Quando falamos dos e das invisíveis da cultura, apagamos ainda mais aqueles e aquelas que habitam os espaços quando ninguém está, porque dentro da sinalização dos esquecidos, deles e delas nos esquecemos. Conhecem o silêncio e a solidão dos corredores e das salas. Preparam-os para que nos acolham, para que nos encontremos e partilhemos a nossa relação com o universo, a nossa convivência com as coisas, e, a partir delas, nos abrirmos, movermos, reconhecermos. Depois, retiram-se e, tantas vezes, nem reparamos nos detalhes da sua presença, mas apenas da sua ausência.

Então, os cuidadores e as cuidadoras dos abrigos da cultura permitem que os e as artistas, bem como outros e outras profissionais tenham melhores condições de trabalho, ou, mesmo, que o possam realizar, e que entremos e sintamos o conforto, que nos diz que somos bem-vindos e bem-vindas. Um espaço limpo espera receber alguém.

Chegamos à Galeria Zé dos Bois, uma associação cultural sem fins lucrativos, situada em Lisboa, e a dona Emília está à porta, com as chaves. Apesar dos seus 82 anos, sobe as escadas todas as manhãs a um ritmo que a vida exigiu e vai apresentando a casa. É a matriarca deste lugar, no qual já trabalha há quinze anos. A sua presença cativa quem passa, que, conhecendo as suas respostas engraçadas e sem pudor, que, de tão rápidas, parecem preparadas, deixa alguma pergunta, como quem as espera. Gosta de partilhar os seus comentários caricatos e fica durante algum tempo a rir-se. Quem sente a sua alegria e conhece a sua história impressiona-se com a força e a leveza. Começou a trabalhar no campo, em Marinhais, quando tinha 10 anos. Depois da morte da mãe, a violência exercida pelo pai aumentou, e teve de fugir. A tia do seu cunhado vivia em Lisboa e arranjou-lhe um emprego como criada de servir. Chegou à capital, dois meses depois de ter completado 18 anos. Começou um novo tempo, que trazia rastos do que sempre conheceu, os maus-tratos e a dureza. Passou por algumas casas, que lhe disseram que a sobrevivência é um combate, onde é preciso ser rápido, sem descanso nem cansaço. Foram os donos da última casa que serviu que lhe “arranjaram casamento”. Foi empregada doméstica, teve uma mercearia de fruta e hortaliça, trabalhou num bar, em dois refeitórios e na cozinha de um restaurante.

“Quando me reformei da cozinha, tinha 66 anos. Estive em casa, mas os tostões começaram a acabar. Perguntei na mercearia, ao pé de mim: ‘Glória, sabes de alguém que precise de uma pessoa para limpar? Não consigo estar em casa…’ Entretanto, a Joaninha e a Célia [ZDB] foram perguntar à mercearia se sabiam de alguém. Elas vieram-me bater à porta e eu fui para lá. A primeira coisa que fiz foi limpar as casas de banho, porque estavam muito porcas. Gostaram muito e comecei a ir.”

A dona Emília foi acompanhando o crescimento da galeria, cuja limpeza, no início, estava exclusivamente ao seu encargo, assim como a preparação dos quartos para a recepção de quem se encontra em residência artística. Neste momento, trabalha três horas, pois a galeria tem outro funcionário, que a apoia nas tarefas. Para além deste apoio e da diminuição do horário laboral, a proibição do uso de copos de plástico e do fumo, nas salas, aliviou as suas manhãs. “Agora, já não fica tão sujo. Cheguei a encher dois sacos grandes, de 100 litros, de copos e garrafas. Era tudo para o chão. Como o chão era envernizado, varria tudo e, depois, lavava. Já não fazem a porcaria que faziam. Apanhei lá muita, muita, muita porcaria. Nos concertos, então…”

“Aquilo tem de ficar tudo a brilhar. Uma vez, estava lá, no lançamento de um livro, no segundo andar, e veio uma pessoa muito chique: - ‘A senhora sabe onde posso ir à casa de banho?’ – ‘Estão ali duas. Está tudo lavadinho.’ A senhora diz: ‘quem limpa, aqui?’. Respondi: ‘quem limpa sou eu. Eu é que faço a limpeza toda a isto.’ – ‘Olhe, dou-lhe os meus parabéns, porque tenho ido a muitos lançamentos de livros, em casas mais sofisticadas do que estas, e nunca vi umas casas de banho tão limpinhas.’”

