Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Opinião de André Osório

Carta do Leitor: Programação do Esquecimento

A Carta do Leitor de hoje chega-nos pelas mãos de André Osório, que nos fala de lembranças e perdas, evocando a vida e a solidão de Margarida após a morte do marido e a separação dos netos.

Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Margarida era uma pessoa como as outras. Lembrava-se muitas vezes de quando comprava o peixe na praça todas as quartas, quando deixava os netos que cresceriam na escola até a apanha próxima. Dizias sempre: “os pequenos, devolve-os ao mar, que mais tarde voltam grandes”. Não voltaram. Fechada no lar, onde há uns anos o teu marido morreu num acidente de natureza incerta - que algo há de mais incerto que a incerteza da morte -, mergulhas os olhos nas paisagens, em filmes antigos, notícias que reportam a ausência em todas as artérias eléctricas coaguladas do tempo.

Vivia na Rua Ponta Delgada onde gatos trepavam do pátio até à varanda, miando no espelho. A casa, por essa altura, andava sempre ocupada. A Teresa deixava-os sempre entrar. Viveram juntas durante muitos anos, as duas. Passeávamos entre os móveis, entre a doença, os piões de pão, tão já duros como brinquedos da nossa fome. O interior existia quase a preto e branco, mudo, a tela queimava entre os olhos, a lâmpada em esforço sobre a persiana baixa, o sofá antigo ajeitando-se às ondas do corpo, ileso do contacto. E o enorme estômago preparava o tempo, “Queres uma xícara de café? Açúcar?”, tia, ainda não, não é certo pensei, enquanto, ao lado, servia o meu silêncio a outro convidado, e a outro, e a outro.

A programação da tarde parecia-me, neste quarto, sempre muito rica, apesar de, com desgosto meu, não me lembrar já de nada. Só de um gesto perdido; umas horas aqui, um almoço ali. Em particular, de um chinês (assim chamávamos com o artigo errado, pois tratava-se do único a que íamos) na Praça do Chile, com dois leões à entrada, um buda muito contente, maior que eu, a um canto, nos pratos galinha com amêndoas e pato à Pequim, com a carne enrolada. O jogo da forca na borda da mesa como um prisioneiro que se prova inocente enumerando os anos até à sua chegada.

Soube nesse dia da sua doença crónica. Há uma beleza maligna em picar o ponto num horário definido. Tudo isso era a morte, mas temos agora a vida. Os panos, aveludados com o pêlo, assobiavam do vento uma canção. Ao lado da minha escola de infância, o funeral. Anos e anos a fio. Familiares harmonizavam lamentos quietos, formais. Tudo despoletava de um silêncio comum que, entre o rumor das camas e das janelas que latejam, atravessava a penumbra como um segredo ingrato. E lá estava o carro - solene, de mármore, largo com as dúvidas do mundo, estacionado a um canto do pátio.

Agora as paredes de madeira, um cartaz no centro das portadas de um festival de aldeia. Pensas, nesse teu outro lado, como os anos passam e a dor passa, entre malas, casamentos, entre os pequenos momentos que nos separam. E unem. Partimos de viajem num carro branco, para fora da cidade. As férias, as veias subterrâneas, eram raízes sob as lajes, sorvendo o último frio dos sacos de sangue. Agora, quando te olho, assim encovada, recolhida, maquilhada dos anos como com um véu de teatro, lembras-te? Quando te sobreviveste e me deixaste assim, do outro lado, ligado à corrente, sem memória, sem passado nem presente?

Um cone de gelado escorre, uma grande poça pegajosa sustenta os insectos do nosso esquecimento.

Olhas para mim: tão pouco te reconheces, pesada, suculenta, tolhida até à espinha numa noite de festival.

Se quiseres ver um texto teu publicado no nosso site, basta enviares-nos o teu texto, com um máximo de 4000 caracteres incluindo espaços, para o ge***@*****or.eu, juntamente com o nome com que o queres assinar. Sabe mais, aqui.
Texto de André Osório

As posições expressas pelas pessoas que escrevem as colunas de opinião são apenas da sua própria responsabilidade.

Publicidade

Se este artigo te interessou vale a pena espreitares estes também

24 Fevereiro 2026

Protocolo racista, branquitude narcísica

23 Fevereiro 2026

Luís Paixão Martins: “ Os nossos políticos não estão habituados a trabalhar em minorias”

20 Fevereiro 2026

Pensar a Desinformação em Voz Alta: descobre algumas das reflexões da última residência do Gerador na Casa Capitão

20 Fevereiro 2026

Tempos livres. Iniciativas culturais pelo país que vale a pena espreitar

18 Fevereiro 2026

“Singularidades de Guimarães”: o ciclo de conversas que desafia a comunidade a olhar para a cidade

16 Fevereiro 2026

Com o patrocínio do governo, a desinformação na Eslováquia está a afetar pessoas, valores e instituições

13 Fevereiro 2026

Nova Gorica-Gorizia: entre a Eslovénia e a Itália, uma fronteira que se tornou um elo de ligação

13 Fevereiro 2026

Tempos livres. Iniciativas culturais pelo país que vale a pena espreitar

11 Fevereiro 2026

Nuuk: Gronelândia, uma ilha no centro dos conflitos pelo poder global

10 Fevereiro 2026

Presidenciais e Portugal – algumas notas

Academia: Programa de Pensamento Crítico Gerador

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Desarrumar a escrita: oficina prática [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Criação e Manutenção de Associações Culturais

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo Literário: Do poder dos factos à beleza narrativa [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Curso Política e Cidadania para a Democracia

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Autor Leitor: um livro escrito com quem lê 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Financiamento de Estruturas e Projetos Culturais [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Comunicação Cultural [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Clube de Leitura Anti-Desinformação 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Fundos Europeus para as Artes e Cultura I – da Ideia ao Projeto [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Literacia Mediática

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo e Crítica Musical [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Imaginação para entender o Futuro

Duração: 15h

Formato: Online

Investigações: conhece as nossas principais reportagens, feitas de jornalismo lento

16 fevereiro 2026

Com o patrocínio do governo, a desinformação na Eslováquia está a afetar pessoas, valores e instituições

Ataques a jornalistas, descredibilização da comunicação social independente, propagação de informação falsa, desmantelamento de instituições culturais. A desinformação na Eslováquia está a crescer com o patrocínio dos responsáveis políticos, que trazem para o mainstream as narrativas das margens. Com ataques e mudanças legislativas feitas à medida, agudiza-se a polarização da sociedade que está a prejudicar a democracia e o sentimento europeísta.

17 novembro 2025

A profissão com nome de liberdade

Durante o século XX, as linhas de água de Portugal contavam com o zelo próximo e permanente dos guarda-rios: figuras de autoridade que percorriam diariamente as margens, mediavam conflitos e garantiam a preservação daquele bem comum. A profissão foi extinta em 1995. Nos últimos anos, na tentativa de fazer face aos desafios cada vez mais urgentes pela preservação dos recursos hídricos, têm ressurgido pelo país novos guarda-rios.

Carrinho de compras0
There are no products in the cart!
Continuar na loja
0