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Aurora: a primeira editora no feminino “é esperança” e “um novo começo” para a literatura portuguesa

“A Aurora é esperança”, é assim que Helena Magalhães, curadora da nova editora portuguesa, descreve…

Texto de Patrícia Nogueira

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“A Aurora é esperança”, é assim que Helena Magalhães, curadora da nova editora portuguesa, descreve Aurora Editora, a primeira editora portuguesa a editar apenas obras de autoras femininas, da literatura portuguesa e internacional.

Aurora é “aquele momento entre a noite e o dia, em que tudo parece mágico. Cada dia traz uma nova aurora, novas oportunidades, novas vidas. Quando idealizámos a Aurora, sabíamos que queríamos ser uma nova voz, um novo caminho, um novo começo. Era como um novo amanhecer na nossa literatura. Daí o nome Aurora”, começa por explicar Helena Magalhães, criadora do Book Gang, autora de “Diz-lhe que não”, “Raparigas Como Nós”, “Ferozes”, uma voz ativa na procura por pôr a geração digital a ler - uma ativista literária – e agora curadora da Aurora Editora.

Se recuarmos ao que motivou a criação desta editora, Helena apresenta-nos dados que, apesar de serem (levemente) conhecidos por todos, são aprofundados por poucos. “80% dos livros mais populares da história da literatura foram escritos por homens, apenas dezasseis dos 117 prémios Nobel de Literatura foram atribuídos a mulheres, os vencedores dos prémios literários que existem em Portugal são maioritariamente homens. A título de exemplo, o Prémio da Sociedade Portuguesa de Autores, atribuído desde 2010, só teve duas mulheres vencedoras na categoria de ficção literária. O Prémio Leya, atribuído desde 2008, só teve uma mulher vencedora. O prémio José Saramago segue o mesmo registo com somente duas vencedoras mulheres”, Helena diz que “há um padrão, no mundo, mas fortemente enraizado em Portugal, de que os escritores homens são levados mais a sério”, isto porque, “quando chegamos ao nosso mercado que é pequeno, limitado, bastante conservador e que ainda carrega o fardo de sermos o país da Europa com a menor taxa de leitura, não é uma surpresa que, até então, este tenha sido feito por homens e para homens. As prateleiras da ficção lusófona nas livrarias continuam a estar preenchidas em grande parte por livros escritos por homens. No ensino secundário, continua-se a ler somente homens. E há a própria perceção inconsciente que temos sobre a autoridade das vozes masculinas”. Por isso, “cientes da desigualdade de oportunidades na literatura portuguesa”, Helena Magalhães juntou-se à Cultura Editora, com quem já colaborava antes, para “criar uma editora para descobrir vozes femininas e publicar histórias escritas por mulheres que possam ter impacto na geração de leitores de hoje”.

Nos últimos anos, a Cultura Editora tem descoberto e publicado novas vozes da literatura portuguesa, como Íris Bravo, Maria Isaac, Carla M. Soares, Nuno Nepomuceno ou Ruth Manus, “esta visão contemporânea e vontade de abrir caminho à nova literatura”, conta Helena Magalhães, acabou por ir ao encontro dos seus ideais, principalmente do Book Gang que criou em 2019 – “A Aurora nasceu assim deste casamento de ideias que pretende aumentar as oportunidades para as vozes femininas na literatura em Portugal e trazer para o nosso mercado livros que incentivem para a leitura”.

Os desafios de criar uma editora no feminino são “iguais aos de qualquer editora – chegar aos leitores”, no entanto, a curadora explica que “Em Portugal continuamos agarrados a uma “elite dos 1500”. Se um autor vende mais de 1500 livros é mau, é popular, é light, é para vender nos supermercados. Na minha visão, um autor que vende mais de 1500 (livros) tem potencial de ter impacto na geração de hoje. Somos o país da Europa onde menos se lê porque continuamos agarrados a esta visão conservadora e arcaica de que a literatura é uma arte superior que não pode, nem deve, chegar às massas. Não é de admirar que Portugal seja o país com menos educação da UE, apenas 52% da população portuguesa neste momento concluiu o ensino secundário e estamos cerca de 26 pontos percentuais abaixo da média da UE. Isto é grave e espelha problemas muito maiores e profundos. Continuamos a ter um PIB mais baixo do que a média europeia e elevados níveis de pobreza, exclusão social e abandono escolar. Quanto menos livros se venderem, mas caros eles vão e ser e, como tal, de acesso cada vez mais exclusivo a um nicho da população. Eu não acredito nisto. Eu acredito nos livros enquanto fomentadores de mudanças na sociedade. Eu acredito em histórias que falam para a geração de hoje. E eu acredito no poder transformador das vozes das mulheres no nosso Portugal ainda tão misógino e conservador”.

O primeiro livro lançado foi o best-seller internacional Os Melhores Anos, de Kiley Reid, uma aposta, “em certa medida”, propositada, uma vez que Kiley Reid foi uma das autoras a abanar o mercado americano com este mesmo livro – “Nós queríamos lançar a Aurora com um livro que tivesse esta força disruptiva das vozes modernas e que desse aos leitores um voto de confiança de que pretendemos trazer livros que eles querem ler e que acreditamos nas novas autoras. Os Melhores Anos tem todos os ingredientes que, para mim, vão cativar os leitores de hoje: aborda temas atuais como raça, privilégio, desigualdades de oportunidades e feminismo; tem uma escrita fresca mas cheia de humor e ironia que provoca, que cria emoções; e é um romance cheio de camadas e profundidade que faz refletir e fomenta o diálogo sobre alguns dos temas mais pertinentes hoje, também em Portugal - as desigualdades sociais e o racismo”.

Aurora é uma editora para todas, de portas abertas desde o primeiro dia em que se lançou no mercado. “Queremos descobrir novas vozes femininas dentro da ficção literária. A nossa porta está aberta e já estamos a receber no nosso email muitas, muitas obras. E isto é incrível. Acredito que há por aí histórias extraordinárias à espera de ser contadas”, conclui.

Texto de Patrícia Nogueira
Fotografias de Bárbara Gomes

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