Durante três dias, Lisboa tornou-se ponto de encontro para projetos editoriais independentes de várias partes do mundo. A primeira edição do Print Pause, organizada pelo Gerador, reuniu práticas editoriais distintas e abriu espaço à discussão das condições necessárias para lhes dar continuidade. Nos dias 16, 17 e 18 de outubro, o Goethe-Intitut encheu-se de curiosos, que se deixaram atrair pelas publicações em exposição. Workshops e conversas permitiram explorar algumas das práticas e conteúdos que pautam a produção independente atual.
Criar uma publicação fora dos circuitos convencionais
A revista Ilhéu envolve-se com a vida cultural dos Açores e das suas comunidades, mas a editora do projeto apenas se mudou do Reino Unido para a ilha de São Miguel há alguns anos. Quando chegou aos Açores, Kathleen McCaul estava a completar um doutoramento. Foi ao terminar os estudos, e ficar desempregada, que surgiu a ideia de criar uma revista.
kathleen McCaul recorda que conheceu uma designer gráfica e uma fotógrafa, com quem desenvolveu a publicação. Apenas uma das integrantes residia na Ilha, mas avançaram mesmo assim com o projeto, sem saber se um dia o iam chegar a publicar. De acordo com a editora, como não tinham relação com “o cenário artístico maduro e sofisticado de São Miguel”, deixaram as expectativas de lado e deram espaço à liberdade para criar. “Não sentíamos que tínhamos de provar nada a ninguém”, ilustra.
Mesmo com o alcance que a publicação já conseguiu em Portugal e no mundo, para a escritora torna-se difícil definir de forma clara as temáticas retratadas pela revista Ilhéu. Entre conceitos como feminilidade ou identidade, não consegue dizer com rigor o que pode estar a fomentar a atenção do público. No entanto, acredita que o projeto apresenta “qualidade, integridade e honestidade ao longo de todo o processo”, desde o design, às fotografias ou à produção de imagens.
Sentada ao lado de Kathleen McCaul, Flora Santo desenvolveu a Vuyazi Magazine a partir do interesse que tinha sobre o jornalismo e a moda. “Eu não conseguia encontrar a revista que queria, então criei-a”, recorda. Por este motivo, procurou desenvolver algo que combinasse “bons ensaios, jornalismo de qualidade e reflexões instigantes, aliado a uma boa direção criativa”. A fundadora do projeto confere à componente estética um papel de destaque, pois argumenta que algo visualmente agradável pode ajudar a transmitir uma mensagem política.
A editora da revista acumula vivências entre Lisboa e Paris, e partilha uma visão de França como um espaço “muito rico e diversificado de revistas independentes”. Mas quando idealizou este projeto, viu em Portugal um local com poucas opções no mercado editorial. Lamenta que seja encarado “apenas como um destino turístico, não como um lugar que abriga artistas de vanguarda”. Por este motivo, delineou como objetivo principal, mostrar que o país também conta com “criadores de qualidade”. Reflete que a Vuyazi deve constituir uma plataforma para que o mundo os possa conhecer, numa prática que se materializa através do desenvolvimento de um espaço bilingue, que alcança diferentes nacionalidades.
Para a editora da Vuyazi Magazine, é ainda necessário promover “conversas difíceis” em torno de temas que não encontram espaço no debate público. Feminismo, racismo e questões queer são alguns dos tópicos que pretende realçar. Aos olhos de Flora Santo, a nova geração está capacitada para formar as suas próprias opiniões, mas Portugal é um país que está atrasado no que toca a essas reflexões.

