Sem grandes filtros de inibição, os ‘avanços’ de homens brancos portugueses repetiam-seaqui e ali, entre destinos angolanos de saída nocturna. Para quem, como eu, nunca tinha atraído tantos olhares de sedução, aquela atenção repentina oscilava entre o deslumbrante e o desconfortante.
Havia ali, nas interacções estabelecidas no circuito luandense, muitos momentos de agressão disfarçados de apreciação, à semelhança de outras situações racialmente envenenadas.
O engodo, que hoje considero intrinsecamente racista, não passava, há mais de uma década, de uma estranha sensação de inadequação.
Afinal, se em Lisboa sempre me fizeram sentir invisível, e desprovida de qualquer atractividade, como é que, de repente, em Luanda, o mesmo público que toda a vidaignorou a minha feminilidade, não só me começou a ver enquanto mulher, como passou a desejar a minha companhia?
Fui e vou escrevendo as minhas respostas a esse e outros questionamentos, à medida daspesquisas e conversas que fiz e faço sobre como as relações étnico-raciais de hoje continuam a obedecer a dinâmicas de poder do passado.
Observo que, consciente ou inconscientemente, o pacto narcísico da branquitude mantém bem vivo o protocolo racista que antes legitimou a escravatura e o colonialismo, e agora justifica vínculos laborais extractivistas, enquanto preserva sentimentos de posse humana.
A este propósito, nunca é demais recordar as palavras da psicóloga social e escritora brasileira Cida Bento, autora da primeira tese brasileira sobre a branquitude. Segundo a também activista, “fala-se muito na herança da escravidão e nos impactos negativos para as populações negras, mas quase nunca se fala na herança escravocrata e nos seus impactos positivos para as pessoas brancas”.
Nesse silêncio, salta à vista, desde logo, o sentimento de superioridade – e até de propriedade – sobre as pessoas negras, evidente na desfaçatez com que pessoas brancas negam o racismo.
Que o digam as reacções ao que aconteceu no jogo da semana passada entre Sport Lisboa e Benfica e Real Madrid.
O caso – já amplamente comentado – escancarou o protocolo racista e a branquitudenarcísica que o conserva, mas é sobre o russo Vyacheslav Trahov que importa agora escrever.
Apontado por vários órgãos de comunicação social africanos como um criminoso sexual, Vyacheslav deixou um rasto de vítimas no Gana e no Quénia, onde filmou e divulgou encontros sexuais com várias parceiras, sem o seu consentimento.
Segundo a imprensa queniana, o homem disponibilizava gratuitamente alguns conteúdos no TikTok, mas também cobrava subscrições, num esquema em que transformou mulheres negras em ‘presas fáceis’.
Mais do que fazer gala dos engates – algumas fontes contabilizam acima de 100 vítimas, num período ainda por determinar –, Vyacheslav ter-se-á gabado, entre publicações, da sua principal arma de sedução: a pele branca, à qual as mulheres negras supostamente não resistem.
Daqui se extrai mais um capítulo do pacto da branquitude, no qual se reflecte como o branco é narcísico, como olha para si próprio e se encanta, partindo do princípio que é o padrão a ser alcançado, embora, ao mesmo tempo, se veja como inalcançável. Falta agora que se comece a ver também como parte inalienável do protocolo racista.