Assiste aos vaivéns da casa e já perdeu a conta aos artistas nacionais e internacionais que conheceu. “- ‘Speak english’? – ‘Eu não’. Mas a gente lá se entende.” “Às vezes, passam por mim. – ‘Olha a dona Emília’. E eu: ‘quem é este gajo?’” Já esteve sentada no palco, entre António Zambujo e Raquel Tavares, expressou, pessoalmente, a sua admiração pelo Bonga e fez uma dobragem para um filme, de cujo realizador não se recorda. Porém, é na amizade com os Dead Combo que se demora. Os músicos ensaiavam numa sala da galeria e o habitual desejo de um bom dia, tornou-se uma festa, depois de um comentário da dona Emília, que logo a apresentou. “Um dia vi-os a sair e levavam os instrumentos. O Pedro levava um violoncelo, e eu disse: ‘porra, Pedro! Você tem uma grande gaita! A partir daí, foi um ver se te havias. Fiz alguns trabalhos com eles. A gente fazia, assim, as nossas paródias. Eles fizeram um concerto na Aula Magna e eu fiz o anúncio”:

Mais tarde, em 2015, num concerto do grupo, no Coliseu, foi surpreendida com uma música que lhe foi dedicada, intitulada “dona Emília”:

Vestida à dama antiga, está na capa do álbum Odeon Hotel, lançado em 2018:

Capa disponível na página de Facebook dos Dead Combo

A sua boa disposição, o seu jeito engraçado, despreocupado, desembaraçado, procurando rir com alguém, inaugura ligações afectivas imensas. No último jantar de fim de ano, foi homenageada. “- ‘Temos aqui a nossa velhota, a dona Emília, que é uma pessoa muito estimada.’ Eu disse: ‘muito obrigada, patrão. Você é um filho, porque a minha filha mais velha é mais velha que você. É uma honra estar aqui.’ Veio tudo agarrar-se a mim. Parecia que eu era santa, no meio daquela gente toda. Digo que tenho duas casas, a da minha família e esta, que é da minha segunda família.”

No dia em que a conheci, encontrar-nos-íamos, mais tarde, no concerto de Tristany, no Teatro São Luiz, inserido num ciclo organizado pela ZDB, ao qual foi assistir com a sua equipa, ou melhor, família. Cita-a: “a dona Emília não se vai embora, nem que fique aqui sentada num banco, ao pé da gente.”

Também Manuela Silva, de 56 anos, manifesta muito carinho pelos Maus Hábitos, um espaço de intervenção cultural, com cariz interdisciplinar, situado no Porto, onde trabalha há 14 anos, depois de ter desempenhado a profissão de lojista e agente imobiliária. “Apesar de ser empregada de limpeza, sinto-me orgulhosa de trabalhar naquela casa, na nossa casa.”

Chegou a esta por intermédio de uma amiga, mas não sabia o que a esperava. “Ser empregada de limpeza é uma coisa. Ser empregada de limpeza num espaço daqueles, é outra. Quando chegava ao 4º andar e abria aquela porta… Um cheiro a vómito… Tudo o que possa imaginar…. Muito mau.... Pensava que não ia conseguir, mas consegui. Imagine um cinzeiro cheio de vómito. Imagine o que é uma noite com concertos, uma passagem de ano…. É horrível! Há quatro anos que temos uma máquina industrial, mas era tudo feito com a mão, vassoura, esfregona e balde. Ficava muito atrapalhada e chamava o meu marido. Trazíamos de dez a doze sacos do lixo numa só noite. E eu sozinha a fazer este tipo de serviços… A partir de uma determinada hora, aquilo deve virar um inferno. Fiquei hipertensa, à conta dos Maus Hábitos. Quando ia à casa de banho, nas primeiras vezes, morria. Vinha para casa indisposta, com a sensação de que estava toda suja. As lágrimas que não me caíram pela cara abaixo.” A invisibilidade de alguns destes e de algumas destas profissionais torna-se, aqui, visível. Os seus dias são a devastação do que dizem ser a sua casa, da qual Manuela se sente dona, desde o início da tarde, quando, do seu corpo, regressa o brilho ao espaço, até ao cair da noite.