Offset Talks: o futuro das publicações independentes com Francisco Laranjo, Kathleen McCaul, Flora Santo e moderação de under the cover
Fotografias de Bárbara Monteiro
Um olhar sobre a criação independente ao redor do mundo
O Print Pause Lisboa trouxe para solo português projetos editoriais que se diferenciam entre temáticas abordadas, métodos de produção e na interação que pretendem fomentar entre a obra, o criador e o leitor. Alguns dos convidados tiveram oportunidade de explicar os fundamentos que norteiam as suas publicações.
Do Chipre, Ayten Pehlivan trouxe para à primeira edição da iniciativa o projeto Poetic Extensions. O criador começou por trabalhar com materiais fotográficos, no âmbito das artes visuais, que, com o tempo, se tornaram “extensões” da sua poesia. Descreve o seu trabalho como algo “minimalista e silencioso, que existe atenção e tempo por parte do leitor”. Para o responsável pelo projeto, as suas obras destacam-se das demais por representarem tonalidades mais escuras, ao invés das cores que se observam nas outras bancas. Considera que esta opção permite ao leitor “sentir o que quiser sentir” e criar a sua própria paisagem.
O Print Pause também abriu as portas a projetos de natureza mais intimista. Bored Wolves é uma editora independente polaca, representada por Joanna Osiewicz-Lorenzutti, que garante a produção das obras e participa no processo criativo de cada edição. “Fazemos livros honestos, que contam a história de cada artista e escritor”, pontua. Para a editora, é esta característica que faz com que os leitores se identifiquem com os livros.
Entre Londres e a Coreia do Sul, Boa Song apresenta, através do pink noise press, artistas contemporâneos “marginalizados no mundo da arte ou na sociedade em geral”. Desta forma, procura exibir o trabalho de mulheres e da comunidade queer, que “não têm espaço na indústria mainstream”. Através do projeto inaugural “Invisible Tapestry”, a criadora pretende mostrar “como a origem, a ancestralidade ou as experiências de vida dessas pessoas influenciam as suas práticas artísticas”.



Ayten Pehlivan (Poetic Extensions), Joana Osiewisc-Lorenzutti (Bored Wolves) e Boa Song (pink noise press)
Fotografias de Bárbara Monteiro
Além das diferentes temáticas abordadas pelos diferentes projetos editoriais, há também quem encare o meio como parte da mensagem que quer passar. Pri Ballarin pensa no livro ou em qualquer objeto utilizado na publicação impressa como parte do material narrativo. “Não se pode dissociar o suporte do conteúdo”, ilustra. Na mesma linha de pensamento, existem outras iniciativas internacionais que se concentram de forma particular no método e no formato que materializam as publicações.
Azul de Bolsillo é uma editora independente colombiana criada há 13 anos. Ingrid Vanessa Canizales, representante do projeto, começou por fazer fanzines e, só depois, avançou para a publicação de livros e obras gráficas. As publicações debruçam-se sobre temas da natureza, desde plantas, polinizadores, sementes e gastronomia tradicional às crónicas de viagem, explica. Através do formato de livro de bolso, pretende tornar as publicações em conteúdos fáceis de transportar para quem tem o hábito de viajar.
Jaime Cuadrado trouxe a Lisboa as ediciones malamaña. Esta editora da República Dominicana foca-se em produzir obras de forma artesanal e caseira. Para o responsável, esta é uma forma de se manter à margem da produção industrial. Como participa em todas as fases do projeto, Jaime Cuadrado traduz, edita, imprime e encaderna cada obra. “Tudo é feito à mão”, sublinha.
No Egipto, Rowaida Osama dinamiza a Riso Masr, o primeiro estúdio de impressão que utiliza técnicas de rizografia nas suas publicações na cidade do Cairo. O objetivo da editora é tornar esta técnica acessível. Para isso, uma das iniciativas disponíveis na sede do projeto são as sessões individuais de introdução à técnica de impressão rizográfica. “Temos uma equipa composta por designers, ilustradores e fotógrafos”, que realizam publicações de natureza criativa e experimental, esclarece.



Rowaida Osama (Riso Masr), Pri Ballarin e Jaime Cuadrado (ediciones malamaña)
Fotografias de Bárbara Monteiro
Entre o papel, o digital e a Inteligência Artificial
Na primeira Offset Talk, Kathleen McCaul e Flora Santo foram acompanhadas por Francisco Laranjo, que complementou a discussão com a sua experiência no design, investigação e educação. O debate evoluiu para se concentrar nas oportunidades e consequências proporcionadas pelo desenvolvimento de plataformas digitais, redes sociais e Inteligência Artificial (IA).
Na visão de Francisco Laranjo, o mercado editorial convencional ainda persegue modas e tendências, numa procura por conteúdos e métodos que possam ser comercializados e monetizados. Prevê a continuidade destas escolhas num futuro com realidades híbridas, que contemplem em grande parte formatos digitais e mantenham uma presença residual no impresso. Mesmo assim, ressalta que “algumas marcas já estão a investir em grandes jornais”.
Para Francisco Laranjo, “ter um vestígio físico é mais importante do que nunca, especialmente para as gerações mais jovens e para os estudantes”. De acordo com a sua experiência como professor universitário na área do design, defende a necessidade de revisitar trabalhos académicos anteriores para compreender processos de formação de conhecimento. Alerta ainda que quando estes materiais permanecem armazenados em ferramentas digitais, corre-se o risco de que desapareçam por completo.


