Numa entrevista a propósito da edição em vinil de “Revólver entre Flores”, Keso confidenciava-nos que em breve sairia um projeto que seria a prova de que gosta de juntar pessoas e criar o insólito. Pouco mais tarde percebemos do que se tratava. No Natal do Marginal, a festa de hip hop organizada por Keso que pela primeira vez se dividiu em três dias, surgiu Sinceramente Porto – “uma compilação de hip hop portuense” produzida por si. 

A ligação do rap ao território em que vive e é criado acaba por ser natural. No Porto essa relação foi tema nos clássicos de Mind da Gap e Dealema, e deixou ecos naquilo que se viria a fazer mais tarde. Nas faixas de Keso, essa relação foi sendo evidente através da pronúncia, das expressões e dos lugares que ia convocando – de Ramalde ao Komix

Ainda em 2005 organizou a compilação “Invicta Rap” com Né (Barrako 27) – que é, aliás, um dos intervenientes de Sinceramente Porto – e, desde então, reunir vozes múltiplas de norte a sul tem sido uma das nuances do seu trabalho. “O Hip Hop do Porto também é a minha casa, a minha família, a propriedade cultural e intelectual das nossas ruas. Esse sentido de pertença a um movimento real, feito de pessoas e não de números ou interações virtuais, julgo que foi a maior dádiva que o Hip Hop me deu. Os tempos são outros, claro, mas nós continuamos humanos, e esta necessidade de pertença real a um grupo ou culto será eterna. Podes pensar no fenómeno da gentrificação para estabelecer uma comparação”, diz Keso ao Gerador.

Sinceramente Porto surgiu de uma forma “natural”. “Sempre esteve nos meus divulgar a cultura Hip Hop e estamos numa altura, a meu ver, em que o Porto precisa de um boost, de uma wake up call, para os seus rappers e produtores. A humildade, o sotaque, a amalgama de estilos, a escrita e o carisma dos nossos é tão potencial que apelar à união e à interação entre os demais é essencial para que não se deixem calar ou sentir-se esquecidos”, conta Keso. 

É no sentido de contrariar o “centralismo, a robotização da voz, dos artistas e dos números” que Sinceramente Porto caminha. Na multiplicidade de vozes que agrega diferentes gerações sente-se “cada bairro, cada zona, cada MC”, uma vez que cada um “tem formas diferentes de ser e de estar, e o Porto não é assim tão grande geograficamente”. “Mas o Porto é enorme na diversidade de ideias e caráter”, explica.

Nesta compilação que junta nomes já clássicos como Ace ou Berna, a outros mais jovens, como Riça ou Kaines, Keso relembra a importância de “não esquecer o passado” para se entender o presente. “O Porto tem um legado invejável dos melhores rappers e produtores deste país. A qualidade desses “históricos” continua neles e não há necessidade nenhuma de os estar a encostar para canto quando eles continuam a ser melhores que maior parte dos novatos. Não fazia sentido juntar a malta sem colocar todos no mesmo ponto de partida, e daí a junção de nomes da “velha” e da “nova” escola ser essencial para uma compilação coerente, que abre uma porta do passado, do presente e do futuro”, contextualiza o MC e produtor. 

O projeto seria apresentado no dia 9 de abril no Hard Club, mas “pelos motivos evidentes” a festa foi cancelada. No passado sábado, 4 de julho, o projeto foi finalmente apresentado no Ferro Bar, no Porto, e os CDs e T-shirts do projeto ficaram oficialmente à venda.

Para surfar a onda do distanciamento social, ainda no período de quarentena, enviámos três perguntas iguais para cinco rappers diferentes que integram o grupo de Sinceramente Porto, que guardámos até o projeto finalmente ser desvendado na íntegra. As suas respostas, tal como as suas músicas, levantam o que os une mais do que o que os separa.

Kaines, “Filma aí” 

És um dos rappers a integrar o projeto Sinceramente Porto. Quando o Keso te fez o convite, soubeste logo sobre o que querias falar na tua faixa?  
Sim e não. Tinha alguns apontamentos e esqueletos em cadernos que acabei por usar no som, no entanto normalmente começo com um tema definido e, curiosamente, desta vez optei por utilizar um método de criação inverso. Fui construindo a música e à medida que ela ia ganhando forma é que reparei na direcção em que o beat me levava. 

Sou da opinião de que um MC só deve falar quando realmente tem algo a dizer, e nesse sentido tinha algumas coisas “entaladas” que consegui colocar neste som.

Por muito diferentes que os rappers do Porto possam ser entre si, acreditas que existe algo identitário que os une? 
Claro que sim, penso que a mais óbvia de todas é o amor pela música que vai sempre em primeira instância unir-nos, embora cada um o expresse de diferentes formas. 
Por outro lado, acho que as pessoas hoje em dia andam muito separadas, quer seja pela falta de comunicação entre elas, quer pela inércia que estes tempos da internet nos trazem. Nesse sentido, este disco do KESO serve também para pôr as pessoas mais em contacto umas com as outras.

