"Kamza é um laboratório vivo de uma forma diferente de construir a cidade, onde a dimensão humana se expressa no máximo das suas possibilidades e se entrelaça com o desejo de vida", escreve a arquiteta albanesa Dorina Pllumbi sobre o que outrora foi uma periferia de Tirana.
Município autónomo desde 1996, Kamza é um laboratório porque foi construída, literalmente, pelos seus habitantes e tem uma história que espelha, com as suas luzes e sombras, a história da própria Albânia.
Falámos com Pllumbi antes de chegar ao local, para compreender o fenómeno das construções que alguns chamam de "informais" e outros de "abusivas" e que, segundo a arquiteta, foram "uma espécie de resposta espacial e material à arquitetura exercida como sistema de poder, de cima para baixo, especialmente após as profundas transformações políticas, sociais e económicas da década de 1990". Para Pllumbi, a construção não só de casas, mas de uma cidade inteira como Kamza, é um "ato político prático".
Para percorrer os sete quilómetros que separam Kamza de Tirana, são necessários entre 30 e 50 minutos de carro ou autocarro, devido ao trânsito.

Foto: ©Francesca Barca
Ao caminhar por Kamza, duas coisas chamam a atenção: a primeira é a estrutura das casas, todas diferentes entre si e muitas vezes “em evolução”, com algumas partes concluídas e outras em construção para ampliar a sua área. A segunda é o número de estaleiros de obras para novas construções de edifícios de grandes dimensões.

Foto: ©Federico Caruso
O nome desta cidade apareceu na imprensa internacional há alguns anos devido a uma curiosa escolha da administração local: várias ruas têm nomes de personagens controversas, entre as quais Donald Trump, George Bush, Silvio Berlusconi ou ainda Nicolas Sarkozy.
"Desculpem a franqueza, mas muitas vezes quem vem do Ocidente não compreende a questão da direita e da esquerda na Albânia": após o fim do regime comunista, na década de 1990, as pessoas "mais marginalizadas — aquelas que se esperava que votassem à esquerda, embora esse dogma já tenha sido abandonado em toda a parte — eram as que se opunham ao regime". Por isso, na Albânia, "as zonas mais pobres votavam e continuam a votar no Partido Democrático (Pdsh), que é um partido de direita".
Quem fala é o antropólogo Nebi Bardhoshi. Encontrámo-lo num bar em Kamza, no final de dezembro: "Obviamente, ninguém votou nos nomes das ruas. Não se tratou de uma votação. Mas de alguma forma, as pessoas gostam”, diz ele, sorrindo.

