Uma semana após o estado de emergência ser decretado em Portugal, Patrícia Oliveira cumpria o confinamento obrigatório em casa, na sua terra natal, em Monção. A ruralidade do espaço onde habita e a necessidade de aproveitar aquele tempo fez com que fosse recuperar os sacos de lã que trouxera meses antes da Serra da Estrela, e que havia guardado com o intuito de se dedicar ao material. O processo moroso de preparação da lã de ovelha estava assim em curso quando a curadora Helena Mendes Pereira entrou em contacto com a escultora para integrar o projeto de residências artísticas “Amar o Minho”. “Tive o convite da Helena passado mais ou menos um mês e meio após ter ido para casa em confinamento. Andava há três semanas a lavar lã e a Helena liga-me a perguntar se eu estava disponível para dar reposta a um projeto com as Mulheres de Bucos. Foi ouro sobre azul. No fundo, eu já estava em processo de lavar a lã de ovelha que tinha, ainda nem sabia deste projeto”, conta a monçanense.

Escultora de formação e profissão, Patrícia Oliveira deixou a terra natal, Monção, em Viana do Castelo, com apenas 15 anos, rumo à Escola Artística Soares do Reis, no Porto. Foi nesta cidade que se tornou mestre em Escultura pela Faculdade de Belas Artes. Nos últimos anos, e já no papel de mãe, Patrícia Oliveira regressou a casa, onde esteve envolvida com o Município de Monção em várias iniciativas culturais, nomeadamente na criação da Plataforma de Arte e Cultura de Monção. A artista plástica minhota tem ainda trabalhado com o seu corpo no espaço público, em performances ao vivo. Confessa em entrevista ao Gerador que lhe interessa “a carga simbólica, ritualística e comunitária que muitas matérias evocam”, tendo vindo a desenvolver trabalhados com “matérias endógenas e com as comunidades que guardam o saber-fazer associado”.

Neste novo desafio lançado pela curadora do projeto e diretora da Zet Gallery, em Braga, Patrícia Oliveira recuperou algumas das memórias da sua infância e dos códigos simbólicos dos materiais com que tem estado a trabalhar. Afirma que “ao submergir nos processos do saber-fazer com as mestres fiandeiras, tecedeiras, mestres vidreiros e os mestres ourives, outros sentidos e outras perceções são criados com outros níveis de profundidade. Aprende-se muito daquilo que somos e da nossa identidade cultural”.

“Amar o Minho”: o projeto inédito em Portugal que convoca 24 municípios

Ao longo de um ano o projeto cultural e turístico “Amar o Minho” vai envolver artistas convidados com comunidades locais, de 24 municípios, tendo em vista o reforço da identidade cultural do Minho. O consórcio formado pelas Comunidades Intermunicipais do Alto Minho, do Cávado e do Ave lançou a iniciativa a 28 de maio e desde então os artistas, nacionais e internacionais, selecionados pelos curadores Helena Mendes Pereira e António Rafael, membro dos Mão Morta, têm habitado os territórios com vista à criação de projetos de arte em espaço público, artesanato, fotografia, música, dança e literatura. À diretora da Zet Gallery, organização que venceu posteriormente em concurso público a coordenação artística e de comunicação do projeto, foram atribuídas as áreas da arte em espaço público, artesanato e fotografia.

“A curadoria é uma meta disciplina que convoca várias disciplinas, vários saberes, mas que é uma disciplina em si e que tem que ser atuante naquilo que é o estabelecimento de uma relação com a criação artística contemporânea, no meu caso, e numa relação comunicante entre a arte os artistas, entre os públicos e as instituições”, afirma Helena Mendes Pereira. Defende que o conceito de curadoria orientado aos museus e galerias está ultrapassado, reforçando que “hoje temos uma abordagem ao espaço público, à polis, ao espaço urbano e à cidade que é no fundo considerá-la como grande museu, como grande espaço de reflexão a partir da criação artística que temos no território”. Assim, para Helena “o espaço público precisa de critérios curatoriais, de pensamento estratégico e não apenas de implementação de obras”. Ao integrar o sistema tem agora a oportunidade de apoiar nesta transformação.

Neste projeto encara como desafio ter “24 autarcas a pensar de forma diferente e a convocar energia para um projeto comum”. Na sua visão de relação de parceria, tem trabalhado junto destes – que são os clientes finais, quem acolhe os artistas e posteriormente as obras – para que se identifiquem com as propostas apresentadas.

