira fase até ao dia 15 de agosto, com um custo de 90 € por equipa. A segunda fase de candidaturas será de 16 de agosto a 5 de setembro e terá o valor de 110 € por equipa. Depois dessa data e até ao primeiro dia do evento, dia 10, a inscrição tem um custo de 130 €.

Gerador (G.) – Como se pensa e constrói um filme em 48h?

Ricardo Mendes (R. M.) – É um desafio! Antes de ser responsável pelo festival, fui chefe de uma equipa, por isso entendo o lado de quem participa. Éramos todos do teatro e queríamos desafiar-nos a fazer algo intensivo. Só quando passámos a produtores é que percebemos as motivações e o método de trabalho de quem vem dá área do cinema. É possível construir um filme em 48h, acima de tudo, testando a criatividade e o trabalhar em equipa. Quase todas as equipas que participam caem em dois conjuntos, ou são equipas muito grandes que já procuram uma profissionalização, e antes das 48h já dividiram o tempo, sabem quem vai fazer cada coisa e têm atores externos, ou então são equipas mais pequenas que fazem tudo e que sabem que durante 48h vão trabalhar de uma forma completamente intensiva. Quase sempre, a meio do fim e semana, algo que já está planeado, tem de ser mudado, e é esse o desafio, o de procurar soluções. Por exemplo, uma das cenas que mais marcou o filme que venceu em 2020 (uma cena na praia), teve de ser alterada, em vez de ser gravada de noite, foi gravada de dia, por questões logísticas. Na minha opinião, a história e o ritmo são essenciais. Claro que as questões técnicas têm peso, mas procuramos também convencer o júri a privilegiar a boa interpretação e uma boa história curta. Conseguimos perceber com isso, os filmes que são curtas-metragens e aqueles que são longas, mas tiveram de ser reduzidos para 4 minutos e, de repente, a história fica partida. Acima de tudo, o que dizemos às equipas, é que se preocupem com um bom princípio e um bom fim. Porque, durante muito tempo, assumiu-se que as curtas metragens eram projetos que vinham das longas e, hoje em dia, o mundo das curtas metragens (também por existirem mais festivais), têm histórias curtas muito boas, feitas por realizadores que realmente queriam apenas apresentar uma história curta.

G. – Mas o tema é lançado poucos minutos antes das 48h começarem e os participantes têm pouco tempo para pensar numa história…

R. M. – O que acontece é que, no Kick Off, eles recebem três elementos comuns a todas as equipas, uma personagem, um objeto e uma frase, não precisam de ser centrais, mas têm de ser respeitados se não são desqualificados. Depois, existe um sorteio de dois géneros – podem seguir um ou outro, misturar com outros, mas tem de lá estar pelo menos um. Claro que o género é subjetivo. Se sair drama dificilmente um júri vai desqualificar por não considerar um drama. A partir do momento em que termina o Kick Off (cerca de uma hora), eles têm 48h e 30 minutos para entregar um filme. Há coisas que já podem estar prontas antes, como ter a equipa pronta, o material, pesar locais para filmar, as autorizações, porque por mais que exista uma certa informalidade, não deixa de ter uma componente legal. Há um conjunto de documentação que têm de entregar, porque a curta vai estrear num cinema, não deixa de ser um filme que vai ser licenciado para estrear numa sala municipal. O que recomendamos, mas não é obrigatório, é que, no final de sexta já tenham o guião planificado, no sábado é para gravar a curta e no domingo para a editar, porque um filme, no fundo, é feito na edição.

G. – O que é que um desafio como o lançado pelo 48h Film Project vem trazer ao cinema português?

R. M. – Em 19 curtas-metragens, encontramos quatro ou cinco com uma qualidade equiparável a um filme. Claro que alguns são experimentais, mas, mais do que a qualidade que o desafio traz, este insere-se numa terceira via. Em Portugal, temos vários caminhos na curta metragem. Aquelas que são feitas para serem apresentadas em festivais como o Indie Lisboa que, embora sejam vistos por público, são exercícios muito mais intelectuais e, muitas vezes, dentro de um circuito fechado. Depois, temos o filme comercial que não existe muito em Portugal. E há um caminho no meio, onde o 48h se insere e se inserem outros projetos como o Cinemax na RTP, o Shortcutz ou o Short/Age (Short Films for a New Age), que pegam em filmes que, embora primem pela qualidade da construção, são filmes que naturalmente piscam o olho para serem vistos, não são exercícios de festival, são apreciados também por um público que não é de festival de cinema, são histórias boas. E isso vai ao encontro do trabalho que temos feito com os criadores pois, independentemente dos prémios que podem ganhar, não queremos que os filmes morram no 48h. E a prova disso é que temos vários filmes que não vencem, mas depois fazem um caminho de festivais lá fora até maior do que alguns vencedores.

