Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Opinião de Miguel Honrado

Quid Agendum II

Sabemos a grande dificuldade com que em Portugal lidamos com o registo, como instrumento determinante…

Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Sabemos a grande dificuldade com que em Portugal lidamos com o registo, como instrumento determinante para a fixação e reconstrução da memória. A vida das organizações, os projetos desenvolvidos, não são objeto na sua grande maioria de um registo planificado e exaustivo, tal facto tem suscitado inúmeros questionamentos e dificuldades, designadamente quanto ao conceito de legado e da sua importância como sedimento inter-geracional e catalisador social. Agimos assim, como se a nossa existência se desenrolasse num infinito presente. O passado inexoravelmente extinto e o futuro fonte dos maiores receios e incertezas.

No domínio cultural que interage sobremaneira com fatores como a identidade, o tempo e naturalmente a memória, esta ausência sente-se de forma gritante. E não pensemos apenas que esta necessidade de registo e reflexão são apenas fundamentais para a área do património; também a criação artística necessita deste processo para o seu desenvolvimento posto que, mesmo no processo de criação mais vanguardista, é crucial a consciência do que o precede, ainda que o seu propósito seja um corte radical com o passado. É impossível rejeitarmos aquilo que, pura e simplesmente, não conhecemos.

Em termos mais objetivos e citando exemplos de fácil compreensão não muito distantes , torna-se particularmente difícil para um investigador mergulhar atualmente em temáticas como a importância do Festival Europália 91 para o desenvolvimento de uma geração de profissionais culturais ao longo dos anos 90, ou ainda, refletir sobre a evolução gráfica e os valores estéticos subjacentes à estratégia de comunicação das companhias de teatro independente, cujo o papel para a renovação cenográfica pós-revolucionária foi determinante.

Esta situação constata-se transversalmente em todo o domínio cultural e contrasta, de forma eloquente, com aquilo que se vive noutros países da Europa Ocidental.

Consequentemente, também a nível governamental esta situação se verifica, criando grandes dificuldades aos responsáveis pela decisão política.

Aqui chegados convém evocar a questão inevitavelmente polémica sobre quem deverá assumir os destinos das políticas culturais - uma personalidade com peso político ou uma individualidade da cultura (ou mesmo culta)?

Perante a vastidão disciplinar de que se reveste a área tutelada, é impossível que o responsável máximo detenha um conhecimento profundo de todas as temáticas.  Naturalmente que um “gabinete” multidisciplinar é determinante, mas mais fulcral ainda será a existência de um “corpus de pensamento” produzido, sobre o qual qualquer governante, a despeito do maior ou domínio da miríade de assuntos que tenha entre mãos, possa decidir da forma mais orientada e objetiva possível.

Dentro das várias áreas governativas a Cultura é das últimas que ainda ousa, por vezes, colocar a “erudição enciclopédica” como garantia importante para o exercício do cargo ministerial, enquanto nas demais o que importa, para além de um conhecimento e uma experiência eminentemente técnicos, é, naturalmente, a fundamentação das políticas, utilizando para tal um corpus de pensamento laboriosamente construído.

A ausência deste processo e, consequentemente, do que ele poderia aportar como indicadores e chaves de compreensão para a profusão das temáticas, fragiliza a governação da cultura e converte-a como refém de apreciações e conclusões, no mínimo empíricas ou manipuladas, que atualmente são objeto de multiplicação exponencial nas redes sociais, e face às quais aquela não detém os instrumentos adequados para uma cabal reposição da realidade.

Com a viragem política nesta área governativa em 1995, sentiu-se a necessidade de corresponder a esta importante lacuna, criando o Observatório das Atividades Culturais. É facto que este organismo, foi responsável, enquanto as condições o permitiram, pela publicação de estudos, alguns deles ainda hoje considerados obras de referência. É igualmente verdade, porém, de que os meios de que dispôs nunca foram de molde a satisfazer um desenvolvimento cultural crescente, cada vez mais vasto e diverso.

Podemos, hoje em dia, colocar a questão se fará sentido a recriação de um organismo com estas características e de forma internalizada como se fez no passado, atentos os custos e a capacidade financeira cada vez mais restrita dos poderes públicos. Ousaria dizer, a este respeito, que a academia desenvolveu uma proximidade com o setor cultural (tal não acontecia ainda em 1995), que torna compatível e desejável um trabalho articulado e coordenado representando benefícios para os dois universos.

