“O amor para mim é decisão, sacrifício e valorização”, ouve-se no áudio de boas-vindas à Sala Estúdio. No palco, André Amálio, Júlio Mesquita, Laurinda Chiungue, Pedro Salvador, Romi Anauel e Tereza Havlíčková vestem o papel de si mesmos. Estão prontos para se abrirem com o público e servirem de corpo que dá voz aos testemunhos recolhidos na investigação que fizeram sobre o amor no tempo colonial.

Julho de 2018 foi o mês em que começaram a investigação em Pontevel, o lugar que André acabou por descrever como “um paradigma do que é Portugal, em muitas aldeias ou vilas”. Se, no início, não tinham muitas entrevistas marcadas e iam dando passos cautelosos ao entrar no mundo dos entrevistados, logo se viram a mergulhar num mar de cartas de amor do Ultramar e aerogramas que tinham sido “enviados às escondidas dos pais”, para alimentar relações à distância que cresciam a cada carta pela beleza da letra e do conteúdo.

Com auscultadores no pescoço, que se deslocam para a cabeça quando André, Júlio, Laurinda, Pedro, Romi ou Tereza servem de corpo às vozes de outras histórias que não são as suas, vão-se cruzando em cena com objetos representativos de fases da investigação. Cartas, livros que ajudaram na sustentação do conteúdo ou a pensar os temas em cima da mesa, fotografias projetadas na parede ou no corpo, e os áudios, que ora são transmitidos pelos intérpretes, ora são ouvidos bem alto por todos.

À medida que vão pondo no palco as vidas que foram partilhadas consigo desde Julho vão dando a conhecer as suas, nunca esquecendo do ponto em que todas as histórias se tocam: o amor. Impossível, instantâneo, incondicional, fogaz, doente, capaz de mudar vidas e de prevalecer com o tempo; “o amor como uma luta”.

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Mais do que ver apenas o amor no tempo colonial à luz da contemporaneidade, vão contando histórias que acreditam que “falta escrever nos livros de História”, como acaba por dizer André Amálio. O amor como chama que permite ver o que ficou para trás e que “Portugal continua a fingir que não existe” — o amor que concebeu “os filhos do tuga” ou “filhos de guerra” que o pouco que sabem sobre o seu pai é o apelido ou, por vezes, o tempo em que cumpriram o serviço militar; o amor que gerou “mulatos” e nem sempre deixou claro o seu rasto; a falta de amor que permitiu que fossem sendo feitas exposições com indígenas trazidos à força para Portugal, autênticos “Jardins Zoológicos Humanos”, para mostrar as atrações que podiam ser encontradas no império colonizado.

As grandes atrações das exposições, como “Rosita”, a estrela da primeira exposição colonial, servem de ponte para a exotização da mulher africana, que grande parte das vezes era vista como relação-escape para os soldados, que já tinha o fim anunciado: quando a guerra acabasse.

Um passado não tão distante assim, que foi “vivido pelos nossos pais, pelos nossos avós, pelos nossos tios”, como acaba por dizer André ao Gerador, mais tarde. “Nós quase não precisamos de fazer uma pesquisa no Google, está ali; podemos perguntar, podemos saber. Muitas vezes as novas gerações apresentam uma tendência para se desligar desse passado”, diz André, “mas eu acho que os acontecimentos que estão a acontecer neste ano, em 2019, todas estas questões, que estão a brotar da nossa sociedade, demonstram que há um interesse, a meu ver, de várias gerações, a querer debater estas mesmas questões”, completa. Deixa claro que com Amores Pós-Coloniais interessa-lhes debater o presente, percebendo de onde é que ele vem, ouvindo vozes de diferentes gerações. Com a recolha que fizeram querem desmontar a história e demonstrar que o que se passou, de facto, não está nos livros de história, que “precisam de ser todos reescritos” para dar a conhecer o grau de opressão de que não se fala.

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A guitarra de Pedro Salvador vai ajudando a sonorizar a história criada pela companhia Hotel Europa, ganhando força com a voz de Romi Anauel. À música, que vai reforçando momentos-chave da peça, junta-se a dança que convoca uma reunião entre todos os elementos em palco para explorar a tensão e a repressão através da expressão corporal.

“Quando começamos a fazer isto queríamos falar sobre o amor colonial, não sobre racismo. Mas percebemos que não era possível.”, lança André, que logo começa a fazer estabelecer relações com o que se passa hoje; do assassinato de Alcino Monteiro ao caso recente no bairro da Jamaica.

André, Júlio, Laurinda, Pedro, Romi e Tereza voltam às posições iniciais para questionar “O que é o amor?”. Alguém diz que “o pós-amor é o grito do amor”; se assim é, o Hotel Europa é o eco desse grito.

Amores Pós-Coloniais vai estar em cena no Teatro D. Maria II entre 7 e 24 de fevereiro, na Sala Estúdio. Para o dia 17, está marcada uma conversa com os artistas após o espetáculo e, para o dia 24, uma sessão com interpretação em língua gestual portuguesa e audiodescrição.

Em setembro, na Culturgest, vai ser apresentada a peça O Fim do Colonialismo, na qual os protagonistas das histórias sobem ao palco para falar na primeira pessoa.

Laurinda, Teresa, Pedro, Júlio, Romi e André

Texto de Carolina Franco
Fotografias de ©Filipe Ferreira

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