G. – Existe espaço para o cinema das curtas-metragens em Portugal?

R. M. – Acho que a pandemia levantou a questão de como voltar ao cinema, porque inclusive as grandes distribuidoras já têm filmes a estrear no cinema e nos setores privados, ao mesmo tempo. Esse é o desafio. Em Portugal, já existe aquela iniciativa do «dia mais curto», em que se distribuem curtas-metragens por vários filmes comerciais de longa duração e faz-se a abertura do filme com uma curta, e para mim esse seria um caminho interessante. Talvez se existissem salas de cinema que transmitisse só curtas, mas ainda é um publico muito reduzido, apesar de, no online, curiosamente, não ser assim. Se calhar, as curtas metragens terão um papel a desempenhar nos canais televisivos, mas como é mais comercial, o caminho talvez seja mais longo.

G. – Como surgiu esta parceria com a ILGA e o que vai trazer ao festival?

R. M. – A ILGA vai ser a marca associada ao prémio «Cinema pela Igualdade».Já queríamos ter convidado a ILGA o ano passado, mas devido à pandemia não conseguimos. Não que o trabalho da ILGA seja recente, é um trabalho de muitos anos, mas achámos que era um momento importante porque existem grandes discussões há muitos anos e que agora ganharam outra dimensão. Questões que têm a ver com a representatividade da mulher no cinema, não só o seu empowerment, mas o reconhecimento de uma indústria que vê a mulher de uma forma subalterna. A pandemia também trouxe muito à luz a questão das temáticas LGBT e da forma como todo um trabalho de visibilidade estava a ser um pouco fechado. Temos tido, desde 2017, filmes que procuram a temática LGBT, inclusive em 2019 tivemos um filme feito por um grupo de teatro terapêutico da Santa Casa de Lisboa, que, apesar de não ser o vencedor, teve uma visibilidade muito grande e criou um espaço muito interessante de discussão que queremos continuar. Infelizmente, este ano a parte presencial não vai ser feita, mas a ideia é, no decurso do mês de agosto, fazer um ciclo online de filmes do universo 48h. Não serão só filmes com um caráter interventivo e sério, mas que peguem num ponto de vista mais ligeiro. O vencedor do prémio Cinema pela Igualdade abrirá um debate, ainda não sabemos como vai ser, mas a ideia é que seja um debate a partir da temática que o filme nos traga. Queremos abrir a conversa para entendermos também como o cinema heteronormativo trata as questões LGBT, porque se vamos para um festival como o Queer, a temática LGBT nem sempre é interventiva, às vezes são histórias banais, romances, mas chegamos ao cinema heteronormativo e quando pegamos nessa temática é como se fosse uma coisa maior do que a vida, e talvez seja preciso fazer um trabalho de entender que «OK, há questões sociais, mas é possível fazer um cinema em que o LGBT é a normalidade». Queremos fazer esse trabalho com a ILGA e desenvolvê-lo. Este ano queremos abrir o campo com estes novos parceiros e trazer uma importância social e formativa para o festival.

G. O que gostavas de dizer a quem ainda está com medo de não estar á altura de um desafio destes?

R. M. – Todos os anos, quando as quarenta e oito horas acabam, todos os participantes dizem que nunca mais querem participar, mas depois veem o filme estrear na sala Manoel de Oliveira no São Jorge e ficam maravilhados, dizem que valeu a pena. Acima de tudo, são várias fases. Têm de se propor a um desafio que, por mais que estejam preparados, têm de se adaptar às circunstâncias, fazendo dele também um exercício de adaptação. Temos também a possibilidade de estrear um filme no São Jorge, poder perceber e comparar métodos de trabalho, aprender. No ano passado, a equipa Moving Pictures, inscreveu-se dois dias antes da competição e quase 6 meses depois estavam na red carpet em Cannes. É um objetivo muito ambicioso e foi a primeira vez que um filme português foi selecionado para Cannes no âmbito do 48h, mas só a experiência e a possibilidade de ir ao Filmapalooza, de lidar com 400 pessoas que fizeram o mesmo, criar parcerias, é tudo uma aventura. Há filmes que depois são exibidos noutros países. Não interessa o material que usam porque já participaram filmes, e venceram, que foram feitos em telemóvel, por isso não há essa limitação técnica. E, quando termina o festival, há algo que é garantido, o filme estreou em sala e podem ficar com um objeto artístico, e que pode ser expandido. Os três primeiros filmes terão direito a um valor em material da World Academy e um lugar no Festival Ibero-Americano de Cinema, que no último ano foi vencido por um português. Mas o principal é isso: aceitar o desafio de nos testarmos, independentemente dos prémios.

Texto de Patrícia Nogueira
Fotografia da cortesia do The 48h Film Project Lisboa
O The 48 Hour Film Project Lisboa é parceiro do Gerador

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