Nebi Bardhoshi, dezembro de 2025 | Foto: ©Federico Caruso
De acordo com o relato de Erisa Kryeziu no Nyje.al, Kamza reúne vários paradoxos: “É o município albanês mais pequeno em extensão, mas também o mais densamente povoado, o que o torna o mais urbanizado.
Nos últimos vinte anos, registou um crescimento demográfico extraordinário: numa superfície de 37,18 quilómetros quadrados vivem cerca de 160 mil habitantes”. A idade média da cidade é de 27 anos, enquanto na Albânia é de 42,5 anos e tem vindo a aumentar de forma constante.
A migração interna na Albânia
Após o fim do regime socialista (1946-92), a Albânia conheceu uma emigração impressionante: de acordo com o departamento albanês para a emigração, cerca de meio milhão de albaneses, 15% da população, deixaram o país entre 1990 e 1997. A este movimento juntou-se um movimento interno, das áreas rurais para as periferias das cidades, que contribuiu para moldar a geografia urbana e social.
Kamza foi um dos destinos da migração interna: especialmente pessoas que chegavam do norte do país e que, após o fim do regime, não podiam dar-se ao luxo de emigrar para o exterior (ou apenas um membro da família o fazia), na altura sobretudo para Itália ou para a Grécia.
Trata-se de trajetórias migratórias difíceis, na sua maioria ilegais: por mar para Itália, por terra para a Grécia. Bardhoshi conta-nos sobre o pai de um conhecido seu: "Ficou nove meses em Itália para poupar algum dinheiro e depois voltou para construir a sua casa. Esta era a prática nos anos 90". Uma prática que envolvia as famílias na sua totalidade, incluindo as mulheres.
O fim do comunismo na Albânia significou muitas coisas. Entre as mais significativas estão a mudança na propriedade da terra, a descentralização da economia e a introdução da liberdade de circulação das pessoas.
Bardhoshi conta-nos que a Albânia tem uma das taxas de urbanização mais baixas da Europa: em 1990, apenas 35% da população vivia em áreas urbanas, concentradas principalmente nos distritos ocidentais, e a estratégia do regime era manter as pessoas nas áreas rurais.
"Em 1991, as explorações agrícolas estatais e as cooperativas foram abolidas e teve início o processo de descoletivização. Nessa altura, as pessoas começaram a questionar-se sobre onde iriam viver", porque as aldeias não tinham casas suficientes e a crise do setor mineiro tinha deixado muitas pessoas sem emprego.
Vir para as cidades foi a opção escolhida por aqueles que não puderam partir: "Para sobreviver. Mas também na esperança de uma vida melhor". Saíram de um período e de contextos em que "o controlo social era intenso. Para os jovens, foi uma sensação repentina de liberdade".
Ninguém sabia o que os esperava, conta-nos Bardhoshi com delicadeza: "Eu era jovem na altura. A pobreza era real, mas havia muita energia positiva voltada para um futuro melhor. Estávamos cheios de esperança. E muitas dessas expetativas concretizaram-se".
Bardhoshi descreve-o como um "movimento social". E, em termos jurídicos, como um fenómeno "ilegal": a terra era do Estado e, inicialmente, não foram solicitadas autorizações, ou pelo menos não por todos; em alguns casos, aplicavam-se as práticas tradicionais relativas à posse de terra; noutros, houve quem comprasse a pessoas a quem o Estado tinha atribuído terrenos: às vezes com documentos, às vezes sem. Foi, no fundo, um momento de grande confusão jurídica e social.
As pessoas queriam comprar, insiste Bardhoshi, e é importante sublinhá-lo porque "a retórica dos partidos, e do partido socialista em particular, é a de falar destas pessoas como ‘ilegais’ ou ‘clandestinas".
A questão dos assentamentos "ilegais" ou "informais" está no centro de uma disputa, usada por políticos de todos os quadrantes para angariar votos e consensos. Desde 2004, em Kamza, como noutros locais, começou um processo de legalização ao qual os habitantes aderiram, pagando para regularizar as casas que tinham construído pelos seus próprios meios.
O fenómeno não começou num momento aleatório; em 2005, estavam previstas eleições. "Mais de 50% das pessoas viviam em assentamentos informais. É uma percentagem enorme", explica Bardhoshi. A ideia era legalizar, para depois expropriar legalmente e, finalmente, "urbanizar".
O Partido Socialista, e em particular Edi Rama, atual primeiro-ministro, sempre apontou os habitantes de Kamza e de outras zonas construídas desta forma como um mundo incivilizado, antiurbano e antiestatal. Um processo que se prolongou durante anos e que, segundo Bardhoshi, se insere num "debate entre ruralidade e urbanidade bastante difundido na Europa Oriental". Tal como noutros países da Europa pós-socialista, "verificou-se este confronto entre os recém-chegados e a burguesia socialista, que via a cidade, percebida como um “paraíso socialista”, transformar-se". Uma espécie de "nostalgia urbana socialista".
Dorina Pllumbi também nos falou sobre esta atitude em relação a Kamza, descrevendo-a como um exemplo do discurso político: “A sua identidade foi, de certa forma, atribuída pela centralidade elitista do poder, ou seja, Tirana. Foi rotulada como ‘o outro’. E é um símbolo dessa alteridade”.
As pessoas vieram para cá com a ideia de dar aos seus filhos uma vida melhor, oportunidades de estudo, de trabalho... No novo assentamento não havia escolas e organizavam-se em casa para ensinar. "É fascinante como, na ausência do Estado, estas comunidades foram capazes de fazer o que fizeram".
O grupo ATA, "o outro"
Deste "outro", um grupo de habitantes de Kamza fez um projeto político. ATA "não é um acrónimo", conta-nos Diana Malaj num italiano irrepreensível, mas o pronome "eles". "Eles" quem? "Eles" é a forma como " as pessoas que vivem à margem da sociedade são percebidas". Malaj, que fundou o coletivo em 2014, faz parte da geração que migrou das áreas rurais para Kamza com a família.
Fomos visitar o local do grupo acompanhados por Ronald Qema, que se juntou quando ainda estava no ensino secundário, em 2016. O grupo foi criado precisamente porque "estávamos cansados do estigma que Kamza tinha e continua a ter". O de ser "ocupantes ilegais", "invasores".

