Colocou as fotografias de família todas dentro de uma caixa e os documentos importantes numa outra. Respirou fundo, olhou pela janela e percebeu que o sol já tinha nascido.

No dia anterior, tinha estado a ver um documentário sobre o comportamento dos seniores nos países nórdicos, que tinham uma forma de encarar o fim da vida curiosa e muito diferente da dela e dos portugueses em geral. Começavam a organizar a casa e a destralhar tudo para que, um dia, quando a morte os chamasse, deixassem a casa em ordem e, assim facilitassem a vida de filhos e netos.

Sentia-se muito longe dessa filosofia. Filha de uma geração em que a escassez predominou e tudo era aproveitado para um fim qualquer, não deitava nada fora - tudo poderia ser útil num futuro próximo e tudo tinha um significado. Com este espírito, tinha-se transformado numa espécie de recolectora e, isso nunca tinha sido um problema. Para executar as tarefas de organização de que sempre precisou, tinha empregadas ou, como gostava de lhes chamar "os seus braços direito e esquerdo". 

A partir do momento em que os filhos saíram de casa, que o marido faleceu e deixou de ter uma vida social tão ativa, as coisas complicaram-se. Começou a desconfiar das empregadas e a supervisionar cada uma das suas ações. Pouco a pouco, deixou de lhes pedir que arrumassem as coisas -“faço depois, que tenho tempo”, justificava. Quando menos pedia, mais precisava. E as divisões outrora espaçosas pareciam cada vez mais pequenas. Guardava tudo: os despojos dos filhos, aparelhos e eletrodomésticos avariados, roupa, sapatos, livros, fotografias e tudo o mais que se possa imaginar. Primeiro, nos armários. Depois, em cima das mesas. E, quando parecia não haver mais nada, acumulava-os pelo chão. Aquela casa era agora um mausoléu de tralha. 

Mas aquele documentário não lhe saia da cabeça. Há muito tempo que não recebia nem filhos, nem netos, nem amigos em casa. Levantou-se do seu sofá, vagueou pela casa e decidiu que estava na hora. Tinha de pedir ajuda!  Se o confinamento tinha servido de desculpa, agora já eram eles que se recusam a entrar num espaço tão desarrumado.

Para passar o resto da sua vida com a família próxima e amigos, teria de mudar de atitude.

Comprou um e-book de Marie Kondo, conhecida por ser uma organizadora de casas capaz de destralhar as situações mais complexas e leu-o todo de seguida. A seguir arregaçou as mangas, empolgada. Sabia que não era um caso perdido. 

Apesar de ter passado toda a noite acordada, sentia-se energética. Bebeu o seu café da manhã, guardou as borras do café para as espalhar no jardim e fez um juramento: até 31 Agosto, iria arrumar a sua casa toda e no primeiro dia de setembro, convidaria os filhos e os netos para um grande almoço. Sim! Era assim que celebraria este feito - provavelmente o maior da sua vida, desde que tinha recebido uma medalha de mérito pela sua carreira.  

Ão ão! Os seus pensamentos foram interrompidos pelo ladrar de Angie. Alguém queria ir à rua. 

Enquanto seguia por entre as ruas do bairro, reparava nas casas das outras pessoas. Umas mais arranjadas do que outras, mas todas francamente melhores que a sua. Apesar de uma certa vergonha, o odor das cerejeiras, não a deixou contaminar-se com maus pensamentos.

Continuou em frente, puxada pela sua cadela cinza extremamente energética. Ao chegar ao parque dos cães, entrou e deixou a sua cadela correr. Corria muito e, às vezes, era malandra com os outros cães. Todos ficavam muito curiosos com o facto daquela senhora, com aquela idade, ter um cão tão atlético. Ela ria-se e contava a toda a gente: “Quis o destino que eu adotasse uma cadela que é bisneta do meu primeiro cão. À família nunca se nega um lar”. 

Pouco depois, chegou a rapariga dos cabelos vermelhos com a sua Chocolat e, logo a seguir, Noire com o seu dono. Era sempre agradável aquele momento do dia: os miúdos eram mesmo simpáticos e os cães corriam, brincavam e rebolavam. 

Sentou-se no banco do parque, a descansar. Ao longe reparou numa mulher sentada por de baixo de uma magnífica cerejeira, uma brisa tinha acabado de a cobrir com flores brancas. Parecia um anjo. À sua frente, um homem com um bouquet de flores parecia admirá-la. 

Que belo quadro. Tinha a certeza de que já tinha visto aquela imagem nalgum sítio ... onde seria?

(continuação da história anterior - quinta parte)

-Sobre a Marta Crawford-

É psicóloga, sexóloga e terapeuta familiar. Apresentou programas televisivos como o AB Sexo e 100Tabus. Escreveu crónicas e publicou os livros: Sexo sem TabusViver o Sexo com Prazer e Diário sexual e conjugal de um casal. Criou o MUSEX — Museu Pedagógico do Sexo — e é autora da crónica «Preliminares» na Revista Gerador.

Texto de Marta Crawford
Fotografia de Diana Mendes