Entre os artistas escolhidos surge o nome de Patrícia Oliveira

À semelhança de Patrícia Oliveira, para a curadora Helena Mendes Pereira a entrada no confinamento não se traduziu numa pausa no trabalho. Entre os inúmeros projetos que permaneceram em curso, no âmbito da direção da galeria, Helena juntou-se a António Rafael para o arranque do projeto “Amar o Minho”. “Um exercício automático após uma semana em confinamento foi pôr a máquina a andar e dizer: “mal seja possível nós temos que pôr os artistas na rua, porque arte em espaço público permite distanciamento social, não interfere com qualquer questão sanitária”. Para a curadora, era prioritário “fazer chegar dinheiro ao mercado, aos artistas e respetivas famílias”.

A primeira etapa foi então distribuir pelos municípios as áreas de intervenção, com base na estratégia e áreas com mais expressão existente. A partir daí foi feita a escolha dos artistas que dariam as respostas a cada marca identitária identificada, tendo como base relações de confiança que os curadores tinham em alguns artistas com quem haviam já trabalhado. A isto juntou-se ainda o critério de pertinência dos trabalhos, para que fossem de encontro também aquilo que eram as expectativas do consórcio.

A curadora Helena Mendes Pereira foi perentória: “A minha escolha dos artistas já segue uma premissa: são artistas de uma geração que é próxima da minha, que entendem os meus conteúdos, que eu entendo que trabalham bem questões identitárias a partir de perspetivas diferentes”. E assim surge o nome da escultora Patrícia Oliveira.

“A Patrícia gosta de trabalhar a essência dos materiais, gosta não só dos materiais e das tecnologias mais tradicionalmente agregadas à escultura, mas também tudo o que são processos fabris, rurais e artesanais. Por isso, quando comecei a casar quem é que ia ficar onde, sabia que a Patrícia já tinha desenvolvido um trabalho com a lã a partir da Serra da Estrela e, portanto, já tinha algum contacto com a matéria”, afirma a curadora. A artista plástica ficou então encarregue da produção de uma peça escultórica a partir da lã de ovelha, para o município de Cabeceiras de Basto, num trabalho desenvolvido in loco com as Mulheres de Bucos, na Casa da Lã.

Patrícia Oliveira a esgadelhar a lã

Contudo, e à semelhança de outros artistas convidados, Patrícia Oliveira abraçou o desafio de fazer residência artística em dois municípios, potenciando assim pontos de contacto em todo o território envolvido. Na Póvoa de Lanhoso a artista tem então a tarefa de criar uma obra para espaço público, em homenagem à filigrana. Ao contrário do trabalho a desenvolver em Bucos, aqui foi desafiada a explorar novos caminhos. “O objetivo foi desafia-la a fazer algo que ela nunca tinha feito – trabalhar com o metal e trabalhar com grandes formatos - a partir daquilo que é a técnica da filigrana, para fazer uma interpretação e crescer em escala no seu tamanho”, afirma a curadora.

Patrícia Oliveira em visita aos ateliers dos ourives

Logo após ter abraçado estes desafios, Patrícia Oliveira encontrou nas duas residências artísticas elementos comuns: “Em termos processuais, os ourives também fazem fio, embora se usem equipamentos distintos, não é muito afastado do fio da lã”. À artista interessa então “o conhecimento que fica apenas na oralidade e que se perde com o passar dos tempos, um conhecimento muito rico e multidisciplinar, sobre o presente, o passado, a natureza, as trocas comerciais, as rotas, o porquê das mesmas, os ciclos, os rituais, o entendimento de mundo e da nossa relação com o outro em negociação; a nossa história”.

O trabalho de residência artística na Póvoa de Lanhoso está ainda numa fase muito exploratória. A escultora visitou já alguns ourives da região e definiu que esta “será uma escultura com dois elementos”, exposta no Parque do Pontido. Para Patrícia é importante “que os trabalhos tenham uma dimensão de movimento, mesmo que o movimento seja aparente” e, por isso, pretende “conter o próprio Ribeiro do Pontido” na sua obra. Pela primeira vez, afirma, "vou trabalhar com uma escala muito para além da medida do meu corpo”.

A Casa da Lã: “quando conhecemos a matéria estamos a conhecer muito do meio”

A ligação de Patrícia ao mundo das artes começou muito cedo, na descoberta e exploração de matérias e materiais que tinha na altura à sua disposição. Com os anos o gosto por explorar a potencialidade dos materiais foi crescendo e a integração nas suas obras é agora uma marca da artista. “Nos meus trabalhos sempre trabalhei com artesãos, pessoas ligada à botânica, pessoas de áreas não propriamente ditas artísticas, mas que tem um grande espaço de criatividade”.

