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Apolo de Carvalho: “Numa sociedade onde a extrema-direita e o fascismo estão a aumentar, uma figura como Amílcar Cabral é uma ameaça”

A III Grandi Marxa Cabral sai às ruas de Lisboa a 12 de setembro, o dia do nascimento de Amílcar Cabral. Este ano, o mote é “Em Defesa da Terra i pa Vida: Reconhecer, Reparar, Descolonizar”. Apolo de Carvalho, que integra a organização, fala ao Gerador sobre a importância de recuperar a luta climática a partir de uma perspetiva anticolonial, que não perca de vista a responsabilidade do norte global e do seu extrativismo.

Texto de Cátia Vilaça

Edição de Tiago Sigorelho

Apolo de Carvalho na Marxa de 2025. Fotografia cedida pelo próprio

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Em 2020, a BBC World Histories Magazine propôs-se a eleger o mais importante líder histórico do mundo. Para tal, convocou um conjunto de historiadores a apresentarem as suas propostas, posteriormente submetidas à votação de mais de cinco mil leitores. Amílcar Cabral ficaria em segundo lugar nesta votação, à frente de Winston Churchill e Abraham Lincoln. Por cá, o seu legado está longe de ser lembrado da mesma forma, num esquecimento que começa nos bancos da escola, envolto numa narrativa que, mesmo depois do 25 de abril, caracterizava os movimentos de libertação e os povos colonizados como “violentos”, sem contextualizar politicamente as suas lutas.

É exatamente para lembrar o legado do líder histórico do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) e a importância de o estudar que, no próximo dia 12, a Konferénsia Panafrikanu di Lisboa, de que Apolo faz parte, juntamente com outros movimentos, sai à rua. Formada em 2018, no rescaldo das manifestações contra a escravatura na Líbia, ocorridas no ano anterior, a Konferénsia Panafrikanu di Lisboa surge como espaço de revitalização do pan-africanismo na capital portuguesa, um tema que Apolo tem trabalhado, quer sob a perspetiva académica (é doutorando em estudos pós-coloniais pela Universidade de Coimbra), quer sob a lente dos movimentos sociais, cujo papel considera fulcral no estudo destes temas.

A Marxa deste ano parte da relação entre a questão ecológica e a história colonial. De que forma estas duas dimensões se entrelaçam?

Consideramos que essas dimensões fazem parte das lutas de libertação e da própria luta antirracista e pan-africanista, mas têm tido menos visibilidade entre nós. Quando digo menos visibilidade, não quero dizer que esta preocupação não esteja dentro das lutas dos povos africanos, pós-colonizados, indígenas, etc. Pelo contrário, a defesa da terra tem sido central e diária na vida dessas pessoas há muito tempo.

O que aconteceu é que a questão ecológica, sobretudo dentro do contexto europeu, acabou por ser apresentada como uma agenda separada das questões que nos interessam e que nos atravessam, como o colonialismo e o racismo, aqui neste espaço ainda eurocêntrico. E o movimento ecologista acabou por ganhar maior visibilidade pública a partir dos movimentos brancos, ou seja, costumamos associar os movimentos ecologistas aos movimentos brancos.

Isso acabou por apagar outras origens ou genealogias da luta ecológica. E nós, com esta Marxa, sobretudo a partir do trabalho científico de Amílcar Cabral, queremos fazer o movimento contrário, que é recuperar a questão ecológica dentro da história das lutas pela libertação e mostrar que não podemos parar a crise climática sem fazer a pergunta essencial, que é a da responsabilidade: quem explorou a terra, quem é que se apropriou dos recursos e fez essa acumulação predatória da riqueza com as consequências que enfrentamos hoje. E aí, vamos fazer o regresso a Cabral. Também deixo aqui uma ressalva: não vamos transformar Cabral num bastião da ecologia do século XXI, de todo. Temos essa noção dos contextos, mas acho que é muito importante mostrarmos que a totalidade da libertação, porque [os movimentos de libertação] defendiam uma libertação total e imediata, incluía também a dimensão ecológica, porque não era somente separar a independência dos nossos países e das pessoas, mas também a independência e a libertação de própria terra no seu todo, essa dimensão quase cosmológica. Cabral era [engenheiro] agrónomo e trabalhou com as pessoas do Alentejo, e também em Alcântara, com os agricultores. E fez também um trabalho na Guiné-Bissau, ou seja, é interessante ver que Cabral vai para o mundo rural buscar os fundamentos da sua própria luta. Quando ele diz, nos seus escritos agrários, que defender a terra é defender o ser humano, isso mostra a atualidade do seu pensamento. E hoje em dia, quem tem de facto sofrido com as consequências ecológicas são ainda as pessoas colonizadas, de uma certa forma. Daí a pertinência do seu pensamento.

