"Quem foi que desfez tudo aquilo que nós combinámos?", pergunta Aline Frazão no novo single “Luz Foi”, que editou este mês, a 11 de novembro, dia em que se celebraram os 45 anos da Independência de Angola. A cantora e compositora angolana, de 32 anos, é uma voz ativa dos direitos humanos e crítica das políticas governamentais que têm guiado o rumo do país onde nasceu e vive. 

Lançada três anos depois de ser escrita – em 2017, “num contexto muito específico de transição política” –, a canção não perdeu pertinência nem verdade. A artista temeu que ficasse desatualizada, longe de imaginar os protestos e confrontos, entre manifestantes e polícia, que se viriam, este ano, a suceder nas celebrações do Dia Nacional de Angola, em Luanda.

Gravada em outubro, entre a capital angolana e Lisboa – e com a formação com a qual a cantora irá gravar o próximo disco –, “Luz Foi” é uma canção que fala de esperança, de uma esperança diariamente ameaçada pelas carências básicas e pelas lutas do quotidiano que a maioria do povo angolano enfrenta. E por isso é também uma canção de protesto, sobre promessas por cumprir e sobre a necessidade “gritante” de mudança.

O tema é duro, o tom é o de Aline Frazão, que com doçura poética e sonhos de igualdade, nos convida a mantermo-nos “lúcidos”. 

Cruzámos o oceano, descemos ao hemisfério sul e encontrámo-nos com a cantora no Zoom – poucos dias depois da efeméride do Dia Nacional de Angola – para falar desta música, do atual estado do país e do dever cívico e político de reflexão e ação, para o desenvolvimento de uma sociedade mais justa e equilibrada. Levantámos ainda um pouco do véu do que será o quinto álbum de originais desta que é uma das artistas mais sonantes do atual panorama musical angolano.

Gerador (G.) – “Luz Foi” é uma música que fizeste para assinalar especificamente o dia 11 de novembro, o dia da Independência de Angola. Porque decidiste fazê-la este ano?

Aline Frazão (A.F.) – Escrevi esta canção em 2017, que foi logo a seguir a ter regressado para cá, para Luanda. E ficou na gaveta durante estes anos, porque senti que não cabia no meu disco anterior, no Dentro da Chuva, porque era um disco que queria que fosse mais minimalista, mais intimista, a voz e violão, um formato mais acústico. E, esta música, queria que fosse com banda, então ficou meio entre projetos, e, este ano, quando se começou a aproximar o 11 de novembro, e tendo em conta também todo o processo deste ano – de ter sido de muito isolamento, de poucos concertos e tudo mais –, comecei a pensar que seria a altura ideal para lançar esta música, por causa da situação do próprio país e da efeméride dos 45 anos, que é um número bastante redondo. E achava que a música continuava atual, porque, quando escrevi a canção em 2017, num contexto muito específico de transição política, como não a editei logo, pensei: "se calhar a música vai ficar desatualizada daqui a um tempo, se calhar vai deixar de faltar luz, vai deixar de faltar água, e eu vou perder a canção, vai deixar de fazer sentido e vai ser uma canção do tempo do antigamente". Mas não. A canção continua muito atual, então decidi que fazia sentido lançar agora e gravei a canção no mês passado. Ou seja, não deu assim muito tempo para prever que ia ser tão quente como está a ser esta semana.

O vídeo dá continuidade à parceria com o realizador angolano Fradique, a quem se juntou Cafuxi.

G. – Quando ouvi a canção, senti-a como tendo dois momentos. Primeiro, um certo desalento, uma indignação, uma inquietação, e depois, quando chegamos à última estrofe, a esperança. Foi assim que a pensaste?

A.F. – Provavelmente sim. Tem um custo emocional muito grande a gente só pensar no lado negativo. Afunda muito. Pode-nos paralisar. Talvez por isso a canção tenha resultado assim dessa forma mais ambivalente. Talvez seja um bocado uma necessidade de não colocar a luz só num lado que acaba por ser um lado que desanima muito, que é dececionante e de um certo desespero de as coisas não melhorarem mesmo, de não mudarem, de nós estarmos há anos a falar das mesmas coisas. Então talvez essa segunda parte da canção que tu interpretaste como algo mais positivo e mais esperançoso – e muita gente interpreta assim – provavelmente seja uma teimosia, e é também uma forma de puxar as coisas para a frente, para não nos deixarmos paralisar pelo estado das coisas, que é um estado de uma urgência gritante. 

