Durante a primeira volta da recente campanha eleitoral no Brasil, Jair Bolsonaro, ainda presidente, chamou ao seu principal opositor, Lula da Silva, “quadrilheiro de nove dedos”. Nove dedos - assim como um duplo insulto: por um lado, as acusações de que Lula havia sido alvo, complementadas com uma deformidade do próprio transformada em ataque. Num golpe de marketing político, o PT transformou os 4 dedos da mão de Lula num apelo ao voto no seu número eleitoral1: um dedo a simbolizar o 1 e outros três, o 3, fazendo assim o número 13.
As mãos têm mesmo este condão - são o sonho de qualquer especialista de semiótica, porque com as mãos tudo podemos fazer, tudo podemos construir, e tudo podemos deitar a perder. Mãos à obra ou na massa, não ter mãos a medir, por as mãos no fogo, mão de vaca, abrir mão, ter as mãos atadas, de mão beijada, ter alguém ou algo na palma da mão, ir com uma mão à frente e outra atrás, pedir a mão de alguém, uma mão cheia, mãos de fada e mãos de obra, mãos limpas ou sujas e, até, a mão de deus. Há mãos para tudo, mãos para dizer tudo e o seu contrário, mãos que dão e que tiram, que ajudam e humilham.
No caso de Lula, a falta de um dedo deve-se a um acidente numa fábrica, enquanto ainda era trabalhador metalúrgico. Na verdade, esse dedo em falta é uma espinha encravada na garganta da direita populista, porque é a memória da origem pobre e operária de Lula. É, mais do que isso, um enorme dedo do meio espetado contra a indiferença. A indiferença que, na verdade, sentem muitos daqueles que advogam ser os defensores dos mais pobres e vulneráveis da nossa sociedade.
Mas esse dedo do meio é também o mesmo que se recolhe para se transformar num punho fechado, símbolo internacional dos trabalhadores e da sua luta. São mãos enrugadas, calejadas, endurecidas pelo trabalho. Das empregadas domésticas, dos operários metalúrgicos, dos que aguentam as dores das próprias mãos provocadas pela prestação de cuidados a outros. São as mãos daqueles a quem, progressivamente, temos vindo a negar o valor devido pelo seu trabalho. São mãos a quem muito recentemente nos prestámos a aplaudir: batemos coletivamente palmas aos que se sacrificaram durante a pandemia, mas não fomos tão lestos a usá-las para pedir mais direitos e maior valorização do trabalho essencial que continuam a prestar.
No seu livro sobre meritocracia, que recorrentemente vou citando por aqui, Sandel lembrava como a esquerda americana e europeia tinha deslocado o centro dos seus interesses e preocupações das mãos operárias para as mãos letradas. Que tinha largado a mão dos colarinhos azuis, para ajeitar os colarinhos brancos. É hora e tempo, pois, de emendarmos a mão.
Mas há outras mãos que não podemos esquecer. Há mãos que se abrem e fecham para arrancar os véus que as oprimem. Que usam o engenho manual que têm para cortar o seu próprio cabelo, um incómodo que existe apenas na cabeça daqueles que dele precisam como forma de sobrevivência existencial. Mãos que escolhem a barbárie e mãos que a ela resistem. Mãos que consolam corpos já inanimados e mãos que cavam as sepulturas desses mesmos corpos. E haverá mãos que julgarão aqueles que cometem tais atrocidades, mãos que se juntarão à voz da história na condenação daqueles que se calaram.
E há ainda mãos que operam nas sombras. São mãos que rompem com a sua própria tradição e história democrática. Mãos que antes estavam imunizadas por um cordão sanitário2 e que agora se estendem, a quererem agarrar oportunisticamente certos sucessos eleitorais recentes de quem se coloca fora do sistema democrático. Era esse o compromisso firmado solenemente através de um aperto de mão e que comprometia todas as famílias democráticas europeias. Não se dá a mão a quem as usa para conspurcar os fundamentos e os princípios básicos da decência e da nossa vida em comunidade. Não se permite que mãos sujas pelo peso da indignidade, da exclusão ou da violência possam sequer chegar perto do centro do poder. Sujar as mãos quando se põe a mão na massa é uma contrapartida necessária para se alcançar uma vida mais digna e justa. É a dignidade do trabalho que o assegura. Mas, sujá-las com apertos de mão a quem transporta as nódoas do passado e das páginas mais negras da história é um erro que a todos custará o preço mais alto a pagar. Na Europa ou em Portugal. E da liberdade e da democracia não podemos jamais abrir mão.
1 No sistema de votação eletrónico brasileiro, a cada candidato corresponde um número, sendo o de Lula da Silva o 13.
2 ‘Cordão sanitário’ é a expressão comumente utilizada no Parlamento Europeu para descrever o acordo entre os partidos democráticos para não aceitar acordos com a extrema-direita, não permitir que possam liderar procedimentos legislativos ou não terem cargos de presidência de comissões ou delegações.
- Sobre o João Duarte Albuquerque -
Barreirense de crescimento, 35 anos, teve um daqueles episódios que mudam uma vida há pouco mais de um ano, de seu nome Manuel. Formado na área da Ciência Política, História e das Relações Internacionais, ao longo dos últimos quinze anos, teve o privilégio de viver, estudar e trabalhar por Florença, Helsínquia e Bruxelas. Foi presidente dos Jovens Socialistas Europeus e é, atualmente, deputado ao Parlamento Europeu.