Os estudos em agronomia de Cabral e a forma como ele estudou a terra também nos permitem ter uma dimensão muito concreta do que foi o extrativismo associado ao colonialismo.

Sim, ele fala nos seus escritos sobre a questão da erosão dos solos, e também tem essa noção muito científica de que o facto de nós sermos seres humanos faz com que na natureza, obviamente, vá haver uma erosão do espaço que habitamos, até pelo simples facto de caminharmos. Os animais também fazem essa erosão. Ele não é muito purista em relação a isso. Mas há uma erosão que é mais predatória, mais danosa. E há uma economia de plantação, como aquela que aconteceu em São Tomé e Príncipe, por exemplo, que foi uma das genealogias dessa crise climática ou dessa crise ecológica.

Muitas vezes fala-se de um antropoceno, e nós recusamos completamente esse termo porque se de facto a defesa da terra é da responsabilidade de todos os seres humanos, porque nós habitamos neste único planeta, não aceitamos que a responsabilidade sobre os danos a essa terra nos seja imputada. Quem de facto destruiu e tem destruído este planeta é o norte global, os países que iniciaram e deram continuidade ao imperialismo, ao capitalismo, etc. Os países africanos contribuem com menos de 4% das emissões de carbono, mas são os que mais sofrem com as alterações climáticas. E também podemos olhar para ilhas do Atlântico, como Vanuatu ou Tuvalu, que estão quase a desaparecer por causa desse extrativismo.

Preparação da Marxa deste ano

Fotografia cedida por Apolo de Carvalho

Outro dos objetivos é trazer para a rua a discussão sobre reparações, um tema que tem sido muito apropriado pela extrema-direita, com o ruído mediático à volta. Como é que se ultrapassa essa barreira do ruído e se consegue passar para uma discussão realmente séria sobre o tema, que se faça ouvir?

É interessante a questão de nos fazermos ouvir, porque [podemos perguntar] para quem estamos a falar. Na Marxa Cabral (e por isso utilizamos o termo Marxa e não Manifestação), o nosso interlocutor não é a extrema-direita. A extrema-direita tem ideias muito fixas, não por não conhecer a verdade, mas porque existe uma ideologia de separação da vida, de hierarquização das vidas que não nos interessa. Portanto, não são o nosso interlocutor. O nosso interlocutor, tal como durante a luta pela libertação, é a sociedade. São os trabalhadores. São todas as pessoas que se reconhecem nas lutas pela libertação e pela dignidade do ser humano. 

A reparação é um princípio elementar da justiça e da dignidade. Quando existe um dano, existe a obrigação de o reconhecer e de procurar repará-lo. Isso não é uma ideia extraordinária inventada por nós agora, a própria história contemporânea da Europa está cheia de processos de reparação. Depois da Segunda Guerra Mundial, houve reparações e indemnizações relacionadas com os crimes, principalmente na própria Europa. Agora com a Ucrânia, houve, e muito bem. E a pergunta que temos de fazer é: “Por que é que quando se chega à escravatura e ao colonialismo, e aos efeitos sobre os povos - isso não é sobre o passado, e sobre o presente - essa mesma ideia é apresentada como se fosse uma coisa extemporânea, que não tem nada a ver conosco, mas com os nossos antepassados?”, ou então é mesmo vista como um tema absurdo. É óbvio que as pessoas precisam de ver a reparação como uma urgência para podermos construir uma sociedade nova. Não podemos fazer uma tábua rasa sobre o que aconteceu e avançar. O presente, o passado e o futuro são circulares, logo, para avançar para um futuro comum, temos de fazer esse trabalho. E para nós, reparar não se restringe a calcular um valor financeiro por aquilo que aconteceu há séculos, até porque é irreparável. Mas por ser reparável tem de ser reparado, não é? Os danos não são só sobre o passado, existem ainda hoje consequências materiais e económicas que atravessam as gerações e que mostram as desigualdades na sociedade portuguesa.

