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Opinião de Shahd Wadi

O inimigo do sol

Nas Gargantas Soltas de hoje, Shahd Wadi fala-nos sobre a história de um poema que escolheu dois autores.

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“É o regresso do sol, 

do meu ser exilado.

Para os olhos dele,

para os olhos dela,

ó inimigo do sol,

não transigirei.

Até a última pulsação,

resistirei,

resistirei,

resistirei.”

Apenas poesia não o é. 

São versos de um poema que escolheu mudar de autor. O ativista antiprisional afro-americano George Jackson, autor revolucionário e marechal de campo do Partido dos Panteras Negras tinha sido encarcerado na Califórnia por mais de uma década antes de ser assassinado pelos guardas prisionais de San Quentin, em 1971. O poema “Inimigo do Sol” foi encontrado na cela após a sua morte.

Foi publicado no jornal oficial das Panteras Negras e durante mais de quatro décadas, circulou sob o nome de George Jackson, até que foi revelado que se tratava de um “erro”. É um poema do poeta palestiniano de resistência Samih Al-Qasim (1939 - 2014).  Este lapso ocorreu não apenas pelo facto deste poema ter sido encontrado na cela e escrito num papel com a própria caligrafia de George Jackson – provavelmente para partilhar com outros companheiros de prisão –, mas também porque as circunstâncias e os sentimentos que este poema transmite, não podiam nunca levantar suspeitas sobre a sua autoria. A injustiça da ocupação israelita e aquela sob a qual o George Jackson viveu são ambas inimigas do sol de liberdade.

Greg Thomas, professor de Estudos Negros, apercebeu-se deste erro ao estudar a lista de livros que foram encontrados na cela de George Jackson após a sua morte. Entre eles estava a antologia que tem o mesmo título do poema, que julgava antes ser de Jackson: Enemy of the Sun – Poetry of Palestinian resistance (Inimigo do Sol. Poesia da Resistência Palestiniana) co-editado por Naseer Aruri e Edmund Ghareeb, traduzida do árabe e publicada pela editora Drum and Spear em 1970. A atribuição “incorreta” deste poema a Jackson só foi possível devido à aproximação entre as vozes de Jackson e Al-Qasim, tal como à semelhança entre as vidas negras e palestinianas na sua procura constante pela justiça e pela liberdade. Este “erro mágico”, como Thomas o descreve, vem consolidar a ligação negra palestiniana. Talvez por isso Thomas prefere a utilização do verbo em inglês “take”, no sentido de assumir, invés de “mistake”, no sentido de errar.

A beleza deste erro-que-não-é revelou-se devido à longa história de solidariedade negra-palestiniana que fez com que Jackson tivesse este livro na sua cela e com que a editora Drum and Spear, especializada em literatura radical negra, tivesse publicado este livro palestiniano antes. Essa solidariedade negra-palestiniana – baseada num entendimento comum sobre o imperialismo, o colonialismo e a supremacia branca – começou desde a catástrofe palestiniana Nakba, em 1948, e se intensificou após a ocupação de 1967. A luta palestiniana sempre foi uma parte da tradição negra radical que é caracteristicamente transnacional e com objetivo multivalentes e vice-versa.

Para destacar este equívoco de afinidade entre o movimento de resistência palestiniana e o antiprisional negro – que Thomas descreve como um erro de “Radical Kinship” – foi organizada uma exposição intitulada “George Jackson no Sol da Palestina”. As palavras de George Jackson colaram-se às paredes daquela terra como se tivessem sido sempre palestinianas, exatamente e da mesma forma como o poema de Samih Al-Qasim resistiu à prisão ao lado de Jackson, como se fosse seu. 

Esta exposição, da curadoria do próprio Thomas que descobriu o erro foi inaugurada, como não poderia deixar de ser, no Museu Abu Jihad para os assuntos de prisão e encerrada na Sociedade da Comunidade Africana Palestiniana, em Jerusalém. A história desta comunidade está profundamente ligada à resistência palestiniana, em particular porque grande parte da mesma chegou à Palestina em 1948, precisamente para lutar contra o projeto colonialista sionista. Está, assim, no cerne da história da solidariedade palestiniana negra, lembrando-nos que esta solidariedade não se limita àquela com os movimentos dos Estados Unidos, mas também se estende para todo o mundo – um dos nomes importantes desta comunidade é a da primeira mulher palestiniana-nigeriana a tornar-se prisioneira política nas prisões israelitas, Fatima Bernawi.

Na sua passagem pela Palestina, Thomas contou a história dessa ligação, de um poema partilhado. Quando narrava esse erro poético a quem já tinha passado pela prisão ouvia de volta “este poema pertence a todos nós”. As pessoas ouviam esta história longe de qualquer acusação falsa de “apropriação cultural”, antes pelo contrário, foi para muitas como se fosse uma “história de amor”. Um poema de dois autores que nunca encontraram. 

- Sobre Shahd Wadi -

Shahd Wadi é Palestiniana, entre outras possibilidades, mas a liberdade é sobretudo palestiniana. Tenta exercer a sua liberdade também no que faz, viajando entre investigação, tradução, escrita, curadoria e consultorias artísticas. Procurou as suas resistências ao escrever a sua dissertação de Doutoramento em Estudos Feministas pela Universidade de Coimbra que serviu de base ao livro “Corpos na trouxa: histórias-artísticas-de-vida de mulheres palestinianas no exílio” (2017). Foi então seleccionada para a plataforma Best Young Researchers. Obteve o grau de mestre na mesma área pela mesma universidade com uma tese intitulada “Feminismos de corpos ocupados: as mulheres palestinianas entre duas resistências” (2010).  Para os respectivos graus académicos, ambas as teses foram as primeiras no país na área dos Estudos Feministas. Na sua investigação aborda as narrativas artísticas no contexto da ocupação israelita da Palestina e considera as artes um testemunho de vidas. Também da sua. 

Texto de Shahd Wadi
As posições expressas pelas pessoas que escrevem as colunas de opinião são apenas da sua própria responsabilidade.

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