Francisco Laranjo e Flora Santo na Offset Talk: o futuro das publicações independentes
Fotografias de Bárbara Monteiro
Na mesma linha de pensamento, Flora Santo revela que sempre teve mais interesse em publicações impressas do que nas plataformas digitais. “Adoro ler, sentir as páginas nas minhas mãos”, descreve. Apesar de não diabolizar tudo o que está vinculado às redes sociais, defende uma necessidade de afastamento. Argumenta que ao ler algo no papel ou numa tela, o cérebro não processa da mesma maneira. De acordo com a editora, “é importante retomar aos momentos a sós, com um livro na mão para, de certa forma, desconectar”.
No caso da Vuyazi, a ideia de Flora Santo foi criar algo que pudesse ser consumido aos poucos. Não se trata de notícias urgentes, mas de conteúdos que têm uma natureza intemporal, descreve. “É preciso comprar, ler com calma, sem pressa, e contemplar as imagens”, ilustra a editora. Mesmo assim, confessa que se torna difícil publicar uma revista impressa sem ter uma conta nas redes sociais, devido à necessidade de divulgação.
Apesar de concordar com a importância do conteúdo publicado através de meios impressos, Francisco Laranjo acredita que o campo digital confere outras possibilidades para a publicação independente. Perspetiva que a atividade editorial pode abranger plataformas e espaços digitais de descoberta e experimentação. A publicação não é só um produto final de natureza física, contempla diferentes métodos, desde atos performativos a conteúdos não visuais que despertam outros sentidos, conclui.
Kathleen McCaul revela sentir-se desanimada perante as consequências das ferramentas digitais para o setor, mas confessa que a IA trouxe facilidades na produção da segunda edição da revista Ilhéu. Reflete que a tradução do texto permitiu criar um projeto bilingue, mesmo com poucos recursos. A estruturação dos orçamentos de produção também se tornou mais fácil, explica. No entanto, as etapas que dizem respeito ao processo criativo ficam a seu cargo. Comenta que, mesmo que as pudesse delegar a terceiros, não o faz “por uma questão de integridade”.
Financiamento e sustentabilidade de projetos de publicação independente
Os três convidados para a primeira conversa do Print Pause tiveram ainda oportunidade de refletir sobre os desafios que se impõem à sustentabilidade das publicações independentes. Para Francisco Laranjo, o ambiente em torno deste mercado é “cada vez mais problemático e distópico”. Em toda a Europa verificam-se “cortes drásticos no financiamento”, descreve. A título de exemplo, o investigador menciona os Países Baixos, que “historicamente ofereciam um grande apoio às artes e um financiamento expressivo ao setor editorial”. Em Portugal, relata também que quase todos os apoios foram cortados.
Em conversas paralelas, Bruno Jacobi, dinamizador da Interested Books, reflete que os problemas da publicação independente, a nível europeu, são similares. Encara a distribuição como o maior desafio da indústria, já que considera difícil fazer os livros chegar às pessoas e aos lugares certos. Para o criador, encontrar mercado para projetos fotográficos ou de imagem é algo que exige um maior esforço.
Sotiris Trechas encabeça o projeto de publicações eróticas Fluffer Everyday, sedeado na Grécia. “The Dreamer”, nome pelo qual é mais conhecido no meio artístico, revela uma maior preocupação com as despesas associadas à logística. Os custos relacionados com o espaço de trabalho ou o armazenamento de materiais estão-se a tornar mais caros, explica.