Nós tivemos agora o caso do Odair Moniz, cuja vida é tirada pelo Estado, pelo braço armado do Estado. Reconhece-se a culpabilidade desse braço armado do Estado, mas depois não há consequência, e o agente não só é ilibado, como volta a exercer as funções. Que tipo de mensagem estamos a passar? Estamos a passar uma mensagem de que existe uma hierarquia da vida, e que há vidas que não merecem consideração, há vidas que não valem nada e que nem sequer reconhecemos, ou seja, o reconhecimento e a reparação estão aqui muito juntos. Não se reconheceu a dignidade da vida do Odair Moniz, e por não se reconhecer a dignidade da sua vida, não se repara. Por isso achamos que a reparação tem de ser vista enquanto uma urgência, mas em todas as suas dimensões. Não somente nessa questão financeira, não é só sobre isso, mas sobre as condições materiais de vida das pessoas que inclusive estão a construir e construíram este país. Quem construiu Lisboa? Quem é que limpa Lisboa? São pessoas que foram colonizadas e que vivem ainda às margens e na periferia da sociedade. São as mulheres negras, são as pessoas ciganas que continuam ainda a ser consideradas como vidas menos válidas e não dignas de reparação. E tudo isso é ainda sobre o presente. Portugal não se descolonizou. Não é por acaso que nós colocamos o D do descolonizar [no mote da Marxa]: é o resgate do D de Descolonizar do 25 de abril. Quando olhamos para Lisboa, é uma cidade profundamente colonial. Dos monumentos ao nome das ruas e a toda a arquitetura da cidade. O hino, a bandeira e o 10 de junho mostram que houve uma revolução, mas muitas das estruturas que numa revolução é suposto serem quebradas para criarmos coisas novas, permaneceram. E essa relação ainda colonial com as pessoas que foram escravizadas continua. Daí que essa articulação, o reconhecimento, a reparação e a descolonização são motes que nós queríamos trazer para a rua também como uma forma de dizer não a Portugal. A Assembleia das Nações Unidas, por causa de uma resolução apresentada por Gana, decretou a escravatura racializada transatlântica como o mais grave crime contra a humanidade, e Portugal, que foi um país pioneiro, junto com Espanha, nessa empreitada, absteve-se. Isso é não reconhecer. E quando concordamos que é o mais grave crime contra a humanidade, não quer dizer que estejamos a hierarquizar crimes contra a humanidade. É porque, de facto, a única escravatura em que pessoas foram consideradas como bens móveis, como objetos - nem sequer como pessoas - foi essa escravatura. Todos os povos escravizaram, isso nós sabemos, mas a única escravatura que negou a dignidade e a pertença à humanidade às pessoas africanas foi o tráfico transatlântico que, além disso, também escravizou a própria terra, o tal Capitaloceno e o Negroceno em que podemos pensar. 

Há pouco, quando referi a questão da extrema-direita, não me referia ao diálogo com a própria força política, mas às pessoas alcançadas pelo seu discurso. Esse alcance pode dificultar um debate sério na sociedade sobre estes temas?

Sim, quando eu digo que temos de mudar de interlocutor, isso não significa que temos de ficar completamente aquém do impacto que a extrema-direita tem, porque tem inclusive dentro das comunidades racializadas, e a nível mundial temos visto isso. Eu acho que Cabral, de novo, nos ensina a mudar o discurso, a encontrar formas de chegar às pessoas. Quando ele disse que a luta contra o colonialismo não era uma luta contra o povo português, mas uma luta contra o fascismo português que inclusive oprimia os próprios portugueses, acho que nos dá uma mensagem muito importante sobre a necessidade de criar alianças a diferentes níveis entre os povos. E ainda voltando a essa questão da reparação, para além de tudo aquilo que tem a ver com questões materiais, a reparação deve ser vista como a prática da relação. Nós não tivemos uma história comum porque partilhamos a língua portuguesa - e mesmo a língua portuguesa não é comum, a que eu falo e que tu falas, por exemplo. Há aqui diferenças porque houve uma história diferente.

