Madalena Alfaia lançou o desafio. Em pleno confinamento, deu carta branca a três autores, e a si mesma, para escreverem um monólogo a ser interpretado por quatro atores, cada um numa divisão da sua casa. Este foi o mote para um projeto que chega hoje, dia 22 de setembro, ao museu do Palácio Pimenta.

Até 7 de novembro, poderemos ver Jacinto Lucas Pires e Rita Durão (na sala de estar), Matilde Campilho e Vítor d’Andrade (na cozinha), Valério Romão e Carla Bolito (na casa de banho), e Madalena Alfaia e David Pereira Bastos (no quarto de dormir). Quatro salas do Museu de Lisboa – Palácio Pimenta acolhem estes vídeos, que têm entre 12 e 16 minutos, e que contam ainda com música de Filipe Melo.

“Este é também um trabalho sobre a ideia de casa, tema que me interessa muito. Acontece que a casa, durante o grande confinamento deste ano, passou a ser não somente um espaço de intimidade mas também o único espaço possível. Ao mesmo tempo, era a partir de casa que tínhamos acesso a esta tremenda mudança no mundo tal como o conhecíamos. E foi assim que as nossas casas se tornaram ainda mais pequenas – porque as partilhávamos com a família 24 horas por dia e toda a vida quotidiana decorria ali – e, ao mesmo tempo, enormes – porque o mundo cabia todo lá dentro, através dos ecrãs”, revela Madalena Alfaia, a curadora do projeto.

E acrescenta: “Por outro lado, o projeto surge quase como um confronto, como se eu tivesse querido fazer frente a um estado de coisas que mergulhou os artistas num tanque cheio de lodo: sem teatros, sem cinemas, sem livrarias, sem museus e sem apoios, os artistas deixaram de ter lugar próprio”.

Não sendo um projeto sobre a quarentena, este é um trabalho que reflete o momento em que vivemos, pelas circunstâncias em que surgiu e se concretizou, materializando aquilo que foi desde o início a intenção da curadora: “o impulso colaborativo, o trabalho de equipa, a confiança mútua, em contracorrente com as ilhas em que nos isolámos durante tantos meses.”

A trabalhar na edição de livros desde 2006, Madalena Alfaia juntou neste projeto escritores com quem já tinha trabalhado indiretamente noutros contextos. “Imaginei um projeto que juntasse duas das coisas de que mais gosto: palavras e interpretação. Foi de algum modo surpreendente que todos aceitassem este mergulho no escuro com tanta generosidade”.

Quando o desafio foi lançado aos autores, a curadora pediu-lhes apenas que tivessem em mente um ator em particular e que colocassem a ação num lugar específico, que era cada uma das divisões da casa. Sem qualquer orientação temática, a autora sabia que “a pandemia acabaria por estar presente, como de facto está, embora de modos distintos.”

Segundo Madalena Alfaia, Aproveitando uma aberta adquire força enquanto mosaico. “Cada um dos vídeos do João Gambino sustenta-se e tem interesse em si mesmo. Quando vemos os quatro vídeos, quando entramos nesta casa construída por nós na tal ilha, chegamos a um lugar diferente, com uma intensidade maior. É um circuito por interioridades – a dos escritores, a dos atores, a do João Gambino, a minha –, mas que espero que alcance e faça companhia a quem vir os vídeos. A música do Filipe Melo, que abre os quatro vídeos, dá o tom para esta espécie de viagem que não sabemos bem para onde nos vai levar”, refere.

A ideia inicial era ser um projeto exclusivamente online, feito com vídeos caseiros, submetidos a um pequeno trabalho de João Gambino. Os atores filmar-se-iam a eles mesmo com os seus telemóveis, e os vídeos seriam depois divulgados online, em canais de vídeo e nas redes sociais. Mas acabou por não ser assim.

“Com o desconfinamento, arrisquei propor ao João Gambino fazermos uns vídeos mais profissionais, e esta foi a segunda grande surpresa: ele aceitou, sem hesitações, apesar de o orçamento ser exatamente o mesmo”, conta a curadora.

O projeto ganhou depois uma outra nova dimensão com o convite do Museu de Lisboa para ser feita uma instalação em vídeo, em várias salas do Palácio Pimenta. E foi durante uma visita ao museu, logo nos primeiros dias do desconfinamento, que se encontrou o nome Aproveitanto uma aberta.

“Este projeto começou por ter um título diferente, com o qual nunca estive totalmente satisfeita. Nos primeiros dias em que voltámos à vida e as coisas começaram a reabrir, visitei o Palácio Pimenta com o João Gambino, para decidirmos em que moldes poderíamos instalar lá os vídeos. Chegámos à sala onde está o quadro de Arthur May, e o João chamou a minha atenção para esta pintura, onde vemos uma mulher diante do Hotel Avenida Palace, nos Restauradores, a caminhar para atravessar a rua. O João comentou que aquela era a imagem do desconfinamento. E o título do quadro é bonito, usa o gerúndio, e descrevia aquele exato momento em que recomeçámos a sair à rua”, partilha Madalena Alfaia.

Texto de Flávia Brito
Fotografias de Bruno Simão©

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