Ronald Qema na sede da ATA, dezembro de 2025| Foto: ©Federico Caruso
Malaj e Qema vivem hoje no estrangeiro para concluir os seus estudos ou investigação. "Vivemos num país onde a emigração é uma escolha obrigatória para sobreviver e construir um futuro".
Kamza não tem cinema, nem teatro, nem um arquivo ou um museu, explica Malaj.
O grupo ATA começou a fazer ativismo cultural, principalmente através do teatro, para "encontrar a nossa linguagem", mas também para "construir um desejo, um desejo não apenas individual, mas sobretudo coletivo".

dezembro de 2025| Foto: ©Federico Caruso
A ATA também se dedica a documentar, através do jornal online Nyje.al, e a fazer antropologia urbana, recolhendo histórias e organizando workshops com os habitantes. Além disso, explica Qema enquanto nos mostra o espaço do grupo, que também é uma biblioteca, a ATA presta assistência jurídica e administrativa aos cidadãos e apoia as comunidades afetadas pelos muitos projetos de desenvolvimento do setor hidroelétrico que estão a devastar a paisagem albanesa.

"É nossa tarefa preencher uma lacuna dentro do nosso coletivo e dentro de nós mesmos". Mas, acrescenta Qema, o objetivo não é preencher a lacuna política, mas sim expô-la. "A geração dos nossos pais construiu esta cidade, esta comunidade: por necessidade, para construir a sua vida. Para mim, é um dever da nossa geração contribuir para a vida pública desta comunidade". E, acrescenta, "criar este desejo social", para que seja a comunidade a fazer as suas exigências a quem governa.
Se a geração dos pais do grupo Ata construiu as casas e "cuidou de nós", hoje a tarefa é "tornar estas histórias visíveis , falar da nossa comunidade e valorizar a forma como as coisas correram e também, de certa forma, documentar e proteger o que está a acontecer e o que poderá acontecer no futuro", explica.

Dezembro de 2025 | Foto: ©Federico Caruso
A referência é ao que aconteceu nos bairros 5 Maji e Kombinat, em Tirana, onde as casas construídas por alguns habitantes no período pós-socialista foram destruídas para dar lugar a novos projetos residenciais e onde, tal como em Kamza, as pessoas vivem há anos num limbo jurídico. "A intenção era manter as pessoas numa situação de liminaridade, de não pertencer a nenhum lugar", acrescenta Qema.
É inevitável pensar nos inúmeros estaleiros de obras que se encontram ao caminhar por Kamza, cujas estruturas cercam e se elevam acima das casas de dois andares construídas pelos habitantes, deixando-as sem ar nem luz: "Estes enormes edifícios estão a destruir as histórias das casas, construídas com tantos sacrifícios e esperanças", conclui Qema.
De acordo com o relatório "Social Impact of Emigration and Rural-Urban" elaborado pelo centro de estudos alemão GVG para a Comissão Europeia, Kamza tinha seis mil habitantes no início dos anos 90, em 2011 eram 67 mil. A cidade também concentra várias questões sociais. O GVG cita dados do PNUD de 2005, segundo os quais 80% das famílias de migrantes internos na Albânia viviam em condições de extrema pobreza. Ainda em 2005, apenas 10% das pessoas em idade ativa tinham um emprego formal, enquanto 45% da força de trabalho trabalhava sem contrato ou de forma sazonal.