Que papel é que a cidade do Porto teve no teu crescimento enquanto rapper, e que papel ocupa hoje? 
O Porto (e arredores) foi onde cresci e onde vivi desde sempre. Um MC nada mais deve ser do que o espelho das suas crenças, influências e vivências que carrega, pelo que a cidade de onde é vai sempre ter influência. No meu caso, cresci a ouvir muitos MCs de cá, quando escrevo faço muitas referências à cidade, e quando procuro inspiração gosto de conduzir a ouvir o beat pela cidade. É um género de um ritual – desde o cinzento da baixa à magia e maresia da Foz, não falta por onde arranjar inspiração.

Riça, “Lobotomia”

És um dos rappers a integrar o projeto Sinceramente Porto. Quando o Keso te fez o convite, soubeste logo sobre o que querias falar na tua faixa?
Não foi imediato e por várias razões. Em primeiro lugar, trata-se duma compilação assinada pelo Keso e na qual entram nomes marcantes do rap portuense, alguns dos quais grandes referências para mim. Em segundo lugar, o Keso não nos impingiu um beat, deu-nos liberdade de escolha. E escolher um no meio de tantos, sem ainda saber bem do que quero falar, não foi fácil. Em terceiro lugar, depois de selecionar o beat para escrever, não o ataquei logo. Por norma, não complico muito nesta parte e começo logo a escrever o que o instrumental me sugere. Mas aqui preferi manter-me sereno e deixar que ao longo de alguns dias me fossem surgindo mais ideias. Fui anotando algumas dicas que me pareciam criar um bom caminho até que um dia deixei tudo fluir.

Por muito diferentes que os rappers do Porto possam ser entre si, acreditas que existe algo identitário que os une?
Tal como já se debateu isso em muitas ocasiões, (por exemplo, em entrevistas no TV Chelas ou no documentário “Não consegues criar o mundo duas vezes” da Catarina David e do Francisco Noronha), foi-se reconhecendo ao longo do tempo um padrão no rap portuense, muito por culpa dos Mind da Gap, Dealema ou Matozoo. Um rap bastante introspetivo, reflexivo e “poético”. Continuo a ver esse padrão em muitos nomes (por exemplo, o Zé Menos), dos mais velhos aos mais novos, mas o rap do Porto é muito mais complexo do que isso. Temos de tudo, do rapper mais festivo, ao mais punchliner, ao mais tangueiro. Esta compilação reflete exatamente essa diversidade – e ainda bem! E não nos esqueçamos que o Porto não é só o centro, também é feito das periferias (Valongo, Maia, Paredes, Gaia) e há ainda muitos talentos a descobrir por essas terras fora.

Que papel é que a cidade do Porto teve no teu crescimento enquanto rapper, e que papel ocupa hoje?
Lá está, eu sou um desses casos que vem da periferia e que procurou alimentar-se do que a cidade do Porto tinha para oferecer. Eu sentia-me um pouco como o Porto se sente em relação a Lisboa. Senti na altura que Paredes não tinha o que a Invicta tinha. O irónico é que anos mais tarde descobri malta da periferia que afinal vivia o Hip Hop como se vivia no Porto (os G821, o Narc, o Dekor, o SER). Mas mesmo esses tinham a necessidade de ir volta e meia ao Porto porque era lá que continuava a acontecer tudo, de festas, a batalhas, a estúdios, etc. Portanto, eu cresci com uma perna na minha terra e outra no Porto. Maior parte das minhas amizades e colaborações nasceram lá, a minha educação formal e cultural surgiu e cresceu lá. Há uns anos atrás, um dos meus objetivos era viver na cidade para poder vivê-la a 100% . Hoje, com todo o frenesim do turismo e o seu impacto na habitação, isso é impossível. O que me leva a concluir que não preciso necessariamente de viver num sítio para o continuar a amar e visitar. Seria incrível, mas também não é algo fatídico. Triste é ver pessoas que já lá vivem há gerações sentirem-se obrigadas a procurar casa noutro sítio porque não há espaço para elas numa cidade desfigurada.

Ace, “Doce Conversa”

És um dos rappers a integrar o projeto Sinceramente Porto. Quando o Keso te fez o convite, soubeste logo sobre o que querias falar na tua faixa?
Não, não funciono dessa forma, normalmente. Ele enviou-me algumas bases instrumentais e dessas, escolhi uma que me “falava mais alto”. Depois vem o processo de ouvir o instrumental e tentar perceber o que ele me está a pedir. E, na altura, aquilo que escrevi foi o que achei que fazia sentido. É claro que para além do ambiente que o beat cria e do sentido criativo que induz, há habitualmente, uma necessidade de exprimir algo que sai quando as condições (ambiente do beat e inspiração pessoal) o favorecem. Nesse dia, tudo se conjugou para que saísse a letra que escrevi.