G. – Na apresentação do single, escreveste, “mas é difícil ter esperança às escuras”, o que pode ajudar a resistir na esperança? Sendo que nesta mesma apresentação dizes que esta canção é sobretudo de esperança?

A.F. – Sim, e de protesto também.

O que é que pode ajudar a manter a esperança? Provavelmente, o mais importante alimento da esperança seja mantermo-nos conscientes, mantermo-nos críticos e despertos, mantermo-nos a pensar, não nos deixarmos derrotar por uma manipulação dos factos ou por uma inércia tão grande à mudança. Acho que se as pessoas conseguirem, apesar de todo esse caos que a gente vive, manterem-se lúcidas e manterem-se num determinado rumo a nível mesmo do que é certo e do que é errado... Eu estou a falar de coisas muito simples, do que é um direito, do que deveria estar a acontecer, esse ponto normativo da conversa: o que é que deveria estar a acontecer? Como é que Angola deveria estar? Como é que Angola poderia estar? Qual é o dever do Estado? Qual é o dever do Governo? Qual é o dever das pessoas que participam na gestão pública? O que é suposto acontecer com os direitos dos cidadãos? Se a gente conseguir manter-se um bocado fiel ao que o papel diz, ao que diz a Constituição, por exemplo, vamos para o mínimo, e acho que já alimenta muita esperança.

Depois, obviamente, é preciso haver uma reestruturação brutal do sistema político aqui, é preciso que as pessoas entendam que, em Angola, não serve só votar numa posição, isso não chega para mudar o país. É importante, para já, que a oposição se renove ao nível da vida partidária. E depois que as pessoas entendam o papel da sociedade civil, entendam todas qual é o seu papel. Se todos nós entendermos que temos um papel, que não somos só meros espectadores deste país e assumirmos esse papel como cidadãos, então acho que isso pode também ser uma força motriz nas coisas. 

G. – É possível desassociar a Aline Frazão artista, cantora, compositora, da Aline Frazão cidadã e que tenta ter o seu papel na sociedade?

A.F. – Não sei. Ainda noutro dia estive num debate a falar sobre isso. Sinceramente, acho que sim. Acho que é possível. Sinceramente. Pode ser estúpido dizer isso, mas acho que sim. Nós somos muitas coisas. Todos nós somos muitas coisas. Não somos só uma, não somos tudo ao mesmo tempo. A verdade é que acho que, se eu não fosse angolana, se eu não vivesse aqui, se eu não me preocupasse com este país, provavelmente seria muito mais fácil descomprometer-me. Só que acho que é muito difícil descomprometeres-te, com aqueles critérios de que estávamos a falar há pouco, sendo lúcida, olhando para fora da janela e vendo o que está a acontecer – “isto não está certo, isto poderia ser diferente, porque é que não é?” –, fazendo-nos as perguntas e pondo a cabeça a funcionar. É difícil para mim descomprometer-me, é difícil para mim não colocar à frente esse lado político por uma questão talvez mesmo de personalidade e de convicção, dado que sou uma pessoa muito política. Mas teria todo o gosto que a gente estivesse estes... – há quanto tempo é que estamos a conversar já? 

G. – Dez minutos.

A.F. – … dez minutos a falar sobre filmes, a falar sobre o tempo, a falar sobre culinária, comida, receitas veganas. Poderia falar de muitíssimas outras coisas, das minhas plantas, de como elas estão lindas. Poderia falar só de música, só do processo musical, e não estar a falar sobre política, sobre o que se passa em Angola, etc. Seria também eu. 

G. – Esta música tem um verso que achei particularmente marcante – “Desisti da leitura para encher o bidon – água veio!” – e que nos chama atenção para estarmos a falar ainda de lutar por condições e direitos básicos de vida em Angola, como água, comida, eletricidade, etc. “O próprio título remete-nos para isso. Esta realidade revolta-te?

A.F. – Não sei se ainda me revolta, sabes? Sendo, mais uma vez, muito honesta, eu tenho 32 anos, vivi aqui grande parte da minha vida, vivi em Luanda até aos meus 18 anos, vivi dez anos fora, vim cá com muita regularidade e agora estou cá há três, quatro anos, não sei. Ou seja, acho que a revolta tem um prazo de validade, sinceramente. Quando a gente está a viver isso no dia a dia, a revolta acomoda-se e transforma-se noutra palavra, noutra coisa.