O pensamento sistemático e permanentemente revisitado que resultar desta cooperação de longo fôlego, possibilitará um novo ciclo no desenvolvimento das políticas culturais em Portugal constituindo, em meu entender, uma das chaves de saída para o círculo vicioso de constante contestação que se vive há décadas, bem como fundamento preponderante para a reconstrução de uma futura relação de confiança.

-Sobre Miguel Honrado-

Licenciado em História pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e pós-graduado em Curadoria e Organização de Exposições pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa/ Fundação Calouste Gulbenkian, exerce, desde 1989, a sua atividade nos domínios da produção e gestão cultural. O seu percurso profissional passou, nomeadamente, pela direção artística do Teatro Viriato (2003-2006), por ser membro do Conselho Consultivo do Programa Gulbenkian Educação para a Cultura e Ciência – Descobrir (2012), pela presidência do Conselho de Administração da EGEAC (2007-2014), ou a presidência do Conselho de Administração do Teatro Nacional D. Maria II (2014-2016). De 2016 a 2018 foi Secretário de Estado da Cultura. Posteriormente, foi nomeado vogal do Conselho de Administração do Centro Cultural de Belém. Hoje, é o diretor executivo da Associação Música, Educação e Cultura (AMEC), que tutela a Orquestra Metropolitana de Lisboa e três escolas de música.

Texto de Miguel Honrado
Fotografia de Estelle Valente

As posições expressas pelas pessoas que escrevem as colunas de opinião são apenas da sua própria responsabilidade.

Se este artigo te interessou vale a pena espreitares estes também

21 Abril 2026

Multilinguismo? O controlo da diversidade cultural na UE

7 Abril 2026

Valério e Gonçalo vão à luta

24 Março 2026

Um mergulho na Manosfera

10 Março 2026

Depois vieram os trans

24 Fevereiro 2026

Protocolo racista, branquitude narcísica

10 Fevereiro 2026

Presidenciais e Portugal – algumas notas

27 Janeiro 2026

Museu dos sapatos

13 Janeiro 2026

A Europa no divã

24 Dezembro 2025

Medo de assentar

10 Dezembro 2025

Dia 18 de janeiro não votamos no Presidente da República

Academia: Programa de Pensamento Crítico Gerador

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo e Crítica Musical [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Autor Leitor: um livro escrito com quem lê 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Criação e Manutenção de Associações Culturais

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Literacia Mediática

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Desarrumar a escrita: oficina prática [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo Literário: Do poder dos factos à beleza narrativa [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Clube de Leitura Anti-Desinformação 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Comunicação Cultural [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Curso Política e Cidadania para a Democracia

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Imaginação para entender o Futuro

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Financiamento de Estruturas e Projetos Culturais [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Fundos Europeus para as Artes e Cultura I – da Ideia ao Projeto [online]

Duração: 15h

Formato: Online

Investigações: conhece as nossas principais reportagens, feitas de jornalismo lento

20 abril 2026

Futuro ou espaço de incerteza? A visão de Camila Romão sobre o ensino superior

Para muitos jovens o ensino superior continua a ser o percurso natural, quase obrigatório, para garantir um futuro melhor. Apesar disso, nem todos os que escolhem seguir este caminho encontram uma realidade correspondente às expetativas. Neste projeto, procuramos perceber, através de uma reportagem aprofundada e testemunhos em vídeo, o que está realmente a em causa no ensino superior em Portugal. O que está a afastar os jovens? O que os faz ficar ou sair? E, sobretudo, que país estamos a construir quando estudar se transforma num privilégio ou num risco.

16 fevereiro 2026

Com o patrocínio do governo, a desinformação na Eslováquia está a afetar pessoas, valores e instituições

Ataques a jornalistas, descredibilização da comunicação social independente, propagação de informação falsa, desmantelamento de instituições culturais. A desinformação na Eslováquia está a crescer com o patrocínio dos responsáveis políticos, que trazem para o mainstream as narrativas das margens. Com ataques e mudanças legislativas feitas à medida, agudiza-se a polarização da sociedade que está a prejudicar a democracia e o sentimento europeísta.

Carrinho de compras0
There are no products in the cart!
Continuar na loja
0