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Na aldeia José Franco

Por Gil Sousa, jornalista que se encontra na esquina

Se há coisa que marca uma revista é uma entrevista. Desde o início que juntámos boa gente e a conversa aconteceu sempre com um café à frente. Onde quer que fôssemos, com quem quer que conversássemos, a cultura era o centro de mesa. Convidados os convidados e escolhido o jornalista, a viagem até Mafra foi rápida. Uma conversa cafeínada entre o David Oliveira, artista plástico, e o João Luís, um ceramista da Aldeia José Franco na aldeia do Sobreiro em Mafra. Para os que pensam que os artistas plásticos e os oleiros são tímidos, tomem lá mais um Café Central que, desta vez, salta também da Revista Gerador 11 para o online ;-)

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O David faz esculturas em arame, desenhos no ar. O João molda barro (chamei-lhe “oleiro” a princípio; estava mal. Oleiro é quem trabalha com a roda, ceramista é quem, no geral, trabalha o barro. Também eu aprendi bastante com esta conversa). O David e as suas obras foram destacadas pela imprensa internacional; o João encanta crianças com reviravoltas de barro, sentado na antiga cadeira do mestre José Franco. Achámos que teriam algo a dizer um ao outro, e tínhamos razão.

Começámos pelas mãos. João Luís passou a vida com as dele metidas no barro, e, de peça em peça, a argila foi tendo o seu efeito. Mostra-no-las: tem mãos pesadas, ásperas. "O meu pai era oleiro de roda, e via-o sempre chegar a casa com as mãos gretadas do frio, e a primeira coisa que fazia sempre era aquecê-las na lareira e esfregar com um pinguinho de azeite. Quando chego a casa a minha mulher diz, 'Mostra lá as mãos', e se ela visse umas mãos assim como as suas [é facto que os repórteres tendem a cingir-se à ponta dos dedos], encantados. Mas as minhas são ásperas". O David diz-nos que uma das razões pelas quais parou de trabalhar com barro foi precisamente as mãos. "Secavam muito, tinha de estar sempre a pôr creme. Era desconfortável". O David trabalha com ferro queimado, tipicamente usado em obras, e por causa das limalhas tem de usar luvas. "Foi uma das coisas que decidi. Não estou para estragar as mãos". Ingenuamente, pergunto se não se podia fazer o mesmo para trabalhar com barro. "Não! Tenho de sentir", diz-me o senhor João. O David concorda: "Sem sentir não tem piada".

Claro que quero saber como é que o David passou do barro para os seus desenhos em metal, e ele explica-mo da maneira mais simples: para fazer modelos de barro, o arame entra como estrutura básica da peça, à volta da qual o barro é acrescentado. "Quando acabei a faculdade, de repente fiquei sem uma mufla, sem espaço, sem tudo aquilo, por isso tive de pensar no que é que podia continuar a fazer". Desenhos no ar, pois claro. Não é preciso cozer arame, suja menos, e o desenho tinha-lhe dado os “processos mentais” que utiliza hoje. "Eu vejo as coisas como aqueles exercícios de ligar os pontinhos", explica o David ao João. "Eu tenho pontos, sei que quero vir daqui para aqui e depois para aqui sem voltar a tocar aqui... E vou imaginando o percurso assim. Se passa aqui uma linha grossa, ali vão ter de ser dois arames, etc.".

Hoje em dia, a Aldeia Saloia é vista como um museu etnográfico. Na altura em que o Mestre José Franco a planeou, chamar-lhe-íamos uma curiosidade. "Há aí casas e oficinas pequeninas a que eu ajudei a abrir os alicerces", diz João Luís, "e marcas dos meus dedos que eu deixei para me lembrar". Para ele, o mais importante é agradar às crianças. "Eu estou com sessenta e um. Daqui a uns dez anitos, já ninguém me liga nenhuma. Mas uma criança de dez anos, daqui a mais dez tem vinte, já muda tudo. É um adulto que passa por aqui e se lembra daquele velhote de barba branca que fazia rosas". E tem toda a razão, diz David: "Todos os que aqui estão já cá vieram em crianças, e todos se lembram".