G. – Que não é conformismo.

A.F. – Que não é conformismo, mas é um cansaço, é um desgaste, é uma impotência, às vezes, também. E é um não compreender, é uma sensação de absorção do absurdo. Quase que tu incorporas o absurdo. Acho que em Luanda, viver aqui, tu vais incorporando o absurdo. Vais normalizando de certa maneira. Não é que tu aches que aquilo está certo, mas vai-se tornando normal. E a gente até vai agradecendo, porque os cortes de luz diminuíram brutalmente nos últimos anos. Isso já não é como antigamente. Também é preciso dizer que antes as coisas eram muito piores a nível da água e da luz, por exemplo. E também depende de onde tu estiveres em Angola, vale também a pena dizer. Porque há lugares onde ainda não chega mesmo nem a eletricidade nem a água. Não há mesmo. Não há. Em muitos lugares deste país. Por isso é que falo mais de Luanda e tento focar-me mais em Luanda. Mas é óbvio que isso é, basicamente, um ultraje, é um absurdo, num país como este, este tipo de direito básico, como o acesso à água e à eletricidade – num país que produz petróleo, que tem barragens, que tem muitíssima água, é um dos países do mundo com mais metros e quilómetros cúbicos de água, cheio de rios, assim, tudo a descer. O formato do país já é todo a tentar ajudar. A natureza tentou ajudar, e a gente parece que não. Não sei se é incompetência. Pode ser incompetência, pode ser falta de vontade política, porque possibilidades existem. E isso é muito cansativo.

Isso é só uma das coisas, depois há outras que às vezes são piores, como o acesso à saúde pública, por exemplo. É um filme de terror. A questão da educação, que ainda é muito precária. Temos aqui muitos problemas de base que 45 anos depois… Podes dizer — "ah, não é assim tanto tempo". É verdade, não é assim tanto tempo e a história contemporânea de Angola é uma história turbulenta, com uma guerra civil violentíssima e traumatizante, e estamos a sair de um período de quase quatro décadas de muito abafado político, uma democracia muito frágil, que foi durante a presença do presidente José Eduardo dos Santos. O que acontece agora e o impacto que está a ter este ano em todas as pessoas é que havia uma certa esperança – não para mim, mas algumas pessoas tinham uma certa expectativa em relação a este novo presidente –, e a gente chega ao dia 11 de novembro e temos manifestantes a serem brutalmente espancados, a serem detidos, inclusivamente um morto. Isto nunca aconteceu numa manifestação aqui, nem no tempo de 2015, com os 15+2. Ou seja, é muito desconcertante a realidade aqui, se a gente se põe mesmo a pensar e se põe a olhar para essas coisas. E não me espanta que a maior parte das pessoas não queira fazer esse exercício, porque é difícil, como te dizia, tem um peso emocional e psicológico muito elevado.

G. – A que te referes quando dizes: “de ir além do brilho falso e renascer”? O que é o “brilho falso”?

Provavelmente, tem que ver com a opulência, com a vaidade, com a ostentação de riqueza da nossa elite. Provavelmente, tem que ver com isso.

G. – Cantas “Quem foi que desfez tudo aquilo que nós combinámos? / Quantos anos, diz só, quantos anos mais / Pra sermos todos iguais?” Cantas estes versos com determinação, com indignação, mas sempre sem agressividade. A própria sonoridade da música é bastante dançável. Embora o tema seja da máxima seriedade, quiseste contrabalançar a música com esta leveza e harmonia?

A.F. – Não foi consciente, sinceramente. São ritmos angolanos. Neste caso, é baseado num ritmo que se chama rebita e aqui, olhando para a história da música popular angolana – não é só da música angolana, tem que ver com a música africana, música latino-americana, as músicas ritmadas –, muitas vezes o ritmo não significa propriamente alegria. O ritmo é a linguagem que estás a utilizar. Com essa linguagem podes contar uma história positiva, uma história boa, ou uma história triste, e é isso mais ou menos que acontece aqui. Faz-me lembrar um pouco aquilo que acontece com a bossa-nova, que as pessoas consideram muito suave, muito relaxante, estás a ver? Às vezes, está a dizer ali das coisas mais deprimentes, de querer acabar com a própria vida por causa do amor, e é um pouco desconcertante, às vezes, esse contraste. Como venho dessa tradição musical, de usar o ritmo como uma linguagem, neste caso um ritmo tipicamente angolano, achava que fazia sentido sendo uma música que estava a falar sobre isso. Já nem me lembro o que veio primeiro, como te disse já escrevi há algum tempo, mas para mim fazia sentido desta forma. Sou muito fã deste ritmo, não tenho assim tantas músicas com este ritmo.