Por muito diferentes que os rappers do Porto possam ser entre si, acreditas que existe algo identitário que os une?
Como pioneiro no género na cidade e no país, eu gosto de acreditar que sim. Há muitos rappers nos quais identifico o “gene” que os Mind da Gap [MdG] criaram em 1993, até porque sendo essa influência directa ou não, a árvore genealógica do Rap do Porto tem as suas raízes nos MdG. E muito daquilo que começou nos 90’s pela nossa “mão”, ainda hoje se verifica. Não estou a dizer que todos os rappers do Porto são fãs dos Mind da Gap e seguem as suas pisadas. Estou a dizer que os Mdg foram os primeiros representantes de uma atitude perante a vida e a arte, que acredito ser característica da gente da Invicta e que, felizmente, ainda se mantém no Rap que se faz hoje em dia.

Que papel é que a cidade do Porto teve no teu crescimento enquanto rapper, e que papel ocupa hoje?
A cidade teve e tem toda a importância no meu crescimento enquanto pessoa. A pessoa que sou e como exprimo o que sou é que desagua nos Raps. E quando digo cidade, não falo (só) das paisagens, dos monumentos, dos lugares. A cidade é, para mim, um colectivo de gente, uma espécie de alma colectiva localizada. Isso é o que faz a cidade – e quando falo em cidade do Porto, falo do Grande Porto, apesar da terminologia não estar correcta, é assim que a minha cabeça vê o Porto. Até porque sou um Gaiense condecorado :) –  ser o que é, ter a grandeza que tem. É na frontalidade, na humildade, no bem receber, no companheirismo, na lealdade, na honra, no espírito de luta destas gentes que eu encontro o Porto.

Barrako 27, “Estranho da casa” feat. DJ Dezanove 

És um dos rappers a integrar o projeto Sinceramente Porto. Quando o Keso te fez o convite, soubeste logo sobre o que querias falar na tua faixa?
Sei sempre o que abordo nos meus temas. O Keso colocou me à vontade em relação ao tema para esta compilação , logo foi fácil escrever na minha linha de mensagem. E  tendo um produção musical genial, tudo sai espontâneo.

Por muito diferentes que os rappers do Porto possam ser entre si, acreditas que existe algo identitário que os une?
Na verdade, na minha opinião o que nos une é o amor pelo rap , pela música. Embora cada artista tenha a sua identidade, não acredito muito que nos una na cultura Hip Hop que cada vez mais se desvanece – é cada vez mais um por si, infelizmente. Já houve tempos em que se sentia algo de mágico a acontecer com esta arte, mas mal vieram as editoras e os promotores que viram “valores” e não valor dos nossos MCs, a cultura Hip Hop deixou de ser cultura para ser indústria. Aí algo morreu…!!!

Que papel é que a cidade do Porto teve no teu crescimento enquanto rapper, e que papel ocupa hoje?
O porto é a cidade que me viu nascer há 53 anos atrás. Sinto orgulho no rap que faço: com sotaque , com garra , sem americanismos , sem tretas , puro e duro, à moda do Porto que ainda hoje me fascina e inspira para fazer o que mais amo.

Kapataz, “Índigo” 

És um dos rappers a integrar o projeto Sinceramente Porto. Quando o Keso te fez o convite, soubeste logo sobre o que querias falar na tua faixa?
Quando o Keso me fez o convite para o Sinceramente Porto, eu não tinha nada em mente. Fui escrevendo consoante fui ouvindo o instrumental, e como tenho total confiança no Keso, sei que estou à vontade para escrever sem barreiras.

Por muito diferentes que os rappers do Porto possam ser entre si, acreditas que existe algo identitário que os une?
Todos diferentes todos iguais, não há como. Vejam a força da gera do Norte, a nossa forma de ser e ver as coisas, a nossa raça, a nossa atitude. A unificação sempre foi prioritária e sempre será.

Que papel é que a cidade do Porto teve no teu crescimento enquanto rapper, e que papel ocupa hoje?
Ora bem, eu fui nascido e criado na cidade do Porto, a minha freguesia é a Sé e eu brinquei nas Fontainhas. O peso que o nome desta cidade tem sobre mim é muito grande; foi aqui que eu cresci e aprendi a ouvir e a fazer rap. Este estilo da cultura Hip Hop, o rap do Porto, tornou-me no que sou hoje em dia.

Sinceramente Porto é uma espécie de levantamento das vozes que hoje ainda se mantêm vivas, estando mais ou menos ativas, no rap do Porto e com projeção nacional. Com esta compilação Keso conseguiu mostrar em quantos tons pode ser composta a banda sonora de um território, num levantamento quase antropológico da cidade do Porto. 

Das relações entre pessoas à importância de manter uma postura positiva, as faixas refletem o mindset de cada rapper na cultura Hip Hop e, naturalmente, perante a vida. 

Podes ouvir todas as faixas do Sinceramente Porto no YouTube, e acompanhar o Keso através do Facebook ou do Instagram

Texto de Carolina Franco
Fotografias de Catarina David

Se queres ler mais notícias sobre a cultura em Portugal, clica aqui.