Há cinco verões que Laura Marques sobe aos alpes suíços e ali vive como guardadora de vacas. Entre o cenário sublime e a rotina laboriosa, pôs-se a refletir sobre a relação de poder entre homem e animal. E a filmar. “Vacas e Rainhas”, o seu primeiro documentário, percorre agora os festivais europeus e estreia entre nós no Doclisboa. Subimos a montanha para interromper a sua eremitagem estival e conversar sobre ser animal e esquizofrenia criativa.


A minha arfante ascensão noturna do alpe de Breona quase esbarra no vulto negro: uma vaca impávida, altiva e enorme corta-me o trilho. Refeito do susto, desfeito em suor, retomo o passo. Lá no alto, entre as estrelas cada vez mais mais próximas, destaca-se a luz solitária do refúgio onde vive a jovem portuguesa. A pastora.

Foi do inusitado encontro entre Laura Marques e as vacas Herens que surgiu “Vacas e Rainhas”, o filme que estreia dia 24 de outubro no Doclisboa. Desde 2012 que, quando tantos lisboetas traçam o roteiro de festivais e aventuras de verão, a jovem natural de Leiria sobe os alpes suíços e pega no cajado. Pelos prados descobertos em flores e erva fresca, cuida dum rebanho até ao regresso das neves.

Estamos no interior remoto do país do LSD e das alucinantes contas bancárias e empresas multinacionais. Aqui, estes são os animais mais valiosos e acarinhados, usados em combates para coroar uma vaca rainha.

É um dos primeiros dias de outubro e Laura já completou três meses de eremita. Desperta antes do sol para subir ao prado. A contagem diária é mais fácil quando ainda estão a dormir: 130 vacas, somados os nascimentos e subtraídas as mortes.

Contando vacas. À esquerda as simmental, vacas leiteiras, à direitas as herens, vacas de luta. 

“Num alpe anterior tirei uma fotografia duma vaca a olhar para as montanhas. Era como aquelas imagens do romantismo, do Friedrich, em que está um homem a contemplar a paisagem. E ela parecia imenso nessa possibilidade de contemplação”. Decidiu que poria uma câmara na cabeça duma vaca – e foi esse o ponto de partida para o filme, trabalho final do mestrado em antropologia e culturas visuais na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH).

No ano seguinte regressou com duas câmaras que mal sabia utilizar. O papel de pastora tinha prioridade: sempre que havia um afazer importante a câmara ficava de lado. “Não tinha eletricidade. Tinha duas baterias, e dava uma à pessoa que me trazia comida, para carregar lá em baixo. Era quase editar filmando.” Laura nunca tinha feito um filme. À luz da frontal e das velas a desfazer-se sobre garrafas de cerveja suíça, buscou respostas e inspiração nos escritos do cineasta alemão Werner Herzog e do realizador e etnólogo francês Jean Rouch.

Amigos dir-lhe-iam mais tarde como é raro um filme sem uma produtora ser visto e aceite em festivais. Laura ainda não percebe bem para que serve uma produtora. “Eu curto fazer erros, sabes? E não ter de comunicar logo tudo a alguém. Ainda estás a macerar e nem sabes muito bem como comunicar através de palavras. Tens só de fazer e experimentar.”

“Vacas e Rainhas”, © Laura Marques 

Em abril, “Vacas e Rainhas” estreou no festival suíço Visions du Réel, e Laura, surpresa, trouxe para casa o prémio de melhor filme na secção ‘primeiros filmes’. O prémio consiste na possibilidade de realizar um filme na Roménia no próximo verão e significa sobretudo “mais oportunidade para receber apoio financeiro e fazer as coisas que queres realmente fazer.” O documentário está por estes dias a ser exibido na Turquia no Bozcaada International Festival of Ecological Documentary, e foi selecionado para o Festival Internacional Jean Rouch, no Museu do Homem em Paris.

Quem controla quem?

O surrealismo e a etnoficção de Jean Rouch foram a grande inspiração para “Vacas e Rainhas”. “É pensar que a ficção revela mais verdades que o documentário observacional”, conta Laura. “O filme girou à volta da questão da domesticação: como é que eu posso controlar um grupo de vacas. A dado momento há esta tentativa de aproximação, de eu ser uma vaca, e ver se me aceitam como líder da manada. Noutro, há este jogo: ver de maneira humana como posso fazer a ascensão para o poder. A minha ideia era humilhar a vaca rainha em frente às outras. Quando ela perdeu o chocalho, disse: ‘A rainha vai nua!’. Só que as outras ignoraram completamente”, ri-se. “E acabar por perceber que isto é tudo um longo processo de domesticação, gerações após gerações. Estou só de alguma forma a representar uma espécie.”

