É no Teatro do Bairro Alto (TBA) que viajamos até àquele que seria o dia-a-dia de Grover's Corners. "Fictícia" é esta cidade de Nova Inglaterra que, no início do século XX, nos conduz a três atos em que a experiência humana do tempo, o quotidiano, o amor e a morte são o mote para juntar três companhias de teatro numa black box.
Auéééu-Teatro, Os Possessos e a Teatro da Cidade dão vida, corpo e alma a "A Nossa Cidade" até dia 18 de julho.

Assim como a resistência que se faz sentir na Grover's Corners, a "A Nossa Cidade" não se deixou adormecer, após o adiamento da sua exibição em janeiro de 2021, dada a realidade pandémica que se fazia ouvir nessa mesma altura.
Pensar numa cidade "a várias mãos para nos vermos nela" mostrou-se um princípio que, agora, questiona, dialoga e observa, através de três companhias, o teatro, a cidade e a forma como os mesmos se relacionam.

A peça de Thornton Wilder tem o primeiro contacto com as companhias através de Francisco Frazão, atual programador do Teatro do Bairro Alto. Beatriz Brás e Sérgio Coragem, pertencentes à companhia Auéééu-Teatro, partilham que a peça não os "seduziu" de imediato, "confesso que, inicialmente, não nos seduziu particularmente uma vez que é uma peça que reporta a uma realidade um pouco datada, do início do século XX, com questões relacionadas com uma pequena cidade americana e que, ao início, não nos atraiu ao ponto de termos vontade de dizer logo que sim", afirma Beatriz.

No entanto, ambos concordam que o desafio acabou por se tornar apelativo e a vontade de estarem todos juntos, nesta que se afirma como uma " aventura" permitiu que a peça se fosse revelando, "o que acabou por ser interessante neste projeto, porque foi descobrir precisamente o fascínio de uma forma gradual, ou seja, à medida que os ensaios iam passando parece que, cada vez mais, dizer aquelas coisas que outrora nos pareceu tão banais e tão simples, acaba por ser de certa forma um fator importante e interessante, essa simplicidade. É algo que, nós, muitas vezes nos esquecemos, até mesmo de propor nos nossos projetos e espetáculos", acrescenta Sérgio.

"podemos facilmente fazer o paralelo com a nossa realidade, uma vez que somos três jovens companhias de Lisboa num teatro antigo Teatro da Cornucópia". - Beatriz Brás

Abordar o amor, o casamento, a morte e as heranças - numa ótica de conhecimento e geracional - permite construir em torno da "A Nossa Cidade" um conjunto de referências temporais, geográficas e sociais, ainda que numa realidade inventada, transportam em si todos os aspetos importantes de serem invocados numa vida urbana, durante os anos de 1901 a 1913.

Beatriz reconhece ainda que esta relação com a herança transporta-se até para o "nosso presente", "podemos facilmente fazer o paralelo com a nossa realidade, uma vez que somos três jovens companhias de Lisboa num teatro antigo Teatro da Cornucópia e, portanto, há também uma herança teatral, peso teatral, inerente ao espetáculo".

Além deste "teatral", a atriz considera ainda que há também um "peso social". As questões sociais que a peça aborda revelam-se transversais a qualquer tempo, desde os conflitos familiares, os impasses aos amores. "Essa é também uma das belezas deste encontro: a diferença. A divergência que quisemos, desde logo, preservar. Aliás é habitual pelo, menos na nossa companhia, preservamos muito essa essa componente e, aqui, foi ainda mais desafiante". revela.

Durante a sua encenação e interpretação, as companhias tiveram total liberdade de organização e construção teatral. Por momentos, colocou-se 'em cima da mesa' cada companhia interpretar um ato, ainda assim, rapidamente perceberam que o desafio faria ainda mais sentido se contracenassem juntos.

Por parte de Os Possessos, Catarina Rôlo Salgueiro conta-nos que, "decidimos que o mais interessante nesta proposta era de facto as três companhias criarem o espetáculo do início ao fim, em conjunto, por mais desafiante e difícil que isso possa parecer. Acredito que tenha sido, por vezes, mas acho que essa foi das missões mais desafiantes ao longo do processo e foi aquilo a que nos propusemos e que conseguimos fazer".

Guilherme Gomes reflete que no que toca ao processo de criação é importante convocar o conceito de confiança.

Já Guilherme Gomes, um dxs artistas que integra a companhia Teatro da Cidade, reflete que no que toca ao processo de criação é importante convocar o conceito de confiança, "acima de tudo, num projeto com este tipo de complexidade de organização, ou seja, com esta ausência de uma direção focada num só, não só no que toca a elementos do grupo, como de toda a equipa artística que acaba por estar envolvida em cena. A ideia de confiar no olhar do outro acaba por ser muito importante para existir uma mensagem importante a transmitir", afirma.

Resgatar a memória é também um exercício evidente na peça. As referências cromáticas que constroem cada personagem, a entrada sonora que se dissolve ao longo dos atos e a representação icónica e social que se vai difundido com as personagens que compõem as diferentes histórias de vida de cada uma das famílias que completavam a vizinhança, permitem construir essas diferentes buscas que se vão entrelaçando ao longo da peça.

De diferentes visões, leituras, pessoas e ainda de confiança, o palco do TBA se enche. Bebendo de ensaios de diversas metodologias, xs artistas reconhecem que todo o seu trabalho termina em grande riqueza.

Partindo de um espetáculo que rompe paradigmas em diferentes campos como a construção de cenários, "não existe ou não existem objetos em cena que se possam manusear e tudo algo é mimetizado pelos atores", explica Beatriz, Thornton Wilder propôs-se a imaginar uma peça que retirasse objetos fisicamente do alcance dos atores, para "que eles se tornam mais visíveis ainda." É sobre a importância do olhar que se pensa e fala.

A peça estará em exibição até dia 18 de julho, tendo estreado a dia 8 do mesmo mês, de terça a domingo. Podes consultar horários e comprar bilhetes aqui.
Haverá ainda, dia 12 de julho, um espetáculo reproduzido via digital, por Zoom, para o CLUBE ESPECTADOR DIGITAL e uma sessão com audiodescrição e interpretação em Língua Gestual Portuguesa, no dia 18 de julho.

Em tempos colegas de escola, hoje, artistas e colegas de ofício, Auéééu-Teatro, Os Possessos e Teatro da Cidade, partem para uma viajem no tempo cujo rumo passa por filosofias, teatralidades, memórias e descobertas sociais.

Texto por Patrícia Silva
Fotografias da cortesia do TBA

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