De uma tese de mestrado nasceu uma exposição que junta várias mulheres com um único objetivo: debruçarem-se sobre o orgasmo feminino como símbolo distópico, desde a libertação à opressão, numa sociedade que (ainda) se vê patriarcal e heteronormativa. A exposição, em parceria com a Cupcake Love Store, será inaugurada no dia 2 de outubro, pelas 16h, no Com Calma-Espaço Cultural, e conta com mais de 20 artistas, poesia e um momento de debate.

A Arte de Nos Virmos” nasceu de uma vontade de trazer a sexualidade para cima da mesa, para ser discutida e entendida, só depois veio a tese que Maria Caetano Vilalobos materializou numa exposição, num espetáculo e num evento de poesia.

Em entrevista ao Gerador, Maria Caetano Vilalobos, começa por explicar o seu caminho que lhe criou inquietudes na forma de pensar e ver o mundo. Nascida e criada em Montemor-o-Novo, no Alentejo, licenciou-se em teatro em Évora, passou por Castelo Branco e subiu o país até ao Porto para tirar um mestrado em Interpretação e Direção Artística. Ter vivido em meios pequenos enquanto “pessoa LGBT, mulher, ser sexualizado e aberto a temas sobre sexualidade, foi um problema” – “falar sobre sentimentos e sexualidade é um problema e todos os estigmas que achamos que estão no século passado não estão e eu achei muito urgente criar algo que descentralizasse a arte dentro dessas temáticas”, explica Maria.

Maria Caetano Vilalobos é atriz, poeta e professora | Fotografia de Cláudia Moreno

A tese com o título "!REGRA GERAL: Como criar uma prática performativa que reflita a(s) sexualidade(s) de hoje?", partiu do tema sexualidade (antes de chegar ao orgasmo feminino) e envolveu muito estudo e viagens a vários pontos para entender uma visão não só portuguese, e de mulheres, mas também como a europa vê a sexualidade. De visitas às Red-lights na Bélgica e Holanda, para estudar a prostituição, à França onde participou num encontro de jovens de vários países, para entender a perspetiva jovem europeia, até ao questionário com perguntas “no condicional”, Maria concluiu que o orgasmo feminino “tornou-se urgente pelas respostas que precisa”.

“O que me choca mais na sociedade portuguesa em termos de sexualidade feminina é que não temos conhecimento do nosso corpo, nem sequer temos o confronto de que é normal ou não vires-te, porque tudo o que vem de orgasmo feminino parte de uma libertação enorme, mas é um objeto de pressão social e íntima tão grande. E há outra questão: as pessoas não entendem que a relação sexual não tem de ser sobre o orgasmo”. Entre muitos valores que encontrou e apurou, Maria destaca que “1/5 das mulheres nunca estimulou o ponto G, só 18% das mulheres consegue ter um orgasmo através de penetração vaginal e 9% não se vem, de todo, nas relações sexuais”. No entanto, apesar dos números, Maria diz que nunca pode generalizar o que é o orgasmo: “o que consegui concluir é que uma mulher é uma panóplia gigante de problemas diferentes”.

"A Arte de Nos Virmos" aconteceu, pela primeira vez, no espaço G-Crew, em Lisboa | Fotografia de Cláudia Soeiro

Por isso, desafiou mais de vinte artistas para, através da sua arte, dizerem o que é o orgasmo: Ana Paixão, Andreia, Caroline Line, Carolina Rainho, Clara Franco, Caty, Cara de Fofa, Cara Trancada, Cláudia Moreno , Happy Vulva, Inês Gosa, Joana Calhau, Julia Blochtein, Laura Dâmaso, Leoni Amandin, Linda Inês, Maria Abrantes, Rita Sá Machado, Rute Santana, Sofia Pinto de Sá, Solange Pacífico, Vanda Vaz de Carvalho e VulvaBell são as mulheres artistas que aceitaram fazer parte da exposição que quer desmistificar o que é o orgasmo feminino – “ Eu acho que a educação sexual e emocional é tão escassa que eu senti que a arte podia ser um lugar seguro para criar diálogo. Criei esta exposição como forma de juntar mulheres para falar sobre isso, como sentimos e vivemos o orgasmo.”

A exposição, que já tinha sido apresentada em maio no espaço GCrew, em Lisboa, trouxe também um momento de poesia e abriu portas a parcerias que pretendem levar este assunto mais longe. Para Maria, que também é professora, o foco está na educação, “não é fácil entrar nas escolas, nem é fácil ser professora e articular a visão que têm de mim após saberem que eu trabalho com sexualidade, mas a educação sexual não é só nas escolas, existem várias pessoas sexólogas que dizem que a educação sexual é social e os meus espetáculos são para maiores de 16 anos e muita gente do secundário vai vê-los, e aí já estou a fazer serviço público. Quero sim, cada vez mais ir para um público jovem, mas com cautela, porque a minha liberdade acaba quando começa a do outro”.

O espaço Com Calma-Espaço irá receber, durante um mês, esta exposição que começa no dia 2 de outubro, pelas 16h. Para Maria, o caminho sabe-se longo, mas confessa que quanto mais próxima está do tema mais provas tem de que há uma união, uma urgência, e um grito coletivo por parte das mulheres que diz “eu mereço ser um ser livre!”.

Joana Calhau - " Acabaste? Eu não."

Texto de Patrícia Nogueira
Fotografia de Caroline Line - "Play With Me "

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