Há quatro anos, deixou de trabalhar aos fins-de-semana, quando as manhãs distorcidas são agressivas, para quem as encontra e lhes toca, com os seus noventa e oito degraus. “Deixei, não só porque estava muito cansada, mas também porque não era remunerada como havia de ser. Tive de dizer: ‘chega! A vida não é só trabalho.’ Queria ir tomar café a casa de uns amigos, à noite, e não podia, porque tinha de me levantar às 6h00, para apanhar comboio e ir trabalhar. Tinha um neto pequenino e não o acompanhava. Não me encontrava com o meu marido, que tinha um part-time aos fins-de-semana.”

Nesta procura por equilíbrio, nos seus dias, o afecto por algumas equipas e, sobretudo, por Daniel Pires, co-fundador, gestor e director artístico, com quem criou uma relação familiar, é o conforto do seu trabalho. “Sinto-me muito ligada àquilo, até demasiado, porque consigo enervar-me com situações que outras pessoas desvalorizam. Estou em casa e fico preocupada. Todos os dias, pergunto se a casa está a trabalhar bem. Quando há famílias que vão lá almoçar, sou apresentada como a mãe dos Maus Hábitos.” Apesar disso, não se considera uma profissional do sector cultural. “Trabalho num sítio onde as pessoas são muito ligadas à cultura. Sei que há pessoas a fazer a mesma coisa que faço, que nem ligam, nem veem a sala de exposições. Passa-lhes tudo ao lado. Tenho a noção de que trabalho para a cultura, e quero manter aquele espaço para estar aberto. Mas esse papel, acho que não.”

Com a entrada nos Maus Hábitos, Manuela aproximou-se da arte pela porta das traseiras. Observa-a, quando ainda se prepara para ser encontrada. Recebe os/as artistas e gosta de os/as questionar sobre as obras. Já nasceram amizades com a pergunta “quer um café?”. Tem uma gaveta, em casa, com as folhas de sala, que foi coleccionando, ao longo dos anos. “Às vezes, ponho-me a olhar, e eles perguntam: - ‘a dona Manuela está a olhar?’. – ‘Estou, mas não estou a perceber nada.’ Depois, numas vezes explicam-me, noutras dizem: ‘vai compreender quando estiver terminada.’”

Caminhando pelos espaços quando dormem, encontra-se com os seus sonhos. “Gostava de abrir tudo para saber se estava lá alguém. No início, não tinha essa informação. Num dos sectores, onde estava uma exposição, quando abro a porta, vejo uma pessoa deitada. Com o passar das horas, ela não acordava. Comecei a atirar cadeiras para o chão, mas não acordava. Queria ir ao pé, mas tinha medo que estivesse morto. Havia pessoas que eram da casa e que, de manhã, estavam lá a dormir. Tinha medo. Disse: tenho de ganhar coragem. Pé ante pé, consigo-me chegar. E não era nada.”

Tal como dona Emília, não esquece quando as coisas limpas e organizadas levam quem as nota a procurar pelo olhar atento e pelas mãos que o seguem: “O fim de um evento da NOS, foi feito, de sábado para domingo, nos Maus Hábitos. Os responsáveis pelo evento sabiam como a casa tinha ficado de madrugada. No dia a seguir, foram lá buscar umas coisas e perguntaram qual foi a empresa que limpou. – ‘É que nós saímos daqui às 6h00 e a casa estava um caos.’ Eu disse: ‘a empresa sou eu e estas duas pessoas, que estão aqui, à minha beira.’ – ‘Não posso crer! Espero que sejam muito bem pagas por isto.’ O bem pago eram três euros à hora, naquela altura.’

Se pudesse ter escolhido a sua profissão, seria educadora de infância.

Catarina Caixeiro, de 33 anos, completou a formação que desejou, em Artes Plásticas, mas, também, encontrou a profissão que sustem o que a completa, a maternidade. Mantem, em Montemor-o-Novo, o Espaço do Tempo, uma estrutura artística transdisciplinar, cuja acção principal é a programação de residências artísticas, sobretudo, para artistas emergentes. “Há dez anos, escolhi abraçar a maternidade. Durante algum tempo, tentei conseguir conciliar, mas, entretanto, percebi que não posso perder este tempo, tão precioso, destes pequeninos. Então, decidi ter profissões mais prácticas, no fundo, para dar este suporte, entrar num espaço de tempo para mim.”