The Dreamer (Fluffer Everyday)
Fotografia de Bárbara Monteiro
Para Boa Song, responsável pela pink noise press, tornou-se necessário conciliar trabalhos mais estáveis com a ocupação criativa, para conseguir sustentar o projeto. Uma realidade relatada por diferentes editores presentes no Print Pause. Agora, concentra-se também em experimentar diferentes materiais, métodos de encadernação e formas distintas de usar o papel, para diminuir o desperdício e reduzir certos gastos associados à produção.
Também as editoras da Vuyazi Magazine e da revista Ilhéu retratam uma realidade em que o financiamento das publicações constitui um desafio. Flora Santo critica a ausência de apoios públicos, o que a leva a ter de criar mecanismos de autofinanciamento, em que o lucro da venda de revistas anteriores paga a produção das edições seguintes. A fundadora do projeto, chama ainda a atenção para a necessidade de partilhar anúncios nas suas páginas. Mesmo que não se sinta confortável com a ideia, encara esta possibilidade como uma questão de sobrevivência. Ainda assim, teme que esta decisão possa ter custos para a independência editorial das publicações.
Crescer sem perder o propósito
O financiamento constitui uma dificuldade acrescida para os projetos de edição independente, mas existem ainda outros desafios. Para Kathleen McCaul, publicar de forma independente permite realizar tarefas diferentes, que não estavam ao seu alcance quando trabalhava apenas como escritora. Os processos de edição e distribuição ficavam à responsabilidade de outra pessoa. Agora, o maior controle e participação na construção da primeira edição da revista Ilhéu, deixou-a entusiasmada.
As dificuldades começaram a partir da segunda edição, quando as responsáveis pela publicação quiseram aumentar o número de exemplares. “A parte administrativa cresceu, a distribuição também e tornou-se mais uma responsabilidade”, comenta. Para Kathleen McCaul, a quantidade de tarefas diferentes envolvidas na criação de um projeto independente é um desafio. Por este motivo, aconselha a quem queira expandir uma iniciativa deste cariz a pensar de forma ética no motivo de se querer alargar o projeto, que custos isso implica e se essa decisão compromete a qualidade do trabalho até então realizado.

Kathleen McCaul (Ilhéu)
Fotografia de Bárbara Monteiro
Publicar como forma de resistência e de comunidade
Para Francisco Laranjo, a publicação independente surge como “um ato de resistência, um método para criar e manter redes de solidariedade”. O investigador perspetiva a atividade editorial como um espaço de luta, que reúne as pessoas e promove mudanças “a nível municipal, de bairro, nacional ou, quem sabe, continental”. Um trabalho que acredita estar vivo, mas de forma “cada vez mais residual”.
Segundo Flora Santo, a própria revista é a comunidade. Confessa que foi por isso que o tema da primeira edição da Vuyazi foi amizade e famílias alternativas. Para a editora do projeto, “o futuro está nas mãos das pessoas, que voltam a conversar umas com as outras, a falar com os vizinhos e a dedicar mais tempo aos seus amigos”. Alerta que a sociedade não pode depender exclusivamente de governos para promover mudanças sociais e políticas e atribui a grupos, comunidades e iniciativas locais a capacidade de criar “uma espécie de revolução social”.
A revista Ilhéu alcança leitores em vários lugares do mundo. De acordo com as informações veiculadas pelos moderadores da conversa, a primeira edição esgotou em Portugal, França e no Reino Unido, apesar de contemplar um foco geográfico especializado no cenário cultural açoriano. Para Kathleen McCaul, este alcance deve-se a uma sensação de pertença e curiosidade proporcionada pela publicação de revistas.
A fonte de inspiração que abriu portas à revista Ilhéu foram outras revistas que surgem no seio de cidades, como a London Rewiew of Books ou a Paris Review, revela Kathleen McCaul. Para a editora, estas publicações sugerem uma ideia de comunidade, associada ao sítio que representam. “Existe um certo mistério em torno de um local, ou algo icónico nele que acaba servindo como um símbolo”, justifica.
Mesmo no processo de construção das diferentes edições da revista, Kathleen McCaul descreve um sentimento de união e entreajuda de “pessoas que dedicaram o seu tempo e energia ao projeto”. Para a editora da Ilhéu, o formato da revista acaba por beneficiar da interação humana e do trabalho comunitário de quem o tornou possível.

Michael Álvarez e El Xarnego (Revista La Revuelta)
Fotografia de Bárbara Monteiro
A primeira edição do Print Pause Lisboa recebeu mais um coletivo que pretende criar um projeto “da comunidade para a comunidade”. La Revuelta é uma revista colaborativa criada por um conjunto de jovens de Barcelona. Michael Álvarez e Daniel, também conhecido como El Xarnego, foram os representantes da iniciativa em Lisboa. Os dois convidados descrevem a publicação como um meio para que a sociedade possa encontrar e escolher o futuro da sua cidade. La Revuelta surge, desta forma, a partir das capacidades e conhecimentos de cada integrante, numa perspetiva cooperativista.