Tudo começou numa sala de aula. Como professor universitário, fui encontrando estudantes que não se reconheciam nas categorias tradicionais de masculino e feminino. Alguns tinham mudado de nome, outros utilizavam pronomes que eu não conhecia bem, outros ainda apresentavam formas de vestir e de estar que desafiavam as minhas rotinas. Percebi que precisava de aprender. E, para aprender, teria de começar por escutar.
Foi assim que nasceu Elus — Percursos juvenis trans e não binários, publicado pela Tinta-da-china. Durante mais de um ano, acompanhei as histórias de seis jovens, entre os 20 e os 23 anos: Chico, Quim, Ginger, Clara, Eris e Kim. Conversámos longamente sobre as suas infâncias, famílias, escolas, amizades, amores, dificuldades, descobertas e projetos. O resultado é um livro que procura compreender como se constroem estas vidas, sem as reduzir à questão do género.
Mas, afinal, o que significa ser trans ou não binário? De uma forma simples, uma pessoa trans não se identifica com o género que lhe foi atribuído à nascença. Uma pessoa não binária não se reconhece exclusivamente nas categorias de homem ou mulher. Contudo, as palavras não chegam para explicar a diversidade das experiências. É precisamente essa uma das principais conclusões do livro: não existe uma maneira única de ser trans ou não binário, tal como não existe uma maneira única de ser homem ou mulher.
As seis histórias mostram-nos percursos muito diferentes. Há famílias que acolhem e outras que rejeitam. Há jovens que encontram na escola um espaço de proteção e outros que sofrem humilhações e violência. Há quem disponha de recursos económicos, culturais e afetivos que facilitam a afirmação pessoal e há quem tenha de enfrentar a precariedade, a solidão e a insegurança. Em todos os casos, encontramos dúvidas e hesitações, mas também coragem, criatividade, alegria e vontade de construir uma vida própria.
Uma das descobertas mais importantes desta investigação foi perceber que a liberdade de cada pessoa depende também das suas condições sociais. Não basta dizer a alguém que pode ser quem quiser. É preciso perguntar se tem uma casa segura, uma família que a apoie, dinheiro para viver, acesso à saúde, condições para estudar ou trabalhar e amigos com quem possa contar. As desigualdades sociais não desaparecem quando falamos de identidade de género. Pelo contrário, atravessam profundamente estes percursos.
Também não devemos imaginar que a afirmação de género acontece num momento único, como se bastasse uma revelação ou uma mudança de nome. Trata-se frequentemente de um processo longo, feito de experiências, avanços, recuos e novas descobertas. O corpo, a roupa, a linguagem, os afetos e as relações com os outros podem transformar-se ao longo do tempo. Tal como acontece, aliás, com todas as pessoas, embora nem sempre tenhamos consciência disso.
Outro aspeto marcante é a importância das redes de amizade e entreajuda. Quando a família ou as instituições falham, são muitas vezes os amigos, os grupos de apoio e as associações que permitem encontrar reconhecimento e segurança. Sentir que não se está sozinho pode fazer uma enorme diferença.
Vivemos, porém, um tempo em que estas questões suscitam conflitos e são frequentemente instrumentalizadas no debate político. Em vez de pessoas concretas, com vidas, sentimentos e direitos, fala-se muitas vezes de ameaças abstratas ou de uma suposta «ideologia de género». A discussão torna-se ruidosa e as experiências reais desaparecem. Ora, conhecer as histórias destas pessoas é também uma forma de combater simplificações, preconceitos e medos.
Este livro não pretende falar em nome de todas as pessoas trans e não binárias. Seis histórias não representam um universo tão diverso. Pretende, isso sim, mostrar como cada vida resulta do encontro entre escolhas individuais, relações afetivas e condições sociais. E lembrar que compreender alguém não significa ter de viver da mesma maneira ou pensar exatamente o mesmo.
Escrevi este livro com a convicção de que a sociologia deve ajudar-nos a conhecer melhor o mundo e as pessoas que nele vivem. Não para dar lições, mas para oferecer instrumentos de compreensão. Afinal, por detrás de cada identidade existe uma história, e nenhuma história cabe inteiramente num rótulo.