Agora, mais tarde, quando saiu a música, principalmente partilhando com amigos que não falam português, dei-me conta de que era estranho verem o videoclipe, por exemplo. Não conseguiam entender, "mas a música é alegre e o vídeo não?". A primeira pergunta é “o que significa “«Luz Foi»” e, claro, explicando o título acho que as pessoas já conseguem ter um marco de entendimento melhor do porquê deste contraste.

G. – Na tua opinião, qual tem sido o papel da cultura na luta pela liberdade em Angola ao longo das últimas décadas? Falo não só de músicos, mas também de escritores, poetas, como Ondjaki ou José Eduardo Agualusa?

A.F. – Acho que nós estamos bem servidos ao nível dos artistas angolanos. Acho que há muita gente talentosa. Muita gente desde o street art, pessoas que fazem arte de rua, como o coletivo Verkron – que é um coletivo muito interessante, com umas ideias muito interessantes – até à música que se mantém atenta, presente. A música, eu acho que é o âmbito que mais reflete a sociedade angolana. Na mesma semana em que sai a música do Paulo Flores com o Prodígio a criticar também esta questão, sai a minha música, depois tens a música do Matias Damásio – "Eu amo a minha Angola / Terra quero por ela trabalhar" –, superpositiva, parece quase um hino de campanha eleitoral. A música reflete um bocado o estado das coisas e tem para todos os gostos aí. Mas até tens um setor interessante que está vivo.

Digo sempre isso e acho mesmo que é verdade: há muito talento. No cinema também. Há muito mais vida no cinema. Este ano tem sido positivo para o cinema angolano. Na literatura, tu falaste de dois nomes, mas há mais nomes, José Luís Mendonça... Há muita gente boa e há muito potencial. Agora… às vezes faz falta é que este setor cultural dialogue mais com a sociedade, talvez essa parte de meter o nosso lado de cidadão um pouco mais adiante, mais no meio entre nós e o nosso trabalho enquanto artistas, que é algo que acho que tem um impacto muito grande.

G. – Encontras-te, neste momento, a preparar aquele que será o teu quinto álbum de originais, com edição prevista para meados de 2021, ano em que vais celebrar 10 anos de carreira. Já nos podes dizer alguma coisa sobre esse trabalho? Seguirá a linha do Dentro da Chuva?

A.F. – Posso dizer pouco, porque estou muito no começo do processo ainda de fazer o álbum, mas posso dizer que – um bocado para não quebrar a tradição – vai ser um álbum que vai romper muito com o anterior, que é algo que tenho feito desde o começo. Vai ser um álbum com banda, vou gravar com a banda que está no "Luz Foi" e vai ser um álbum que vai respirar muito dessa banda, vai-se focar muito – o álbum todo, quero muito que seja assim, vamos ver se vou conseguir – numa dimensão coletiva.

Isso tem sido também uma reflexão pandémica, da pandemia, que é: considero que é importante recuperarmos essa dimensão coletiva em praticamente tudo o que fazemos. E estou a dizer-to do ponto de vista de uma pessoa introvertida, que gosta muito de estar sozinha. Eu estou muito bem sozinha, a pandemia não me afetou assim tanto a esse nível de querer conviver com as pessoas, pelo contrário, quase que foi um alívio em alguns casos. Mas extravasando esse sentido mais imediato da coisa, penso que é importante voltarmos a fazer coisas juntos e tentarmos inverter esse paradigma do individualismo, do culto das nossas personalidades, dos nossos perfis. Quanto mais a gente alimenta essa lógica individual, mais a gente se afasta de nós mesmos. Acho que só é possível nos compreendermos a nós próprios junto dos outros, diante dos outros, no meio dos outros. Acho que este ano tem sido um ano desafiante nesse sentido, porque acho que todo o mundo entrou um pouco em crise, a muitos níveis, não precisamos repetir todos eles, que já sabemos bem, mas para mim a música cimentou-se muito como uma ferramenta importante de sociabilidade, uma ferramenta importante afetiva, uma ferramenta importante de compreensão do mundo e de bem-estar, da felicidade possível para as pessoas. Então, quero que esse disco, ao contrário do meu disco anterior, que foi um disco a solo, traga de volta uma dimensão de fazer juntos, seja a nível das parcerias que quero fazer para o álbum, seja a forma como o álbum vai ser gravado. Mas quero que a comunidade esteja mais no centro.

Texto por Flávia Brito
Fotografias promocionais do single

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Aline Frazão