Agora a questão é como é que os povos que passaram por essas fraturas podem voltar a fazer povo. Como é que podemos voltar a fazer povo aqui em Portugal? Nós, pessoas negras, pessoas ciganas, pessoas brancas, trabalhadoras, como é que nós podemos voltar a criar alianças e encontrar pontos entre nós? E acho que a extrema-direita nos tem desviado do essencial, ou seja, quem nos tem oprimido, quem tem sido o nosso inimigo comum e impactado a nossa vida, na questão da habitação, do emprego, da saúde. Estes são temas que nos atravessam a todos, mas que a extrema-direita usa para nos dividir. E eu acho que a Marxa Cabral tem essa preocupação muito grande de dizer que partilhamos o mundo, que esse mundo nos pertence, e que não podemos ir para nenhum outro sítio, só temos este planeta para habitar e [precisamos da] união de todos os condenados da terra, de todos os trabalhadores do mundo, de todos os pan-africanistas. O pan-africanismo transmite essa mensagem global: não é só sobre África e sobre os africanos, é sobre a aliança com o sul global. Como é que podemos não só questionar esse mundo, e lutar contra ele, mas ir construindo também espaços de convivialidade? Como é que podemos voltar a fazer um povo em comum e, sobretudo, como é que podemos reconhecer em Amílcar Cabral um ancestral comum? Os portugueses podem ir ao passado e buscar momentos e pessoas que congregaram, que convergiram nesse povo, e Cabral é um desses rostos que podem permitir que Portugal, que os países africanos que falam português e as pessoas afrodescendentes encontrem aqui um ponto em comum. Se nós não nos revemos na bandeira, se não nos revemos no hino, podemos rever-nos em momentos históricos de luta e em pessoas. 

Cabral é quase que um plural, um singular plural. Ele acaba por agregar todas essas lutas. Não é sobre Cabral enquanto pessoa, é sobre o seu pensamento, o seu método de luta.

Relativamente à declaração pan-africanista de Lisboa, que vai ser apresentada e lida durante a Marxa, quais são os pontos-chave e os coletivos que a subscrevem?

Nós enviamos para vários coletivos e a lista fica aberta até amanhã [5 de setembro]. Mas já temos cerca de 10, 11 coletivos, como Peles Negras Máscaras Negras, SOS Racismo, Afrolink, e também as Banderinha Panafrikanista, um grupo de mulheres batucadeiras, que também são promotoras da Marxa.

Sobre os pontos, é uma declaração internacionalista que procura abarcar várias lutas. [Está lá] essa articulação entre a questão ecológica e a questão colonial, e sobretudo essa pergunta sobre o que da ordem colonial continua organizada no nosso presente. Por isso, essas três palavras, Reconhecer, Reparar e Descolonizar, como palavras articuladas que nos mostram que não podemos mais pensar a libertação material da nossa vida, a questão da saúde, da habitação, dos transportes, separadamente da questão ecológica. Toda a luta que estamos a fazer contra o racismo, contra a discriminação, estamos a fazer dentro deste planeta, dentro desta casa comum. Um exemplo: a COVID-19 mostrou-nos que apesar de o vírus atingir todas as pessoas, as consequências foram diferentes para umas e para as outras. Dentro de uma pandemia ou dentro de uma crise ecológica, todos morremos, mas quem morre primeiro em condições mais degradantes são as pessoas racializadas, são as pessoas ciganas, são as pessoas do sul global. Por isso, temos que trazer para a centralidade das nossas lutas a nossa casa, que é este planeta. E queremos mesmo fazer esse retorno. Resgatar, ou recuperar, ou regressar, usando o termo cabralista. Fazer regressar essa questão ecológica da urgência climática às nossas lutas, e lembrando que isso já fazia parte das nossas lutas desde muito, muito antes.

A reparação é muito importante nisso porque é um programa de desordem absoluta, é destruir todos os mecanismos que têm permitido a destruição das nossas condições materiais de vida.