As leituras para a tese de mestrado mergulharam-na no tema da domesticação: um mundo e uma porta aberta para a reflexão sobre o que é ser animal. “Durante muito tempo foi pensado que a domesticação animal era uma invenção do homem, com esse orgulho do controlo do homem sobre a natureza. Na verdade, em teorias bem recentes, é algo mais bidirecional, o animal só se submete ao homem porque tem alguma vantagem”. No início do neolítico, a era glaciar e o cultivo de plantas retirara área de habitat aos animais, e essa possibilidade de simbiose com o homem era um modo de auto-preservação de algumas espécies.

“Vacas e Rainhas”, © Laura Marques 

Laura fala-me de anthropology beyond humanity e multispecies ethnography – tentar incluir o método etnográfico para um conhecimento do todo. “Houve alto debate sobre a utilidade do conceito de cultura em antropologia, enquanto que na biologia começaram a usá-lo para falar de sociedades animais outras que a humana. Há provas, até agora, da existência de cultura – como reprodução de comportamentos aprendidos em sociedade – nalgumas espécies de peixes e pássaros.” Fala-me de zoomusicologia. “Estudos com a baleia-jubarte, e também com pássaros, mostram que o canto é ensinado de geração em geração, mas cada indivíduo vai mudando a sua própria canção, e não parece ser por questões de conteúdo – mas de forma e de estética. Fala-se de uma possível criatividade e composição.” Fala-me do perspetivismo de Viveiros de Castro e das cosmologias dos povos ameríndios: o mundo é povoado de muitas espécies de seres dotados de consciência e de cultura; cada espécie vê-se a si mesma como pessoa, e todas as outras como animais ou espíritos.

“É o oposto do nosso pensamento. É mesmo bonito perceber que tudo depende do lugar que ocupas enquanto corpo físico. Que o homem não é homem como uma coisa estanque, isolado de relações – só existe na relação com as outras espécies, mesmo as bactérias que temos nos intestinos. Trata-se de retirar o homem do centro do mundo e das capacidades. Abalar essa ideia de controlo e supremacia.”

Sento-me numa bosta de vaca seca a contemplar a vertigem verde, o dorso da montanha adoçado pela memória dum glaciar, num repouso de berço. Digo à Laura que não consigo realmente enxergar a beleza de tudo isto: mantém-se carta postal diante dos meus olhos. “É isso o sublime”, responde-me. “Gosto de fazer as vedações, ir com os meus passos, reconhecer o território e reconhecer-me nele.”

Procurando corças e marmotas entre a vertigem verde. Ao fundo, velado pela bruma, repousa o glaciar que esculpiu todo o vale.

O quotidiano de pastora mostrou-lhe quão dúbia pode ser a questão de quem tem controlo sobre quem. “Quando és pastor, querendo ou não, os animais estão sempre na tua cabeça. São eles que controlam o teu pensamento!” No filme há também esta auto-ironia: uma das imagens mais bonitas não foi filmada pela Laura. “Tens uma câmara toda xpto, escolhes os planos e gravas, depois pões uma câmara numa vaca e ela bate-te nessa possibilidade de criar uma imagem, um olhar mais interessante que o teu.”

“Komm hier, komm!”, chama a pastora em alemão. A relação com as vacas redunda nas questões da violência e do respeito. Se reconhece a importância do cajado, que representa superioridade e força, o mais importante é “perceber que há uma comunicação possível, e estar a atenta ao que elas querem dizer. Que há uma vida interior nas vacas, não são só coisas para serem controladas e consumidas. E tentar pôr-me na posição delas. Se não vejo alguma, penso ‘se eu fosse esta vaca, onde estaria?’”

Entre campos

“On vera tout ça” (logo se vê), diz repetidamente Henri. “Não é procrastinar, é uma coisa de cada vez, com calma”, esclarece Laura. É o chefe do alpe e a única pessoa que ela vê regularmente. Fala patois, língua local em extinção, tem 69 anos e parece viver em permanente lavoura. “Quando falas às pessoas daqui das coisas que fazes na cidade, não é trabalho, estás só a divertir-te. Aqui é o mundo da agricultura, da montanha, do fazer, do pessoal rijo, que não pensa muito na criação, na contemplação. O lado da cidade é mais propício a divagar, experimentar, teorizar – às vezes demasiado. Há sempre esses dois mundos a colidir: teórico e prático, criativo e funcional.”