As minhas próprias memórias assaltam-me enquanto olho para pequenos pormenores n'Aldeia. Enquanto o João e o David falam de diferentes tipos de barro eu penso que, há qualquer coisa como quinze anos, eu era uma das crianças que de vez em quando aparece e espreita para dentro da sala onde conversamos.

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"... existe barro artificial, mas se mostrares às pessoas a composição daquilo...", está o David a dizer quando eu regresso da minha viagem ao passado, "mais vale trabalhar de luvas mesmo, porque aquilo está tão impregnado de porcaria, faz tão mal...". O João concorda e completa, "a melhor coisa para as mãos é barro puro. Para além de que barro é terapêutico. Uma pessoa que esteja com alguma ansiedade, stress, em vez de estar a tomar comprimidos, se tiver o barro, e também se entusiasmar, não precisa de mais nada".

Ambos têm as mãos em cima da mesa enquanto falam, e eu não consigo deixar de pensar nelas. São mãos preciosas, estas, das quais dependem tantos desenhos no ar e a estupefacção de crianças e adultos de visita à aldeia, mas nessas actividades pode estar contido o seu próprio fim. Pergunto aos dois pela artrite, e pela qual quero dizer todos os problemas que podem destruir estes instrumentos delicados. O senhor João sorri. "Agora estou na idade do condor. Com dor aqui, com dor ali... Joelhos e costas, principalmente. Mãos, nada". E o David? "Não tenho dores, mas tenho medo. Penso nas costureiras, que ficam com tendinite por fazerem sempre os mesmos movimentos; com a repetição a probabilidade é grande". Agora têm ambos as mãos a rodar no ar, cada um meio absorto nas suas. "Também...", o David continua, "as mãos são só uma extensão. Se não tivéssemos esta tínhamos aprendido a usar outra. Uma vez experimentei ditar uma escultura. Faz assim, agora assim. Demora, mas pode ser feito. Claro que é difícil, porque eu domino estas extensões".

O João gosta da ideia de ditar esculturas. Faz o mesmo com as crianças que o visitam, porque, diz ele, é importante que elas vejam como fazer. Dizer só não chega, não serve para nada. Aliás, nós próprios temos de ver. Entusiasmado, o ceramista quase nos carrega ao colo de volta à oficina, e em menos de nada está a espalmar um pedacinho de barro entre as mãos. Falamos mais entre instruções (não é espalmar de qualquer maneira. É espalmar assim): das fábricas de barro branco nas Caldas da Rainha; de rosas de barro que cheiram mesmo a rosa (e cheiravam); de como o tempo passa depressa enquanto as mãos estão ocupadas e o pensamento autorizado a tratar de si.

João Luís completa uma rosa e um capacete em três tempos, que nos oferece. O David ainda lhe mostra alguns dos seus trabalhos, que o ceramista acha "um mimo", e trocamos algumas impressões sobre como os polegares são os dedos privilegiados do século XXI.

Cá fora, o dia ainda vai a meio. Enquanto falamos, chega mais uma carrinha cheia de crianças que vêm passear pela Aldeia Saloia num turbilhão de espanto e energia. David lembra as maquetes das estátuas no Convento de Mafra, aqui pertinho, que agora se conservam na biblioteca do monumento. "Vêm de Itália, as estátuas. Como os portugueses não faziam nada daquilo, o rei encomendou aos italianos, que mandaram as esculturinhas em barro. Foram aceites, e eles cá vieram”.

E depois terminou. Apertámos as mãos em jeito de despedida, partilhando do barro que o João ainda trazia nas dele, e separámo-nos. Vim para casa escrever isto, usando só as pontinhas dos dedos e sem sujar nada, o que não deixa de ser, depois disto tudo, ligeiramente desapontante.

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Café Central por Gil Sousa
Fotos do Herberto Smith

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