Quando duas pessoas se encontram no tempo e no espaço, o tempo parece esticar até ao limite. Por vezes, até além desse limite. Como se dois corpos gravitassem lado a lado, a caminho de uma certa infinitude. À procura da eternidade. Quando essas duas pessoas se desencontram no espaço, há um pano que cai, uma casa de expectativas que desmorona. Num palco, Joana Castro e Mauricia | Neves revisitam momentos em que o tempo parecia esticar e mostram que não existe uma história única. 

Tudo começou em 2017 quando Joana e Mauricia se conheceram. Estavam em residência artística na cidade de Faro, perceberam logo que não podiam perder o contacto. Durante um ano, foram-se encontrando casualmente. Um encontro maior, íntimo, estava prestes a acontecer. Em Lisboa, os seus caminhos uniram-se. A vida pessoal e profissional começou a entrelaçar-se. Tornaram-se o olhar externo no trabalho uma da outra e decidiram que queriam co-criar; queriam questionar, num espaço performático, os limites do que é público e do que é privado. No trabalho de Joana, a dimensão auto-biográfica estava já bastante presente, na de Maurícia começou a surgir nas suas últimas performances. Mas juntas, pela primeira vez, queriam contar uma história que é das duas, mas ao mesmo tempo não é de ninguém. Mas podia ser de qualquer pessoa.

Há algo de universal em cada história de amor. Qualquer pessoa, a dado momento, se identifica com os seus contornos, inclusive com o seu fim. “and STILL we MOVE” não é a performance que Joana Castro e Mauricia | Neves idealizaram em 2018, mas sim a inevitabilidade do seu percurso. É o amor e o fim do amor, a vontade de agarrar e a necessidade de deixar escapar, o entusiasmo do encontro e a dor do desencontro. 

“and STILL we MOVE” estreou na passada sexta-feira, 8 de outubro, no Teatro das Figuras, em Faro. Um ano depois do fim, a estreia fez-se onde tudo começou. As portas abriram-se para um lugar da intimidade que não é necessariamente de total exposição. Quem é o diz é Joana Castro: “esta peça questiona até que ponto é que isto é meu e sou eu e a minha relação com a Maurícia, ou então não é e já estamos a criar uma nova ficção a partir da nossa realidade”. “Acho que quando estás num processo criativo começas a partir dos teus arquivos, das tuas bases conceptuais e relacionais, mas depois a própria obra, ao longo do processo, vai-se tornando independente. Isso é muito importante numa obra artística”, diz Joana. “Não só é importante como é uma das coisas mais belas, o objeto a falar por si. O objeto em si está a ganhar vida e de repente já não és tu que decides nada”, completa Maurícia.

O rumo que a vida deu

Judith Butler acredita que “o ‘eu’ não tem história própria que não seja também a história de uma relação – ou conjunto de relações – com um conjunto de normas”. Joana Castro e Mauricia | Neves escolhem minuciosamente a sua frase para introduzir o primeiro espetáculo que criam e interpretam em conjunto e, no fundo, para nos introduzir àquilo que são uma para a outra. Outrora corpos diferentes unidos numa só respiração, hoje composição da existência de cada uma. Não são as pessoas que eram antes do primeiro encontro em Faro. Nos seus gestos estão expressões do (fim do) seu amor. Era essa a premissa que se foi alterando. Joana conta que é o processo que mais lhe interessa na criação: “começo por algo que é muito íntimo, muito pessoal, mas depois deixa de ser meu e passa a ser uma outra coisa, independente”. Nesta criação em particular, “cada uma tem o seu processo” e com o fim da relação surgiram residências artísticas a solo, que iam sendo pontuadas com trocas de mensagens com referências que iam surgindo. Antes disso, houve uma residência artística a três, com Vera Martins, responsável pelo desenho de luz. 

“Fizemos essa residência as três juntas durante duas semanas, no Espaço do Tempo, e depois a partir daí começou o processo em separado. A Joana fez umas residências nuns sítios, eu fiz noutros. E íamos comunicando, às vezes: ‘olha acho que isto não está a correr nada bem’ ou ‘isto está a correr bem’; ‘olha, toma lá um poema’ ou ‘aqui tens uma imagem’, ou uma música. Não aconteceu muito frequentemente, porque se não seria quase como estarmos a fazer a residência juntas, mas virtualmente. Era muito lindo quando havia encontros, como ‘ah eu estou a pensar isto assim’, ‘ah eu também’. Era muito bonito quando havia concordâncias ou discordâncias depois de termos estado num espaço sozinhas. Depois, em agosto, voltámos a juntar-nos no mesmo sítio, mas mesmo assim com alguns ensaios em separado e alguns em conjunto. A Joana ficava com as manhãs, eu com as tardes, ou vice-versa, e havia um dia de encontro — aí já no mesmo espaço físico. Na reta final, quando a peça começou a ganhar forma, já estávamos juntas”, explica Maurícia.

Quando a relação acabou e tiveram de perceber qual seria o rumo da peça, perceberam que de facto tinham visões diferentes da mesma história. No fim do amor, as fronteiras entre ‘o eu’ e ‘a outra” pessoa tornam-se mais evidentes. Num exercício em que leram “Final do Amor”, de Pascal Rambert, a tensão existente na sala de ensaio trouxe respostas para as dúvidas sobre o que fazer com esta peça que, de repente, parecia ter perdido o sentido. Na verdade, foi a vida que lhe deu outro sentido. “A história não é só uma. Toda a história tem os seus contornos e as suas perspetivas, nunca podemos falar de uma, mas sim de várias histórias, porque as visões são sempre muito diferentes a partir de cada subjetividade. Percebemos isso no exercício com ‘Final do Amor’, isso interessou-nos e foi uma espécie de input para percebermos que cada uma tinha de escrever a sua história. E cada uma tem que falar sobre a sua história e sobre o seu lugar nesta relação”, explica Joana Castro.