Também Laura vê em si duas identidades. “Bué pessoal não conhece a Laura pastora, e faz uma idealização. E às vezes sinto falta de ser a Laura pastora na cidade também. Há uma cena de mais plenitude quando cá estou.” Cada subida ao alpe é pôr a vida em perspectiva: quais são as pessoas que são importantes, as coisas que a movem, o que quer realmente fazer quando voltar. Cada regresso a Lisboa é a tentativa de concretização.

“Ser pastora não é um talento, é uma coisa que estou a aprender um bocado a ferros. Não sou uma super pastora, tenho noção das minhas limitações. Mas foi uma coisa que se proporcionou. E há outras para as quais tenho talento e que ainda não se proporcionaram. Tenho talento para a criação, tenho criatividade e imaginação.”

A vaca Herens e a Laura.

“Vacas e Rainhas” é o sinal de que os mundos se estão a juntar. Ao ponto de ter desistido duma cobiçada bolsa de doutoramento, para “investir nas coisas que estão a desabrochar.”

Em maio, numa exposição com o coletivo West Coast, sabia que queria fazer algo com têxteis. “Fiz um bordado dum pássaro que está em vias de extinção. De repente era uma camisola e tive de usá-la também. Acabou por ser uma performance. Nunca tinha usado o corpo para expressar uma ideia perante outras pessoas.”

A música improvisada começou com Fenómeno. Ao público pede que faça desenhos livres. Estes desfilam na parede através dum projetor da sua autoria. Munida da voz e dum pedal de loops, ela improvisa a música. Laura é agora presença assídua em jams e no MIA – Encontro de Música Improvisada de Atouguia da Baleia. “Há pessoas que têm pânico de improvisar e curtem saber do início ao fim o que estão a fazer. A mim é isso que me dá mais pânico: de certeza que vou falhar nalguma cena. No improviso não há forma de falhar! É a coisa do momento, é bué verdadeiro, é comunicação com as pessoas com quem estás a tocar.”

Antes visitara hortas por todo o país, e transformou cada uma numa composição musical, através dum código que inventou e que fez dos meses do ano compassos e dos legumes notas.

Às páginas do Jornal Mapa leva as suas ilustrações.

E quer já lançar-se no seu segundo documentário: sabe apenas que será sobre vigias florestais.

“Há quem passe três meses a escrever um projeto para se candidatar a um fundo, eu passo três meses a trabalhar num alpe. É a maneira que tenho para me libertar monetariamente para fazer as coisas que quero fazer na cidade. Às vezes não te apetece justificar – apetece-te só fazer. E não sabes ainda o que vai ser, é só um feeling, um instinto. É um problema do movimento de arte conceptual dos últimos tempos: tudo o que fazes tem de ser justificado teoricamente. Mesmo antes da obra existir já tem de haver um conceito, uma explicação. E isso quebra e restringe a criatividade.”

Retirando as vedações elétricas. O alpe despe-se de traços humanos para receber o inverno.

Laura não sabe o que a levou ao mundo das artes, mas sabe o que mais aprendeu: o método de improviso, reagir criativamente às condições da vida. “Pôr-me nas situações e perceber o que elas me pedem. Às vezes é um bocado esquizofrénico, porque não sabes bem qual é realmente a tua habilidade. Qual é a coisa em que se brilha? A minha esperança é que quantos mais anos viver mais me vou aproximar e perceber quais são os padrões, qual a coerência disto tudo.”

Entretanto, procura seguir a sua intuição e alastrar para a vida toda a experimentação. “A vida como obra de arte total. Como é que tornamos o ato de beber café uma cena que faz parte da tua obra de arte, desta obra de arte que és tu? A tua vida enquanto constante possibilidade duma coisa excecional.”

O vento vem dos vértices nevados e anuncia o inverno. No alto de Breona, é tempo de desfazer as cercas elétricas, limpar os estábulos dos restos de merda, palha e placenta. Deixar a lenha empilhada, o cajado à porta e uma garrafa de ginginha para o próximo pastor.

Empilhando madeira. No próximo ano, aconhegará em chamas o interior da cabana.

As negras vacas Herens mugem a despedida e descem para o vale. É o manso regresso à clausura dos seus donos.

A Laura entra num pequeno jipe. “Voltas para o ano!”, sorri o Henri.

“Para o ano falamos”, responde, “agora só quero descer!”

Lá em baixo, há um mundo inteiro para criar.

Texto e Fotografias de Francisco Colaço Pedro
O Gerador é parceiro do Doclisboa

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