Marxa de 2025

Fotografia cedida por Apolo de Carvalho

Cabral foi apelidado pela ditadura de “terrorista”, dentro de uma narrativa colonial de quem se sentia ameaçado pelos movimentos de libertação. Na sociedade e na academia, esta narrativa ainda encontra lastro nos dias de hoje? Ou Cabral está tão esquecido na sociedade portuguesa que nem sequer há narrativa nenhuma acerca do seu pensamento?

A: Provavelmente as duas coisas. Há ainda esse legado do Cabral “terrorista”, mas também há um apagamento da memória de Amílcar Cabral e de todo o movimento de libertação. Isso em Portugal e no mundo inteiro, mas como estamos em Portugal vamos falar mais de Portugal. Não há interesse de trazer essa figura, porque Cabral é um congregador de todas as lutas, de todos os povos, e numa sociedade onde a extrema-direita e o fascismo estão a aumentar cada vez mais, e se alimentam da divisão, uma figura como Amílcar Cabral é uma ameaça porque só o seu nome já desmonta completamente esses projetos. Por isso é que nós, quando começámos, em 2024, por altura do centenário, a dizer que o 25 de Abril nasceu em África e que Amílcar Cabral deve ser reconhecido como um dos rostos da história e da democracia portuguesa, é exatamente para dizer que este país tem um arsenal de luta para as ameaças do presente e do futuro, que são o fascismo e a extrema-direita, que pode ainda utilizar. A nossa questão não é meramente transformar Cabral numa estátua, não é só homenagear Cabral, é incentivar o estudo sério de Amílcar Cabral porque os seus escritos, os seus discursos, embora datados de uma determinada época, são ainda muito presentes. Para mim, Cabral não é só a pessoa em si, é um método e um pensamento-ação, é conhecimento. E insistiu na necessidade de conhecer profundamente a realidade concreta que queremos transformar, e sobretudo não importar fórmulas nem abstrações para a nossa luta, mas estar junto com o povo, estar no terreno, desenvolver essas relações sociais, perceber as contradições concretas da nossa realidade para poder lutar. O percurso enquanto engenheiro agrónomo acabou por mostrar isso: ele foi estudar os solos, as condições agrícolas e materiais das pessoas para poder propor uma luta, e conseguiu criar conexões com os camponeses na Guiné-Bissau a partir desse estudo. De modo que o método Cabralista é exatamente isso, é conhecer profundamente e criticamente a nossa realidade para podermos transformá-la de acordo com as condições do próprio espaço. Nós podemos aprender na vida, aprender nos livros, aprender com a experiência dos outros, mas marchar com os nossos próprios pés e pensar pelas nossas próprias cabeças. Cabral acaba por nos dar um método de pensar as lutas contemporâneas de uma forma muito interessante que também articula [Frantz] Fanon, porque é uma luta que afirma que estamos aqui a refletir criticamente a nossa realidade, mas para transformá-la. Isso aconteceu durante a luta pela libertação. Ao mesmo tempo que se lutava, construía-se uma escola-piloto, falava-se com crianças, ou seja, construía-se o país que se imaginava, e acho que é isso que temos de fazer nos dias de hoje. Ao mesmo tempo que se luta contra a extrema-direita, celebra-se a nossa unidade, manifesta-se aquilo que somos. Por isso a Marxa tem um momento de manifesto cultural, com batuco, com músicas, com poemas, onde vamos celebrar aquilo que somos. Não é só dizer que isto não está bem. Não está, mas nós estamos a propor coisas novas para nós, daí a importância da cultura. 

Há pouco dizias que é importante incentivar o estudo da obra de Cabral. A academia tem alguma abertura para isso, tendo em conta que ele deixou uma produção teórica tão vasta?

Sim, eu acho que a academia tem tido abertura, muito graças à luta dos movimentos sociais. O estudo e a produção dos livros, de investigações, não é apanágio da academia, tem acontecido em muitos espaços: Temos a Fundação Amílcar Cabral em Cabo Verde, que tem tido um trabalho tremendo na preservação dos seus escritos e do seu legado, temos a Tricontinental, que é uma organização de uma revista que há muito tempo vem trabalhando sobre o pensamento de Cabral, na África do Sul temos um coletivo que se chama Abahlali baseMjondolo, onde o pensamento de Cabral é muito estudado, no Brasil também.

