Leitura, latim tardio lectura, do latim lectio, -onis. Segundo nos diz o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, a palavra leitura provém do verbo ler, legere que, originalmente, tem um significado descendente da arte de “cultivar, colher e recolher”.

Marta Costa, jovem apreciadora de “riquezas literárias” que, segundo a própria, hoje em dia, escasseiam, não nos locais em que se compram, mas na curiosidade e no tempo a que se dedicam, viajou connosco por Lisboa, partilhando os espaços que considerava serem “uma porta aberta para todos os mundos” e um poço de leituras – os Alfarrabistas.

Da Livraria Campos Trindade, na qual se destacam as letras grandes da palavra “Alfarrabista” na porta principal, à Bizantina, que se estende pela Rua da Misericórdia e a Rua das Portas de Santo Antão, as pessoas entram e saem — em tempos bem mais do que agora.

“Lembro-me de sair do Norte e vir com os meus pais a Lisboa para assistir a apresentações de livros, isto em 1991, por aí. Entretanto, o meu pai imigrou e eu não tinha propriamente quem me acompanhasse. Na verdade, o gosto pela literatura sempre foi mais por parte do meu pai do que da minha mãe. E, por isso, as idas às conferências acabariam por terminar mais cedo ou mais tarde. A minha mãe não tinha muita paciência, muito menos depois de ele ir embora”, começa por contar-nos Marta.

Não conseguindo partir em busca de algo novo, começou por procurar os livros de que o pai falava e que, na altura, dizia serem do “seu tempo”, “acho que foi aí que começou, de facto, o meu contacto com a ida aos alfarrabistas, de grosso modo”, afirma.

Algumas vezes confundida com uma colecionadora, a jovem partilha ainda não o ser — “digo isto, porque o que ‘coleciono’ é o conhecimento. Não me importo de ler um livro que já tenha sido utilizado há vinte anos e que hoje em dia pouco vale pelo seu tempo de vida, por não ter uma capa grossa, com um acabamento visual incrível”.

Por entre diversas caraterísticas, Marta refere uma que não passa despercebida: o cheiro. É este o “sintoma” sensorial que ela tanto sentiu falta durante os dias de quarentena. Não se tratava do cheiro dos livros antigos, perdidos por entre uma pirâmide composta por muitos outros, mas pelo cheiro dos espaços, “recordo-me tanto da neblina quase a bater na porta da Camões [livraria] e o perfume que só aquele espaço tinha e, não, não era cheiro a velho”, partilha.

A livraria Camões é uma das várias que se localizam na Rua da Misericórdia, em Lisboa. Dedicada ao poeta português, foi fundada em 1972 por Lopes Holtreman, especializado em obras portuguesas do século XVI e XVII, e amante da literatura do autor Luís de Camões, do qual guarda um tesouro bibliófilo composto por uma coleção de vinte e um bustos de Camões, cerca de quatrocentas medalhas sobre o poeta a que se dedica e, ainda, cento e quarenta e quatro medalhas de autores diversos.

Assim como Marta, rapidamente se percebe que os Alfarrabistas, além de um ponto de viragem, representam a vivacidade da literatura e da leitura, não só pelo seu conhecimento e as palavras, como também pelo colecionismo e pela obra de arte em que se torna.    
Partindo desta realidade, viver em pandemia nestes pequenos espaços, com uma bagagem de centenas de anos, não é tarefa fácil.

Depois das medidas decretadas em março de 2020, houve uma queda significativa da venda de livros em vários países. Portugal não foi exceção. Segundo os estudos de mercado da GfK, entre os dias 16 e 22 de março, registou-se uma queda de 63,3% em comparação com o ano anterior.
Implementadas novas medidas, apenas em setembro do mesmo ano o estado decretou a possibilidade de colocar novamente as “bancas à porta”, para que fosse possível o acesso e consulta de livros, sem que as lojas ficassem sobrelotadas, de acordo com as medidas da Direção Geral de Saúde (DGS).      
As bancas já se montavam à porta da livraria Bizantina. Rapidamente se percebia que pertencia a um Alfarrabista. Perto da entrada principal viam-se livros organizados em estantes, cada um na categoria a que pertencia. No centro, estava uma remessa de livros de diferentes gostos e géneros literários que assinalavam o preço de um e dois euros. 
Assim como a diversidade de géneros, também se apresentavam diferentes pessoas e conversas. Ouvia-se uma jovem e a funcionária a conversarem sobre política portuguesa. Este foi o balanço perfeito que nos levou a discutir sobre literatura e a sua importância na construção da sociedade.

Por entre uma troca de palavras, entravam vários jovens e adultos que questionavam a venda dos seus livros, isto é, como levá-los para “lugar nenhum”, mas o expert nessa função é Carlos Lourenço Bobone, livreiro e alfarrabista lisboeta que, tal como a funcionária referiu, é “este o senhor que, melhor do que ninguém, pode falar consigo sobre os alfarrabistas e os livreiros de Lisboa”.

Interrompidos pela análise de dois livros, com um título pouco visível, mas que, ao que tudo indicava, pertenciam à história e à política, falamos sobre o presente.

Carlos afirma que foi muito complicado gerir todos os acontecimentos, “no início do ano, antes de tudo isto acontecer, estávamos [alfarrabistas, no geral] muito bem. Contribuía-se para a prosperidade. No entanto, quando a pandemia chegou foi quase impossível gerir tudo isso. Temos aguentado sim, mas muito devido aos recursos que tínhamos anteriormente que, como disse, foram fruto da prosperidade inicial.”

Acreditando que a leitura durante todo este período foi, de facto, um refúgio para a população, mesmo aquela que não lê, mas compra, “isto porque num alfarrabista é necessário fazer a diferença entre a compra e a leitura”, reconhece. Os leilões online foram reflexo de tal, quer para os leitores quer para os colecionadores: “Os leilões online estão a ter cada mais embalo, assim como os alfarrabistas que conseguiram, a partir de um certo momento, começar a vender pela via online, o que, em parte, só dificultou os que apenas expunham em feiras e que ficaram em suspenso durante um longo período de tempo.”, completa.

Carlos conta-nos que há uma base no colecionismo que se trata, muitas das vezes, quase como uma obra de arte — “temos os alfarrabistas tradicionais e o colecionista, o que significa que efetivamente o colecionista é um investidor que não procura livros apenas pela leitura. Um dos nossos colecionadores mais astutos tem uma biblioteca com cerca de 40 000 livros e, maioritariamente, nunca os leu”, reconhece.

Com duas lojas dedicadas aos livros e à literatura, nascidas em 2003 e 2005, o alfarrabista notou uma evolução ao longo dos tempos na importância da palavra nos mais diversos géneros. Os que mais se vão destacando são essencialmente os temas Clássicos, a Literatura Portuguesa tradicional, o entendimento da Ciência Oculta, História e Culinária Antiga.

Voltando ao cheiro que Marta referiu, na Bizantina, era algo que acontecia com quem entrava: respiravam fundo, pausavam e procuravam algo novo, mesmo que não o fosse.

Com um cartaz de compra de livros usados bem destacado na parede frontal, virada para o leitor, a segunda vida é um destino que quase sempre acontece nos livros que entram naquele espaço. Para os que vão e para os que lá ficam.

Texto por Patrícia Silva
Fotografia via Unsplash

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