Pensar a arquitetura para além da mera construção de edifícios e usá-la como ferramenta de leitura crítica do mundo, como um meio para observar e reconstruir ambientes onde se desenrolam conflitos, violência e injustiças. É esta a noção que está na base do trabalho de investigação desenvolvido pelos Forensic Architecture.
Arquitetos, programadores, cineastas, advogados, jornalistas, artistas e especialistas de diversas áreas integram este colectivo de investigação sediado em Goldsmiths - Universidade de Londres, Reino Unido, que constrói investigações complexas com recurso a tecnologia tridimensional, imagens, vídeos e relatos de sobreviventes de ataques violentos ou acidentes particularmente impactantes.
As investigações dos Forensic Architecture têm abrangência internacional ao trabalharem abordagens que muitas vezes escapam ao olhar institucional ou contradizem as narrativas oficiais. Alguns exemplos ilustram a amplitude e relevância do seu trabalho: a análise da progressão do incêndio da Grenfell Tower, em Londres, através de modelação tridimensional e testemunhos situados, a reconstrução do massacre de trabalhadores humanitários em Tel al‑Sultan, Gaza, combinando imagens de satélite e registos de sobreviventes ou ainda o projecto A Cartography of Genocide, que mapeia a conduta militar israelita em Gaza desde 7 de outubro 2023.
Através de modelação espacial, análise de imagens de satélite, arquivos multimédia e testemunhos de comunidades, os Forensic Architecture produzem provas que têm sido utilizadas em tribunais internacionais, servindo de apoio a comunidades que lutam contra violações dos direitos humanos.
Natalia Sliwinska, cineasta, investigadora multidisciplinar e editora de vídeo deste colectivo esteve presente no Festival Uncover, organizado pelo Gerador em Guimarães entre 12 e 15 de março. Neste encontro, que reuniu vozes internacionais para pensar a imagem enquanto ferramenta de poder, mediação e perceção, apresentou o trabalho dos Forensic Architecture e mostrou alguns exemplos concretos de projetos desenvolvidos.
Integrada na equipa desde 2022, Natalia Sliwinska participa na criação e pós‑produção de obras audiovisuais e tridimensionais para investigações em torno de violações de direitos humanos. O seu percurso inclui um Mestrado em Non‑Linear Narrative pela Royal Academy of Art, em Haia, e um BA em Communication Design pela Glasgow School of Art.
Em entrevista realizada à margem da sessão, falou de algumas componentes do seu trabalho, mas também da forma como o coletivo tem vindo a transformar a própria ideia do conceito de verdade no tempo atual.
Na tua apresentação, que trouxeste ao Uncover, falaste sobre como a verdade contemporânea é uma construção, uma produção. Isso significa que achas que a verdade já não é algo a que possamos aceder imediatamente?
Bem… sim e não, acho eu. Primeiro, temos de lembrar-nos que, na era das redes sociais e dos telemóveis [smartphones], qualquer pessoa pode tornar-se repórter e qualquer pessoa pode publicar qualquer coisa. Antes de mais, a múltipla verificação das fontes que recebemos [é importante], certo? Se só seguires uma fonte mediática, isso pode ser questionável. Acho que tudo deve ser visto com alguma reserva e que é nosso dever, enquanto cidadãos, encontrar a verdade por nós próprios. Procurar a verdade e, acima de tudo, verificar fontes e obter as nossas notícias ou conhecimento a partir de múltiplas fontes diferentes. Com tudo o que está a acontecer em Gaza [por exemplo] a voz está no terreno, não é? É assim que também trabalhamos na Forensic Architecture.
Mas vocês basicamente recriam ambientes, como explicaste, para se aproximarem da verdade. Portanto, usam arquitetura como base, mas na verdade recriam muitas coisas.
Sim, baseamo-nos nisso. Por isso, se diz respeito a um edifício ou a um ambiente, usamos diferentes formas de media para depois o construir num espaço 3D. Como pudeste ver na apresentação, trabalhamos com imagens de satélite, trabalhamos muito com arquivos, trabalhamos muito com informação de fonte aberta. Obviamente, isto precisa de ser verificado de várias formas. Analisamos os metadados, se conseguirmos acesso direto ao material original. Se não for o material original, então cruzamo-lo com outras coisas.
