O espírito andava inquieto e não sabia qual o caminho a seguir na sua vida. Sempre lhe tinham dito que era por causa do seu cabelo vermelho. As ruivas têm sempre dilemas, dizia-lhe a avó Helena. E quando a avó partiu ouviu o mesmo da mãe: A tua avó é que tinha razão, as ruivas têm sempre dilemas

Irritava-a profundamente esse rótulo. Não gostava nada que etiquetassem pessoas e estados de alma. E detestava, em especial, que o fizessem consigo. Infelizmente, acontecia muitas vezes. Quando estava triste, perguntavam-lhe se estava deprimida; quando estava alegre, diziam-lhe que talvez fosse bipolar; quando lhe apetecia uma refeição feita à base de legumes, era porque queria ser vegetariana; se ia a uma manifestação, era de esquerda; se bebia uma cerveja, ia acabar alcoólica. Não era fácil ser jovem adulta a viver na casa dos pais. Provavelmente desejavam que tivesse feito “tudo certinho” e se fizesse à vida. Mas, perante todas as iniciativas que teve, como começar a trabalhar em part time ou partilhar casa com amigos, diziam-lhe: não te ponhas com aventuras, pois isso vai acabar mal

Queria ser veterinária. Tinha a certeza absoluta, embora tivesse tirado o curso de história, convencida de que o seu melhor destino seria esse. Ainda não o tinha acabado quando se apercebeu de que estava a cometer um erro enorme. Tinha pouca pachorra para aturar adolescentes, era tímida e imaginar-se com uma turma à sua frente aterrorizava-a. Não teve coragem de dizer aos pais o que se passava. Eles não compreenderiam. 

Nas horas vagas, tinha-se oferecido para cuidar e passear cães abandonados numa Associação perto da faculdade. Duas vezes por semana, levava-os a passear. Sentava-se no grande relvado da Alameda e treinava-os com bocadinhos de frango cozido do tamanho de uma ervilha.

Senta, deita, dá a patinha, rebola, salta, abraçinho, turra com a cabeça e assim por diante. Todos a adoravam e, quando a viam, saltavam e pulavam de alegria. E ela, sentia-se feliz. Compreendia-os e sentia-se compreendida. Foi nessa altura que conheceu a Chocolat, uma cadela castanha muito doce e meiga. Sempre que aparecia na Associação, aproximava-se dela com um jeito que a deixava comovida. Cheirava-lhe os bolsos e sorria. Instinto de cão.

Certa vez, telefonaram-lhe dizendo que a cadela estava doente. Também ela estava doente. Não sabiam o que era, talvez fossem saudades.  

Mal ficou boa, correu para a Associação. Sabia o que fazer. Instinto de mãe. 

A entrada daquela cadela na sua família teve um poder conciliador inesperado. Os pais deixaram de a chatear e ela deixou de se entristecer.  

Novas rotinas trazem novos amigos. Começou a frequentar o bosque para passear a Chocolate e a dar-se com outras pessoas que também levavam os seus cães a passear. Tinha um carinho especial pelo rapaz do cão preto, sempre bem-disposto e falador, que gostava tanto de animais como ela. Chocolat também se dava bem com Noire, embora não tivesse arcabouço para grandes correrias. Preferia roer um ramo de uma árvore e, se ninguém reparasse, comia-o todo. 

A inquietude daquela manha fê-la tomar um percurso diferente para o parque. Nunca tinha reparado nas cerejeiras em flor. Gostaria de as ter ficado a admirar por mais tempo mas Chocolat estava impaciente... Estava explicado! a Angie já lá estava à sua espera. Minutos depois, também Noire e o seu dono se juntaram. 

A confusão estava instalada. Entre pulos, saltos e lambidelas, deu por si caída no chão. Não sabia se era da queda, mas o cenário era magnífico. Centenas de flores brancas esvoaçavam pelo ar e, ao seguir-lhes o rasto com o olhar, avistou uma senhora sentada debaixo de uma cerejeira. Estava coberta de flores e, à sua frente, encontrava-se um homem alto e belo, de gabardine amarela, e com um ramo de flores na mão. Estaria a sonhar?

(continuação da história anterior - quarta parte)

-Sobre a Marta Crawford-

É psicóloga, sexóloga e terapeuta familiar. Apresentou programas televisivos como o AB Sexo e 100Tabus. Escreveu crónicas e publicou os livros: Sexo sem TabusViver o Sexo com Prazer e Diário sexual e conjugal de um casal. Criou o MUSEX — Museu Pedagógico do Sexo — e é autora da crónica «Preliminares» na Revista Gerador.

Texto de Marta Crawford
Fotografia de Diana Mendes