De portas abertas desde o mês de maio, altura a partir da qual os trabalhos regressaram gradualmente à normalidade, os Estúdios Victor Córdon decidiram não terminar 2020 sem a 3ª edição do Território. O programa que acolhe jovens bailarinos de várias regiões do país não foi cancelado devido à pandemia, ainda que tudo fizesse crer que este seria o caminho. Agora, a menos de uma semana da estreia, a ânsia de subir a palco começa a sentir-se nos Estúdios.

Ao todo, são 12 os jovens bailarinos que, desde agosto, se mudaram para Lisboa para experienciar como é o dia a dia de trabalho numa companhia profissional de bailado. Vêm de escolas de dança de vários pontos do país – Setúbal, Faro, Leiria, Alcobaça, Porto, Torres Vedras, Braga e Tomar – e passam cerca de oito horas diárias em ensaios. Têm, este ano, a oportunidade única de trabalhar com coreógrafos de renome internacional como Marco Goecke e a dupla Iratxe Ansa e Igor Bacovich. 

“Blushing”, de Marco Coecke, e “Inescapable”, de Iratxe Ansa e Igor Bacovich, são as coreografias que sobem a palco nos dias 12 e 13 de setembro, no Teatro Camões. Do espetáculo faz ainda parte o trabalho realizado pelo vencedor do prémio Território – Estúdios Victor Córdon, na categoria Melhor Realizador Nacional do InShadow Lisbon ScreenDance Festival 2019 – João Vaz. 

O programa que representa “o Território do ensino da dança em Portugal”

Rui Lopes Graça chegou aos Estúdios Victór Cordon há três anos. Com a sua chegada, como coordenador, nasceu o programa Território. Explica que começam a surgir em Portugal, em vários pontos do país, “escolas que formam jovens bailarinos muito capazes, mas que depois não têm uma plataforma onde se possam mostrar”. Salvaguarda, desde logo, que os concursos de dança não podem entrar nestas contas: “os concursos de dança não preparam verdadeiramente os jovens para a profissão de bailarino, pelo menos os concursos que têm como grande objetivo o lucro financeiro”. 

Assim, após a sua chegada aos Estúdios, sentiu a necessidade de propor ao conselho de administração do OPART um programa “em que nós pudéssemos selecionar jovens bailarinos de todo o país – à exceção de Lisboa, que já tem o Conservatório Nacional com uma visibilidade muito grande – que pudéssemos juntá-los um mês em Lisboa, e convidar coreógrafos da cena da dança internacional para este tipo de dança, que são as companhias de mainstream, como é a nossa Companhia Nacional de Bailado”, conta. A proposta ganhou vida.

A 3ª edição, do programa que o coordenador define como “o Território do ensino da dança em Portugal”, teve início em janeiro para os jovens bailarinos, altura em que audicionaram para um júri externo aos EVC. “Estes 12 jovens bailarinos estão cá porque conseguiram fazer uma audição e foram escolhidos. Conquistaram este lugar e é a primeira vez que vão participar num projeto descontextualizado da escola. Procuramos que isto seja tal e qual se faz numa companhia profissional”, afirma o Rui Lopes Graça. Ao longo de um mês, os bailarinos enquadram um contexto semelhante ao de trabalho numa companhia de bailado, de forma totalmente gratuita, usufruindo daquilo a que Rui designa como “serviço público de formação complementar para os jovens bailarinos”.

Após a apresentação do espetáculo, o grupo dos jovens selecionados costuma seguir em digressão pelo país, algo que este ano não será possível devido ao contexto pandémico. Contudo, para Rui “esta continua a ser uma oportunidade única”. O grupo de bailarinos, entre os 15 e os 19 anos, vai pisar pela primeira vez as tábuas do Teatro Camões. Para Rui Lopes Graça, “esta é uma idade em que existe uma paixão desenfreada por estar num palco; é extraordinária a entrega destes jovens, visível nos ensaios”.

A experiência do programa pela voz do Tomás, da Raquel e da Margarida

“Eu sei que existe a opção de, de vez em quando, aos fins de semana, irmos a casa visitar os nossos pais, mas eu disse-lhes logo: ‘Não, eu vou para Lisboa e quero estar lá, presente no momento'”. É assim que Margarida encara esta experiência. Aos 17 anos, conta que “a paixão pela dança começou aos 5 anos”, mas foi com 14 que percebeu que “era isto que eu queria realmente”. Quase a completar a maioridade, “queria que este ano ficasse marcado, que ficasse no currículo, que ficasse na memória” e não viu melhor forma do que “conhecer pessoas muito distintas, de todo o país, e ainda conhecer coreógrafos com as suas mentalidades e estruturas tão diferentes”.

O percurso e as motivações do Tomás são diferentes. O portuense começou o percurso nas danças de salão. Decidiu, por incentivo da sua parceira de dança à época, com 15 anos, que “queria tornar-me um bailarino mais completo e explorar outras áreas”. Foi então que decidiu fazer a audição para a escola da dança Ginasiano, em Vila Nova de Gaia. Agora, vê o programa Território como “uma grande oportunidade para crescer enquanto bailarino e para ter uma experiência diferente – visto que estou também já a tentar entrar mais no mundo do trabalho e gostava de ter um contacto diferente com coreógrafos”. Segundo Tomás, “a audição podia ter corrido muito melhor, mas viram alguma coisa e foi suficiente para entrar”. O único rapaz entre as 11 raparigas, reconhece nesta experiência “uma adaptação àquilo que pode ser o meu futuro”, revelando o seu desejo de ir para o estrangeiro para poder “evoluir e ir buscar informação a outros lugares”.