Também trabalhamos com qualquer tipo de documentos que seja de fonte aberta. No caso de investigações maiores, como o incêndio da Grenfell Tower, trabalhámos com testemunhos dos sobreviventes que estavam disponíveis através do inquérito público. Havia um site inteiro com esses testemunhos individuais de cada pessoa. Portanto, consolidamos todas as nossas fontes e depois estabelecemos ligações entre elas para ver o que realmente faz sentido.
Como escolhem as situações que querem analisar? Sei que as pessoas podem contactar-vos e denunciar que algo aconteceu e não está a ser bem investigado, mas têm outros critérios? Imagino que muita gente peça a vossa ajuda…
Sim, é verdade. Normalmente trabalhamos a convite de comunidades que enfrentam violações diretas de direitos humanos. E outro critério é perceber se as nossas técnicas são úteis de alguma forma para essa investigação específica e se há um incentivo para desenvolver ainda mais as nossas técnicas. Portanto, é necessário que vários critérios sejam cumpridos, para que também possamos avançar enquanto organização e apoiar essas comunidades na sua luta por justiça.
Quais são esses critérios, que vos fazem perceber que os vossos métodos são úteis para essa comunidade?
[Tem a ver] principalmente [com o facto de] usarmos ferramentas arquitetónicas. São casos que envolvem reconstruções de edifícios ou de ambientes que achamos possível reconstruir com as nossas ferramentas, ou quando há análise de media num certo ambiente.
Há alguns anos trabalhei num caso de violência policial em Amesterdão e tudo o que tínhamos eram testemunhos da polícia. Tratava-se da morte de um jovem pela polícia, e também tínhamos residentes locais que filmaram a partir de múltiplos ângulos. Nesse caso, sabíamos que podíamos investigar porque não tínhamos apenas o testemunho policial. Obviamente que não trabalharíamos apenas com isso. Usamo-lo para desenvolver certos aspetos ou contrariar o testemunho deles porque tínhamos elementos visuais. Tínhamos vídeos disponíveis a partir dos quais podíamos analisar certos movimentos de diferentes ângulos. É isso que fazemos: recolhemos o material visual, sincronizamo-lo com base nos metadados. Se é uma fotografia, se é um vídeo, conseguimos colocá-lo numa linha temporal e cruzar esses momentos.
Portanto, esse seria o critério. Também a quantidade de fontes disponíveis para levar a cabo uma investigação.
Então, em muitos casos — talvez em todos — vocês vão mais longe do que a investigação das autoridades competentes.
Sim.
Mas também enfrentam dificuldades para que os tribunais aceitem as vossas provas em alguns contextos, certo?
Em alguns casos, sim. Acho que está a tornar-se mais fácil hoje em dia, especialmente porque o nosso fundador, Eyal Weizman, está no conselho tecnológico do TPI [Tribunal Penal Internacional]. Portanto, agora as provas que produzimos, ou que os cidadãos produzem, estão a ser cada vez mais reconhecidas em certos casos. E, como disse na minha apresentação, estamos a apoiar a equipa jurídica sul-africana no caso contra Israel. Essas provas estão a ser reconhecidas, mas, neste caso, trabalhamos em colaboração com os advogados. Não vamos simplesmente ao tribunal sozinhos. É também assim que a nossa organização é construída: somos uma equipa multidisciplinar de arquitetos, cineastas, programadores, advogados, jornalistas. Trabalhamos através destas colaborações, tal como tratamos as fontes disponíveis. Também abordamos modos de trabalho em diálogo com o maior número possível de especialistas. Se é uma investigação sobre um bombardeamento ou uma explosão, consultamos peritos em balística ou outros tipos de especialistas, [por exemplo].
Mas o foco principal é sempre informação espacial, recriação espacial?