Cuidando deste espaço, cuida de duas missões. “Dentro de todas as profissões práticas, que também faço por prazer, porque, no fundo, permitem ter o tempo necessário, para, depois, cuidar da minha função maior, neste momento, que é cuidar da família, está a ser maravilhoso poder cuidar de alguém que se expressa, porque eu, talvez numa outra situação da vida, se não fosse mãe, estava nesses lugares. Poder contribuir, neste lado mais silencioso, é maravilhoso, porque, na verdade, o que estou a chamar para mim, agora, é também tempo para cuidar da minha família. Não estou a exigir este tempo de me expressar.”

Esta intenção de preparar, com detalhe e gosto, o acolhimento de quem chega é valorizada pela casa e por aqueles e aquelas que por ela passam e, por momentos, dela, e nela, vivem, manifestando a sua gratidão. Quanto ao público, o desconhecimento está no desencontro, a ordem natural para onde este ciclo, que Catarina reinicia, se orienta. “Na verdade, temos uma função que é invisível. É quase como se o nosso trabalho fosse fazer parecer que não esteve ali nenhuma pessoa, deixando toda a energia em neutro. Um bom trabalho, para alguém que esteja deste lado, do cuidador e da limpeza, é quando ninguém percebe que esteve lá alguém. E o público está num espectáculo com outra motivação, outro foco.”

Ao contrário de dona Emília e de Manuela, Catarina descobriu outros lugares da cultura, enquanto artista, mantendo uma memória acordada, nos seus encontros com as imagens. Quando entra no espaço de ensaio vazio, ou na sala, depois de um espectáculo, repara nos rastos do que aconteceu. “Quase que se poderia contar uma história com o que ficou. O que ficou também nos fala sobre um artista ou uma companhia. O espaço fica muito diferente, de companhia para companhia. Gosto de saber um pouco sobre cada pessoa de um grupo que vai para uma residência artística. Talvez, isso, me sugira alguma coisa. Mas o que é facto é que, a partir daquele espaço, consegue-se ler se a produção está no início, ou se já está muito firmada, e aquele grupo de pessoas tem mesmo a certeza de que é aquilo, se são pessoas mais calmas, ou inquietas. São esses diálogos, no silêncio, que são bonitos de se ver, e estimulam a minha criatividade, enquanto estou a limpar, a reorganizar o sítio e a arejá-lo.”

Com a pandemia, a relação com os espaços sofreu muito. Como Catarina é uma cuidadora destes, o seu trabalho encontrou obstáculos, para além dos mais óbvios. “Como não existiam protocolos de distanciamento, conseguíamos perguntar directamente, ou assistir a um ensaio, e saber, exactamente, como é que funciona todo o cenário. Hoje, nós, as pessoas que limpamos, só podemos entrar num espaço quando não está a ser habitado pelos artistas, e quase que temos de adivinhar qual é o sentido original do cenário. É curioso, porque que há uma série de indicações, sem que sejam ditas, por palavras, que faz com que isso aconteça com sucesso. É uma comunicação diferente que tivemos de aprender.”

Catarina nunca se perguntou se era uma profissional da cultura, mas sente que a missão é a mesma. “O trabalho torna-se mais leve, sendo exigente, por perceber que, ao fim de contas, a cultura, ou a expressão de algo maior, é a missão.” Por isso, por “estar muito envolvida com o coração”, “não seria igual limpar um supermercado, por exemplo. No meu caso pessoal, faz diferença. Gosto muito das pessoas com quem estou a trabalhar. Apesar de não as conhecer, reconheço a sua missão e é um prazer fazer parte disso, de uma forma silenciosa.”


São elas que deixam a ordem nos espaços, limpam a memória do dia anterior, mas guardam-na, e abrem as janelas para que novas luzes possam reabitá-lo, absorvendo as linhas invisíveis, traçadas por passagens, que ficaram no ar. Manuela e dona Emília chamam-lhes "casa" e são chamadas de "mãe". Catarina reconhece-se como "cuidadora do espaço". Para estas mulheres, são organismos vivos. Cuidar de uma casa é cuidar do corpo, do corpo dos outros e das outras. E nós, como cuidamos dos seus corpos?

Texto de Raquel Botelho Rodrigues

Fotografia de Jan Kopřiva, via Unsplash