O primeiro contacto profissional com a lã foi aquando do projeto “Landart Narciso do Mondego”, em Fornos de Algodres, na Serra da Estrela, altura em que trabalhou a lã “através da técnica feltrada, ou seja, com agulhas; agora, na Casa da Lã, há uma nova descoberta: “aprender a fazer fio e a trabalhar no tear”. A residência artística no município de Cabeceiras de Basto implica beber inspiração na Casa da Lã, em Bucos. Contudo, vai além da aprendizagem do processo de tecelagem da lã para fins escultóricos.

Patrícia Oliveira viaja uma vez por semana até Bucos, percurso que dura quatro a cinco horas, para “conhecer todos os processos do saber fazer ligado à lã e ao meio”. Confessa que o processo é apenas uma pequena parte daquilo que procura retirar neste trabalho desenvolvido com as Mulheres de Bucos: “Eu tenho que fazer um trabalho que deve beber inspiração na Casa da Lã, mas a Casa da Lã não é só a lã, é o todo: são os movimentos, os equipamentos, o facto de serem mulheres, as performances”. Conta que durante as primeiras semanas de trabalho se sentava a observar e era desafiada pelas fiandeiras locais a iniciar o processo de fiação. Só mais tarde compreenderam o trabalho experimental da artista: “Quando eu estou a observar a Dona Ilídia, uma das melhores fiandeiras do país, não estou só atenta a como se deve fazer, mas também a toda a performance do movimento. Ela está a fiar, mexe com os braços em movimentos distintos, o fio tem um movimento próprio no espaço; atrás dela às vezes está a Dona Ana a bater no tear; há toda uma performance a acontecer que para quem está observar e a inspirar-se é muito interessante”, conta.

Patrícia Oliveira e Dona Ilídia, Fotografia de Marcos Rodrigues

A integração de Patrícia no grupo foi fácil. “Quando lá cheguei nós já sabíamos que tínhamos a lã em comum e todas temos vontade de que corra bem”. Não esconde que ao fim de alguns meses de trabalho contínuo, “para além da questão da formação, de me ensinarem e eu estar a criar com elas, uma pessoa também se vai ligando, vai criando amizades”.

O trabalho de Patrícia na Casa da Lã continuará até fevereiro de 2021, altura em que deve entregar ao município a peça escultórica produzida, para que seja exposta na Casa da Lã, em Bucos. A artista confessa, no entanto, que está “a pensar esta peça para poder ser depois exposta noutros locais, para ser portátil, e poder depois viajar e ser exposta num museu ou em exposições”.

A memória e valorização dos nossos produtos endógenos

“A minha experiência com todas estas matérias é algo que também já tem a ver com o meu passado e com os meus antepassados”, confessa Patrícia Oliveira. Ao longo da conversa com o Gerador, a artista plástica revisitou algumas memórias da sua infância. Conta que o primeiro contacto com a lã foi no restaurante dos pais, ainda muito jovem. “Quando vinha a casa aos fins de semana, porque estava a estudar no Porto, ajudava os meus pais no restaurante a servir às mesas e a preparar tudo o que fosse preciso. Nessa altura eu via a lã ser queimada ou enterrada, porque o era valorizado eram os cordeiros para serem temperados e servidos no restaurante.” Mas já nessa altura tinha curiosidade de explorar a matéria, confessa.

Agora, recorda os rituais e simbologias associadas às matérias, como a lã, que associa a algumas histórias e episódios da sua infância. “Lembro-me de ir à missa coma minha avó e haver a questão da toalha, muito ligada ao ritual da cerimónia”, ou “lá no restaurante de se ir buscar uma toalha para os noivos fazerem um brinde, e não ser uma toalha qualquer, era uma toalha de linho, com determinado bordado”. Recorda ainda a dobadoura, a roca e o fuso pendurados na parede do restaurante dos pais: “eram elementos decorativos e em muitos espaços continuam, e só agora vi estes elementos ganharem vida".

A propósito deste trabalho tem vindo a procurar cada vez mais ver além da matéria que se lhe apresenta. “Quando olhamos para uma toalha, ou para um têxtil construído conseguimos perceber, se nos interessarmos por essas matérias, de onde vem, quem fez, o porque do uso daquele fio, ou daquele signo, daquela forma”, afirma. Para Patrícia urge “estarmos mais atentos e valorizarmos os nossos produtos endógenos”, “um papel que é essencial fazermos todos, e não apenas no âmbito de projetos como o “Amar o Minho”.

Texto de Bárbara Dixe Ramos
Fotografia de Marcos Rodrigues