Para Raquel, a dança faz parte das suas primeiras memórias. Com apenas 4 anos fez a primeira audição para a Companhia de Dança do Algarve, em Faro, escola que ainda frequenta aos 16 anos. Foi desafiada pela professora de Contemporâneo para tentar a sua sorte na audição ao programa Território. Estava lesionada, conta, mas é também com um sorriso no rosto que afirma: “agora aqui estou eu, sempre com o apoio dos meus pais e professores”. Para a algarvia esta experiência representa “uma maneira de começar a largar as rédeas” dos pais. Mas, mais do que isso, um desafio constante.

A Covid não estragou os planos e o Território foi ocupado

O coordenador dos EVC, Rui Lopes Graça, afirmava que “seria fácil e perfeitamente aceitável perante a opinião pública” cancelar a edição deste ano do programa Território. No fundo, são 12 jovens bailarinos e três coreógrafos em contacto diário durante um período que impõe o distanciamento social. Contudo, se assim fosse, “estes jovens bailarinos já não poderiam fazer este programa”. E esta foi sempre a grande preocupação da equipa dos EVC: “O nosso compromisso é com os jovens bailarinos”, confessa Rui. “O não fazermos este ano seria devastador para eles, por isso a luta foi até ao fim. Pensamos qual seria a última das possibilidades para eles fazerem isto: estrearem dia 12 e 13 de setembro, porque depois eles começam as aulas, então, pela primeira vez, deixámos de ter férias durante o mês de agosto, para possibilitar isto a estes jovens”.

A vinda destes jovens para a capital implicou medidas de segurança mais apertadas do que em edições anteriores. Tratando-se, na sua maioria, de menores de idade, a responsabilidade acresce, sobretudo quando a cidade de destino continua em estado de contingência. Tomás explica que quando contou aos pais que pertencia ao grupo de participantes do Território “o maior nervosismo foi ir para o centro onde está tudo neste momento”, algo que lhe pareceu contornável uma vez que “somos todos responsáveis e não andamos a fazer nenhuma maluqueira”, conta entre risos.

O coronavírus não lhes impossibilitou a ida para Lisboa, felizmente, mas também não lhes tem facilitado o dia a dia. Os três bailarinos confessam que o regresso aos ensaios está a ser mais difícil do que o esperado. “Talvez o choque não fosse tão grande se eu tivesse estado na escola até vir para cá”, confessa Tomás. Margarida remata dizendo que “a primeira semana foi mais difícil, estávamos todos muito mais desgastados e doridos; agora, apesar de desafiante, porque temos de nos adaptar rapidamente a duas coreografias diferentes e a dois tipos de técnica, está a ser mais fácil”. Já para Raquel, o maior desafio é a concentração: “estarmos concentrados, durante as oito horas no estúdio, e ter de aprender muito mais rápido, porque afinal de contas é só um mês que temos para trabalhar em peças coreográficas, temos de aprender e apanhar os passos, tudo muito rápido”, explica.

Veem o Território como “um estágio para o que é o dia a dia numa companhia”, afirma Margarida, mas da experiência levam ainda novas amizades. “Acho muito importante podermos conhecer outras vertentes da dança, mas o mais positivo de tudo é conhecer e trabalhar com mais onze bailarinos fantásticos da minha idade, que espero que continuemos amigos e que fiquemos ligados de alguma maneira”, confessa Raquel.

Dos EVC estes jovens não levam só novas coreografias, porque “um bailarino tem de ser uma entidade de gratidão”

As novas técnicas, coreografias, e até as novas amizades são importantes conquistas deste grupo de 12 jovens bailarinos. Mas Rui Lopes Graça vai mais além naquilo que é o papel deste programa. “Digamos que há a experiência adquirida, o know-how de como integrarem uma companhia e de como participar numa audição, e depois há uma transmissão do conhecimento todos os dias”. Para o coordenador dos EVC, “um bailarino não é uma máquina de fazer passos acrobáticos, nem pode ser, e quando isso acontecer já deixou de ser dança; tem de ser uma entidade de gratidão e de comunicação”.

Assim, Rui tem procurado ao longo das três edições, deste programa Território, alertar os jovens para a importância de reconhecer o trabalho de todas as partes envolvidas. “Um bailarino quando chega ao palco há uma quantidade enorme de pessoas invisíveis que estiveram a trabalhar na sombra para que estes pudessem dançar, e é isso que eu quero que eles compreendam”, afirma. Realça assim a importância “das pessoas que nunca ninguém vê e que nunca ninguém aplaude”, e acredita que estes 36 jovens que já passaram pelos EVC podem ser o motor da mudança na atitude que devemos todos ter perante os outros.

Este grupo que está há apenas três semanas em ensaios parece já ter a lição bem estudada. Não quiseram terminar a entrevista sem deixar uma mensagem: “Há um ponto que não podemos esquecer, que são as pessoas que fizeram com que estivéssemos aqui hoje. Queremos todos agradecer às pessoas dos EVC que não desistiram do projeto. Neste momento devíamos estar de férias, já tínhamos ido em digressão até, mas não, estamos aqui porque não desistiram e quiseram que tivéssemos esta oportunidade. E, de certa forma, estão a pôr as mãos no fogo por nós, não é uma situação de todo normal ainda. Queríamos mesmo realçar a gratidão pelas pessoas que nos deixaram estar aqui hoje e que nos vão permitir subir a palco”, afirmou Tomás em nome do grupo.

Expressam ainda a ânsia de subir a palco “sem deixar ficar mal ninguém, nem colegas, nem os coreógrafos”, afirma Raquel. Juntam-se agora aos outros 24 jovens bailarinos, das edições anteriores, na soma de conquistas e na transmissão destes valores.

Texto Bárbara Dixe Ramos
Fotografia do ensaio do PT III, de Hugo David