Mas na academia portuguesa é diferente…

É mesmo para chegar aí. Dentro da academia, devido a essas ressonâncias que vêm de fora e dos movimentos - a Plataforma Gueto já estudava Amílcar Cabral - a semente plantada pelos movimentos começou a alastrar-se para a academia, e hoje há de facto uma produção bastante interessante sobre Amílcar Cabral, mas é necessário cada vez mais. Nós politizamos a insatisfação, nunca é suficiente, mas reconhecemos que de facto há um percurso que está a ser feito, com várias conferências, que se fez por exemplo na altura do centenário. Mas também há aqui um perigo: a academia não pode capturar Amílcar Cabral, porque Cabral é do povo, Cabral é do mundo, e muitas vezes quando esse tipo de pensamento radical, da tradição radical negra entra na academia, acaba por passar pela máquina de lavar e toda a sua potência corre o risco de ser apagada. Isso não quer dizer que toda a academia o faça. Eu também estou dentro da academia, e há muita gente crítica interessada na radicalidade dessa luta, e atenção que radicalidade é diferente de extremismo. É sempre muito diverso, mas acho que o mais interessante não é somente o que a academia tem feito, mas como é que Cabral tem estado presente nos movimentos sociais, sobretudo, e dentro do batuco. As batucadeiras, hoje em dia (e o batuco enquanto sistema de pensamento), têm sido pedagogas da luta de Amílcar Cabral a partir da música e da dança, com um pensamento crítico muito complexo que é importante observarmos, também para fazer essa justiça cognitiva. 

Em que medida o pensamento de Cabral nos ajuda a interpretar não só o que foi o colonialismo português mas também o que resta dele nos dias de hoje? Ou seja, em que medida o seu pensamento ajuda a perceber o lastro que o colonialismo português deixou e o seu enquadramento na história?

Cabral era um grande estudioso e tinha essa noção de que a luta tinha de ser científica. Defendia a produção de um pensamento crítico sobre o mundo, que devia ser partilhado por todas as pessoas, não só os intelectuais, mas o próprio povo, daí a importância da educação dentro da luta pela libertação. É importante estudarmos profundamente a partir de métodos do terreno, e também de outros lugares do mundo. É importante conhecermos a nossa história profundamente. Portugal não se transforma porque Portugal tem, propositadamente, uma noção muito reduzida da sua história, dos protagonistas da sua história. E quando nós não estudamos profundamente todas as dimensões da nossa história, não conseguimos construir um presente transformador que inclua todas as pessoas. O pensamento de Cabral, e tudo aquilo que ele representa enquanto pedagogo da revolução, informa-nos que é preciso ir ainda aos arquivos - e esses arquivos não são só escritos, são pessoas que estão ainda vivas - e começarmos a transformar essa realidade, e essa é uma realidade capitalista, patriarcal, que produz um ecocídio, de certa forma. Essa questão do imperialismo está cada vez mais presente. Não é à toa que hoje estamos cada vez mais ao lado do povo palestiniano a lutar, mas já naquela altura Cabral expressava de uma forma muito concreta a solidariedade em relação ao povo palestiniano - também é a nossa luta. E fez isso com vários outros povos. Estamos num momento em que é preciso afirmar essa solidariedade com todos os povos em luta porque o que acontece lá acontece também aqui e diz-nos respeito, e isso inclui as novas formas de opressão. A ideia da dignidade da pessoa humana, que Cabral e todo o movimento de libertação tinha, é muito interessante porque abre-nos a perspetiva de que, nesse mundo que é patriarcal, que é capitalista, que é colonialista, novas formas de opressão podem vir a surgir, e nós temos de desenvolver um método e uma ideologia que seja capaz de antecipar e de nos balizar contra essas novas formas de opressão. No tempo de Amílcar Cabral não tínhamos as redes sociais, não tínhamos a internet,  e estamos a ver que com a internet, a inteligência artificial, novas formas de amputar a humanidade das pessoas estão a surgir, e é preciso regressarmos a esses arquivos para nos podemos inspirar a transformar essa realidade.

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