Sim e, mais recentemente, temos trabalhado muito com som. A nossa organização parceira, a Earshot, também trabalha de forma forense mas sobretudo com som. Temos feito muitas investigações sonoras em conjunto. [Coisas que combinam] espaço e som, [que permitem perceber] como o som viaja e o que é possível detetar através do som. Mas sim, as nossas investigações dizem sobretudo respeito a ambientes específicos.
No vosso trabalho, também criam narrativas, de certa forma. Contam uma história de como as coisas aconteceram. Como é criar essa história para o público entender a sucessão de acontecimentos, com tantos detalhes específicos? O que têm em mente, por norma?
Acho que contar a história da comunidade, antes de mais, e como querem ser representados. Os nossos filmes têm alguns elementos de documentário, mas não tanto [como se possa pensar]. Principalmente, apresentam os nossos métodos e tentam explicá-los para que sejam mais acessíveis a diferentes audiências. Como cineasta, posso dizer que, quando fazemos entrevistas de testemunhos situados, passamos por processos de feedback com a comunidade. No caso dos testemunhos do caso Grenfell Tower, tivemos várias reuniões com as testemunhas. Entrevistámo-las e depois elas viam uma versão e diziam se queriam acrescentar ou retirar algo. Tivemos situações em que…
O testemunho situado tenta explorar o espaço entre as memórias traumáticas e o espaço físico. Nem todos os testemunhos situados podem ser considerados 100% precisos do ponto de vista forense, porque as pessoas recordam eventos traumáticos de forma diferente.
Grenfell, por exemplo, foi um dos nossos maiores casos e trabalhámos nele durante quase sete anos, acho eu. Terminámos há dois anos. Quando começámos, mapeámos o fogo, reconstruímos a progressão, percebemos como o edifício ardeu. Mas o testemunho situado revelou mais a experiência vivida pelas pessoas e centrou-se na versão delas dos acontecimentos.
Por isso, mesmo sabendo que não havia forma de aquela pessoa ter visto o fogo naquele momento, naquele local, mantínhamos a versão dela porque aquele material lhes pertence. É a sua memória daquele instante. E tivemos exemplos de pessoas a dizer “ah, afinal lembro-me disto de outra forma”… Nunca discutiríamos [com as vítimas] dizendo “isso não é verdade”, porque priorizamos que é a versão delas dos acontecimentos. Espero que isto responda à pergunta.
Sim. Conseguem quantificar, de alguma forma, o impacto que este tipo de investigações está a ter? Desde que começaram até agora, sentem que está a crescer?
Sim, definitivamente. Quer dizer… depende. No caso do tribunal que estamos a apoiar, é difícil porque é um processo longo e eu não estou diretamente a trabalhar nesse projeto, mas a minha colega Nour Abuzaid lidera a equipa de Gaza. Eles enfrentam constantemente coisas às quais nós, enquanto equipa, não estamos habituados, como o acompanhamento em direto da situação e tudo o que está a sair de Gaza, tentando registar todos os diferentes incidentes.
Mas acho que, na forma como podemos contribuir para este caso, já está a ter impacto. Acho que para nós é importante fazer o que podemos neste momento para apoiar [a causa Palestiniana]. E estamos muito orgulhosos de poder agir.
E em outras investigações também. No caso da Grenfell Tower, tivemos vários testemunhos de sobreviventes e testemunhas, que depois foram apresentados. Em 2024 houve uma audiência pública para os sobreviventes e testemunhas do incêndio e para as suas famílias, onde puderam falar perante os arguidos, ou seja, as empresas que venderam o revestimento e eram responsáveis pelas renovações no edifício. E os nossos filmes foram exibidos nesse contexto.
Tínhamos pessoas a vir ter connosco - alguns sobreviventes, outros que não tiveram oportunidade de dar o seu testemunho - a dizer o quanto gostariam de falar connosco e passar por essa experiência. Porque, para muitos, é uma forma de processar o trauma e também de recordar. É incrível como a perspetiva 3D, o espaço 3D, pode desbloquear certas memórias. Portanto, para nós é importante poder ajudar alguém a processar esses eventos traumáticos e ajudá-lo a lembrar-se melhor [como tudo aconteceu].