É já no dia 17 de abril, e até 2 de maio, que decorre, pela primeira vez, o festival Visions du Réel via online. No programa da 50ª edição do festival encontram-se filmes que estreariam também se tudo decorresse como é habitual, em Nyon (Suíça), como Amor Fati, o novo filme de Cláudia Varejão, e Would You Rather, de Laura Marques. 

O filme de Cláudia Varejão, uma co-produção entre Portugal, a Suíça e França, terá a sua estreia mundial no festival e fica disponível desde o dia 25 de abril até a 2 de maio. O filme resulta de uma procura por “partes que se completam” – casais, amigos, famílias e animais com os seus donos – que “partilham a intimidade dos dias, os hábitos, as crenças, os gostos e alguns traços físicos”.

“Durante dois anos procurei, em Portugal de norte a sul, por histórias de amores inabaláveis que se expressavam, à primeira vista, em fisionomias semelhantes. Encontrei-me com centenas de pares e de grupos que viviam, no momento presente, histórias de enlace raro. Filmei sem saber ao certo a linha narrativa que os poderia vir a unir e só mais tarde, chegada à montagem, coloquei-os lado a lado, na esperança de que as rimas e as delicadezas do acaso emergissem. As vidas de uns ecoaram nas vidas de outros. E as conquistas de uns preencheram os lugares vazios de outros. O filme nasceu desse processo de busca, também ele à procura de uma parte em falta”, conta a realizadora de Ama-San (2016) no comunicado de imprensa enviado pela produtora Terra Treme. 

Este filme é uma co-produção da Terra Treme, Mira Film e La Belle Affaire

Para melhor contextualizar esta procura, Cláudia Varejão convoca o discurso de Aristófanes, no Banquete de Platão, que cita também no comunicado de imprensa: “Não será a isto que vocês aspiram – a identificarem-se o mais possível um ao outro, de forma a não mais se separarem noite e dia? Se é essa a vossa aspiração, estou disposto a fundir-vos e soldar-vos numa só peça, de tal modo que, em vez de dois, passem a ser um só.”

É neste discurso de Aristófanes e na sua visão sobre o amor, na qual diz que na origem do ser humano está um corpo com quatro pernas, quatro braços e dois rostos que é separado em duas partes por um raio lançado por Zeus – e que, desde esse dia, procuram incessantemente uma pela outra -, que a cineasta centra o seu ponto de partida. Em Amor Fati, Cláudia Varejão procura essas metades que convergem “como se fossem elementos químicos atraídos na mesma direção”.

Would You Rather, o filme de Laura Marques, tem a Roménia como pano de fundo e concorre à secção Internacional de Curtas e Médias Metragens. “Preferias ter água ou leite? Ver o mundo a azul ou cor-de-rosa?” são duas das questões lançadas por Laura Marques na sinopse disponível no site do Visions du Réel, onde o filme estará disponível entre 17 e 24 de abril. 

Neste filme, Laura questiona o seu papel de realizadora e se o cinema não será, afinal, um jogo de crianças. Depois de ter apresentado Vacas e Rainhas que, entre outros festivais, passou pelo Doclisboa, Laura partilha com os espectadores uma busca interior em forma de filme. 

Em outubro de 2018 o Gerador contou a história de Laura Marques e o seu refúgio nos Alpes, que podes encontrar aqui

Podes saber mais sobre o Visions du Réel, aqui

Texto de Carolina Franco
Still de Amor Fati (2020), de Cláudia Varejão

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