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Alucinações sobre flores meio ano depois

Nas Gargantas Soltas de hoje, Shahd Wadi partilha as suas alucinações sobre flores, meio ano depois do início do genocídio em Gaza.

Opinião de Shahd Wadi

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“Os colonizadores escrevem sobre flores. Eu conto-te como as crianças atiram pedras contra os tanques israelitas segundos antes de se transformarem em margaridas”. Noor Hindi (tradução Cobramor).

Em criança, detestava cravos.

Muito vulgares, muito baratos na florista. 

Antes de 7 de outubro, Hussam era florista, algures na Faixa da Gaza. 

Depois, refugiado, a vender o que restava de felicidade para derrotar a morte e vencer a vida.

Batia no pano das tendas, lançava rosas, invés de cravos, nas portas dos hospitais.

Em Gaza, já não sobram hospitais.

Havia trinta e seis. Meio ano depois, dez. 

Já não restam rosas. Também.

“Como um ramo de flores, abraçamo-nos no meio de casa.… Aprendemos os nomes dos números, contamos as feridas, contamos a paciência em certo silêncio”, diz Mayar Nateel, da mesma Faixa.

Uma paciência, duas paciências, trinta e três mil paciências. 

Perdidas, meio ano depois.

Não havia flores, nem corpos abraçados quando arrasaram com Al-Shifa. 

Não era um hospital, era também uma casa. Perdida.

Setenta mil casas, perdidas. 

Não havia flores quando voltaram àquela casa. 

Cadáveres espalhados dentro e fora sem um único cravo. 

Sem respiração não haverá revolução.

Também neste abril, meio ano depois não haverá exportação de cravos de Gaza.

Ó mundo, aprende os nomes dos números. 

Antes do bloqueio, Gaza enviava ao mundo mais de quarenta milhões de cravos por ano.

Aprende, passaram a sete,

passaram a zero. 

Passaram a murchos, sem água, 

passaram a… em Gaza já não há quem cuide de flores. 

Em Gaza foram plantados escombros sem seres vivos – os cravos não salvam vidas, nem as deles próprios.

E não é que as flores no arquivo do ocupante mantêm o seu nome:

Scabiosa Palestina, Adonis Palestina, Cota Palestina. 

Terra Palestina,

dizem as flores,

enviando a sua fragrância extremamente canaanita 

bem debaixo de um nariz que diz terra de ninguém. 

Ainda há flores, meio ano depois. 

Lembra-me Mahmoud Darwish, meio ano depois:

“Um poema num momento difícil, são belas flores num cemitério.”

Meio ano depois, já não quero aprender o número das pétalas caídas. 

já não quero defender o seu direito, 

muito menos a sua humanidade.

As flores não são humanas. Não têm uma pétala de humanidade.

Já também não quero poemas.

O que eu quero é ter um cravo na mão e descer uma avenida com o nome Huri-ía, e finalmente gritar: Falastin árabiya sempre, sionismo nunca mais.1

Quero escrever sobre as flores, daquelas que não gosto.

Falar, sem que me digam nada.

Um malmequer aborrecido, um que não cheira a fim.

Quero muito apagar o resto do poema em epigrafe, que agora diz:

“Um dia escreverei sobre as flores, como se elas nos pertencessem.” Noor.

Hoje ainda não é o dia.

E que é feito das flores de Hussam? 

De viva cor ou com esmagadas pétalas, mutiladas folhas, todas espalhadas fora da tenda ou à porta de um já-não-é hospital?

Procuro Hussam.

Aprendo também com este povo os nomes dos números: 

Vinte e sete semanas desde a sua última publicação. 

Cade as tuas papoilas, narcisos e rosas? E tu, florista, estás ainda vivo? 

Conto a paciência, mas sobretudo o silêncio, meio ano depois.

Ingénua, eu talvez, localizá-lo nas redes sociais, resultou à primeira tentativa, 

mas a mensagem falha tal como as flores num cemitério. 

Mas que são estes algoritmos, inteligência artificial e sobretudo que raio é esta “Lavanda”?

Uma inteligência dita artificial que escolhe, pelo exército israelita, onde será o próximo massacre.

Uma máquina de mantença com fragrância de alfazema.

Não se preocupe com “danos colaterais” nem “margem de erro” porque tem um nome de uma flor. Lilás, mas não preciso de luz, acaba com a vida de uma família inteira antes do nascer do sol. 

Com pétalas púrpura, arrasa com um bairro inteiro em 20 segundos. 

Uma infusão cosmética antisséptica que elimina tudo. 

Uma genocida “fofinha” com um nome de fantasia: Lavanda. 

A morte cheira bem.

Quantas lavandas serão apontadas na direção dos nossos sonhos que antes de o serem já foram?

Ontem gostava de lavanda. 

Hoje, meio ano depois, 50 anos depois, 76 anos depois, 

gosto mais de cravos.

  1. Huri-ía: liberdade.
    Falastin árabiya: Palestina é árabe. ↩︎

- Sobre Shahd Wadi -

Shahd Wadi é Palestiniana, entre outras possibilidades, mas a liberdade é sobretudo palestiniana. Tenta exercer a sua liberdade também no que faz, viajando entre investigação, tradução, escrita, curadoria e consultorias artísticas. Procurou as suas resistências ao escrever a sua dissertação de Doutoramento em Estudos Feministas pela Universidade de Coimbra que serviu de base ao livro “Corpos na trouxa: histórias-artísticas-de-vida de mulheres palestinianas no exílio” (2017). Foi então seleccionada para a plataforma Best Young Researchers. Obteve o grau de mestre na mesma área pela mesma universidade com uma tese intitulada “Feminismos de corpos ocupados: as mulheres palestinianas entre duas resistências” (2010).  Para os respectivos graus académicos, ambas as teses foram as primeiras no país na área dos Estudos Feministas. Na sua investigação aborda as narrativas artísticas no contexto da ocupação israelita da Palestina e considera as artes um testemunho de vidas. Também da sua. 

Texto de Shahd Wadi
As posições expressas pelas pessoas que escrevem as colunas de opinião são apenas da sua própria responsabilidade

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