Conversávamos sobre notícias, conferências de imprensa e escolhas editoriais, quando a sentença se impôs: "O jornalismo está a morrer". Agora muito mais por obra e desgraça dos poderes que o mantêm ligado às máquinas da monetização selvagem, e menos por alienação de audiências, perturbações de publicidade ou desregulação do mundo digital.
O jornalismo está a morrer por défice de jornalistas e excesso de produtores de conteúdo.
É verdade que ainda há quem resista, mas poucos conseguem continuar a fazê-lo dentro de umsistema que substitui informação por distracções mediáticas, troca o contraditório e os factos pelo marketing das narrativas, confunde análise com opinião e funciona, cada vez mais, não como contrapoder, mas como lacaio de interesses, demitindo-se da sua função social.
Não estranha por isso que, nos últimos dias, o país mediático tenha parado para medir egos, enquanto, no país real, o Governo avançava com mais um pacote de destruição do nosso direito à habitação.
A nova lei do arrendamento, aprovada na generalidade em aliança com o Chega, desprotege ainda mais os inquilinos, facilitando despejos, eliminando o tecto de 2% no aumento das rendas dos novos contratos, e permitindo que os senhorios peçam o número de cauções que bem entenderem.
Afinal, "uma empresa é uma empresa", conforme me lembrou, recentemente, o juiz que me calhou em sorte na disputa que me opõe ao meu senhorio-empresarial.
Contexto: com aquela formulação, o magistrado pretendia sublinhar que, neste procedimentoespecial de despejo em que me vejo enredada, o maior risco está do meu lado. Totalmente de acordo. Mas, não estaria sempre, independentemente da personalidade jurídica do senhorio?
Ou terá o juiz um viés a favor das empresas, que o leva a normalizar práticas abusivas de grupos que actuam como se não tivessem contas a prestar? "Pelos vistos [esta empresa] tem muitos prédios e tudo", tive ainda de ouvir, imagino que para ter bem presente quem é que manda aqui.
Face ao exposto, foi sem surpresa que recebi uma sentença desfavorável, já depois de ter ganho, com um recurso, o direito a apresentá-la. E para que não restem dúvidas sobre o que está em causa, o juiz não só entende que tenho de entregar o apartamento, como me condenou ao pagamento de uma indemnização ao senhorio. Valor? Mais de dois anos de rendas, apesar de não ter uma única prestação em atraso.
Ou seja, não há incumprimento, e sim diferendo sobre a duração do contrato, negociado como renovável, declarado como tal nas Finanças mas, por questões legais que me foram comunicadas por e-mail aquando da assinatura, redigido como não renovável. Apresentei provas de tudo isto em tribunal, mas "uma empresa é uma empresa".
O que os media querem que o mundo veja
Partilhei, a determinada altura do processo, o caso com vários órgãos de comunicação social, porestar em causa a desprotecção dos cidadãos, a partir da implementação do sistema dasnotificações electrónicas; e questionei também o funcionamento do pedido de apoio judiciário. Ninguém se interessou.
A boa notícia é que hoje, a falta de espaço nas agendas mediáticas, não nos retira agência.
Que o diga Momar Abdoulie Njie, aspirante a documentarista da Gâmbia, que, a partir da suaexperiência, tem insistido em chamar a atenção dos media para um problema: O que aconteceaos africanos que tentam migrar para a Europa através de canais legais?
À falta de respostas, Momar decidiu transformar a sua históriaem documentário. “Ceuta: Borders and Bureaucracies”, ou, em português, “Ceuta: Fronteiras e Burocracias”, produção em quecontrapõe duas realidades.
"Grande parte da cobertura mediática sobre a migração da África Ocidental centra-se nas viagens perigosas através do Mediterrâneo e na chamada crise migratória em Ceuta", começou por contarao Afrolink, já depois de esbarrar na indiferença dos media convencionais, a quem pede uma investigação. "Há um outro lado desta realidade que recebe muito menos atenção: os africanos que seguem a via legal pagam milhares de euros a instituições de ensino europeias e, posteriormente, ficam retidos por sistemas de vistos e burocracias".
O fenómeno, que engorda as contas dos estados, permanece, contudo, à margem da cobertura mediática. "Se o testemunho que enviei a tantos órgãos de comunicaçãointernacionais fosse sobre africanos a atravessar o deserto ou em barcos insufláveis, a respostateria sido completamente diferente, porque são essas as histórias sobre África que querem que o mundo veja".
E nós? Deixamos que nos encostem às agendas mediáticas, enquanto vemos as nossas vidas naufragar? Activemos a nossa agência!