Em conjunto com a paisagem sonora criada por Daina Dieva, em palco estão as vozes de Joana Castro e Maurícia | Neves. A palavra ocupou um lugar central nesta criação pelo seu poder catártico —  e, no fundo, por toda a dimensão de comunicação que existe a cada início e a cada fim. Por norma, é Maurícia quem começa pela palavra nos seus processos criativos — para Joana, tudo começa no gesto. Em “and STILL we MOVE” começaram em sintonia. 

Maurícia | Neves costuma deslocar-se a pé. Enquanto caminha, ouve música e pensa. Foi nessas caminhadas que algumas das ideias para esta criação surgiram; quando chega ao estúdio, o aquecimento mental já foi feito. Mas foi num ensaio que, ao olhar para Joana, pensou numa frase que acredita resumir o que sente em relação a esta partilha que agora fazem com o público: “o tempo que não tivemos é o tempo que vos estamos a oferecer”.

O tempo. Há muitos tempos que se vivem numa relação e que aqui surgem na voz, na palavra, nos gestos. Havia, na criação do espetáculo, uma intenção de “estender uma eternidade qualquer, que depois acaba por encontrar a sua interrupção na separação”, diz Joana. “O corpo continua, de alguma forma, nesse lugar. Isto interessou-nos porque o que permanecia ligado à peça que começámos ainda quando estávamos juntas era essa necessidade de permanência. O corpo em permanência. Na residência artística em Nida fazíamos muitas caminhadas e íamos encontrando caracóis, que naturalmente nos punham a pensar na sua lentidão— há uma outra experiência do que é a vida sendo um animal lento e que deixa um rasto. Isso veio connosco: a lentidão, a necessidade de permanecer, o prolongamento do gesto como uma resposta ao mundo lá fora, em que há constante mudança, constante informação e transformação. Parece que nada consegue permanecer e só estar.”

Esta reflexão sobre o tempo é, afinal, universal. Deixa de ser sobre Joana e Maurícia, e passa a ser sobre todas as pessoas que com ele se relacionam. “Sentimos que não há tempo para nós, não há tempo para estarmos em conjunto, não há tempo. A palavra é muito fácil, teorias e coisas que gostávamos de pôr em prática, mas o corpo pode não as acompanhar. É muito difícil pôrmos em prática a nossa ideia de relação, seja ela amorosa, familiar, com amizades ou connosco próprias. Temos esta ideia de desconexão perante o que nós queremos ou aquilo em que acreditamos, e que colocamos em palavras, mas que não fazemos com o corpo; essa desconexão tem, para mim, muito interesse de ser explorada aqui”, conta Maurícia. 

Estrear a sul 

Na primeira vez que estiveram juntas em Faro, Maurícia e Joana ainda não eram um casal. Na última vez que o fizeram, nestas últimas semanas, já contavam um ano desde que as suas vidas seguem rumos diferentes, mesmo que ligadas pelos fios que sustentam esta criação. Esta estreia é, por isso, simbólica, mas surgiu como mera coincidência. Nos dias 15 e 16 de outubro, estreiam em Lisboa, cidade que é “uma segunda casa” para Mauricia, que é natural de Portimão, e onde começaram uma relação de intimidade. “Tenho muita pena de não apresentarmos ‘and STILL we MOVE’  no Porto, para já, porque de facto é a cidade em que vivemos em conjunto”, partilha Maurícia. 

Para Joana, estrear na BoCA - Biennial of Contemporary Arts é também bastante simbólico: “o fim do amor é comum a toda a gente, e nós estarmos na BoCA Prove You Are Human, de que forma é que nós poderíamos falar sobre a humanidade sem falarmos de amor?”

Joana Castro sente que quem está do lado de lá do palco se relacionará de alguma forma. Está certa de que: “Ou de um ponto de vista ou de outro, vai haver sempre alguma coisa que as vai levar [às pessoas que virem a peça] a um passado, ou a um presente, de uma relação qualquer. De alguém que ficou, de alguém que abandonou, de alguém que morreu. É algo totalmente universal que vai apanhar qualquer pessoa no caminho. Acho que não há pessoa alguma que possa dizer que nunca amou ou que nunca foi amada.” 

Estrear em Faro é também furar uma rotina do circuito, que dita que as grandes estreias se fazem em Lisboa e no Porto. Nisso, Maurícia e Joana estão de acordo: é preciso descentralizar, educar públicos, sair do ciclo vicioso. É preciso criar valor sem viver refém dos valores ou de destaques em jornais: “é importante percebermos que o sucesso não está no resultado ou na satisfação de quem investe financeiramente, o sucesso está sim em permitirmos as pessoas desenvolverem o seu trabalho”, sustenta Joana.

Há quem corte fotografias para marcar o fim de uma relação. Há quem as apague, na era das redes sociais. Joana e Maurícia olham-nas e lembram o que foram juntas e o que são separadas. Não querem fugir à(s) história(s). “and STILL we MOVE” passa pelo Teatro Taborda nos dias 15 e 16 de outubro, às 19h00. 

Texto de Carolina Franco
Fotografias de Catherina Cardoso
A BoCA é parceira do Gerador

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