Carlos Alves é Designer Gráfico de profissão, mas um apaixonado pela fotografia e pela dança. O seu percurso profissional é já longo e conta com vários anos de experiência e formação profissional. Viveu toda a sua vida no Porto, cidade que visita sempre que possível, agora que vive na Polónia, em Varsóvia. Foi em 2014, fim da crise económica vivida em Portugal, que Carlos sentiu a necessidade de procurar emprego lá fora. 

Conta ao Gerador que a fotografia sempre teve um papel importante na sua vida – fotografou muito pelas ruas do Porto e já na Polónia foi fomentador de alguns projetos fotográficos nas empresas por onde passou. Anos mais tarde, em Varsóvia, recuperou a fotografia de dança, graças à bailarina Natalia Maria Wojciechowska. “A Natália foi alguém que teve uma importância decisiva nesta minha incursão, ou regresso, ao universo da dança. Sem ela, muito provavelmente o projeto “Dancers and their Cities” nunca teria existido. E aprendi imenso com ela”, afirma. 

O projeto “Dancers and their Cities” nasce assim inspirado por vários outros projetos de fotografia, entre os quais o projeto “Ballerina and the City”, de Natalia Maria Wojciechowska, no qual participou. “Se formos a ver, isto que eu fiz não é nada de novo”, afirma. Contudo, este é o projeto através do qual pretende dar a conhecer o trabalho de muitas escolas privadas espalhadas por Portugal, criando a oportunidade dos jovens e professores envolvidos mostrarem o seu trabalho. “Isto é algo a que eles não estão habituados e que, segundo o feedback deles também, dizem que foi uma experiência única na vida. Para mim isso é muito mais importante do que verdadeiramente aferir se a ponta está bem feita”, explica Carlos.

Em entrevista ao Gerador conta o seu percurso profissional e a sua relação com a fotografia e a dança, nomeadamente o Ballet, e como arrancou o projeto “Dancers and their Cities”, ao qual pretende dar continuidade, continuando a percorrer as cidades portuguesas, com a promessa de que irá ser alargado para a capital Polaca e outras cidades europeias.

Gerador (G.) – Começando pelo início e também para perceber o seu percurso até chegarmos ao projeto “Dancers and their Cities”. O Carlos viveu no Porto até 2014, nessa altura mudou-se para a Polónia. Esta mudança esteve relacionada com algum projeto profissional?

Carlos Alves (C.A.) – A mudança em 2014 para a Polónia esteve relacionada com o reflexo do fim da crise de 2008, eu nessa altura estava a trabalhar como trabalhador independente na área do Design Gráfico, porque a minha profissão é maioritariamente Design Gráfico. Em 2014 as coisas apertaram ainda mais então decidi mudar. Procurei emprego por toda a Europa e fui aceite como Designer Gráfico sénior numa multinacional francesa, na Polónia.
Eu fiz um curso de Multimédia e Vídeo no Instituto Profissional do Porto e depois enveredei pela área da publicidade e designer gráfico. Mas a fotografia ficou sempre. Fiz muita fotografia de rua – street photography – no Porto, onde vivi até me mudar para Varsóvia. Depois parei por questões profissionais, e dediquei-me mais à minha área profissional.
Quando cheguei à Polónia surgiu na empresa a oportunidade de fazer fotografia, nomeadamente fotografia de produto. Entretanto mudei de empresa aqui em Varsóvia e nesta empresa houve a possibilidade de criar um estúdio de fotografia, para a chamada fotografia de cena – ali fizemos campanhas de publicidade para o Mundo inteiro e spots publicitários. A ideia da fotografia de cena era depois serem usadas nas campanhas.

G. – Conta que a relação com a fotografia começou com fotografia mais corporativa e de produto. Quando é que percebeu que era na fotografia de dança que gostava de trabalhar?

C.A. – O bichinho da fotografia cresceu muito nestes últimos quatro anos. Conheci uma artista fabulosa a Natalia Maria Wojciechowska, que tem um projeto chamado “Ballerina and the City”, há já alguns anos. O meu primeiro contacto com a Natalia foi numa peça de ballet que ela fez aqui em Varsóvia, e foi aí que a conheci. A partir de então ela convidou-me para uma série de projetos entre eles esse “Ballerina and the City”. A Natalia convida frequentemente diversos fotógrafos para este projeto e eu fiz penso que três sessões com ela para este projeto, uma delas em Kiev. 

Entretanto no inicio de 2019 a empresa onde eu estava teve graves problemas financeiros e na altura eliminaram por completo a equipa de Marketing e fiquei desempregado. Ainda fiquei até outubro a tentar arranjar emprego aqui na Polónia e nessa altura decidi voltar a Portugal. Quando cheguei a Portugal vinha com aquela pica toda. Eu sou uma pessoa que não consegue estar parada e a dança, nomeadamente o ballet clássico, foi algo que sempre me disse bastante. Isto porque o meu primeiro trabalho profissional em Portugal, quando acabei o curso, foi filmar o evento “GUIdance – Festival Internacional de Dança Contemporânea” – neste evento, na altura, convidavam uma companhia de dança internacional, nesse ano uma londrina, e depois escolas de dança portuguesas. Durante o dia faziam vários workshops e ensaios e à noite apresentavam um espetáculo com as escolas portuguesas. Na altura estivemos a filmar toda a semana, de manhã, à tarde e à noite. Este foi o meu primeiro contacto com a dança em termos profissionais, porque a minha mãe também tinha sido bailarina de clássico quando era nova, chegou até a ser convidada para a Gulbenkian, e mais tarde fiz alguns projetos na área do Tango e das Danças de Salão e depois parei por aí.

G.- Falou da Natália e do projeto “Ballarina and the City”. Foi a partir desse projeto que surgiu a ideia para o “Dancers and their Cities”?

C.A.- Já de regresso a Portugal, em novembro de 2019, decidi fazer o “Dancers and their Cities”. Sinto que em Portugal a fotografia de dança está um bocado parada. Isso também se deve ao estado em que a dança está em Portugal, porque parece-me que a dança não é valorizada como devia ser, como aliás muitas áreas da cultura em geral. Nós temos um potencial fantástico em Portugal, mas a dança é muito marginalizada pelo Estado português. Se não são estas pequenas escolas de dança, privadas, montadas por uma ou duas professoras…
Eu quando cheguei a Portugal pensei que tinha que fazer alguma coisa, primeiro porque adoro fotografar danças, e sobretudo ballet clássico. Outras áreas da dança não estou tão ligado, mas tentei ao máximo representar todos os tipos de bailarinos que surgiram.

G.- E quem são estes bailarinos? Como é que o Carlos entrou em contacto com eles e como correram as quase 72 horas de filmagem até ao momento?
C.A. – Algumas escolas eu já conhecia. Mas quando decidi arrancar com o projeto fiz uma campanha no Facebook onde apresentei o projeto e, no fundo, andei à procura de bailarinos. Já tive imensos contactos e mais ainda quando comecei a apresentar as fotografias, resultado das sessões.
Eu adoro fotografar crianças – e é claro que também gosto muito de bailarinos profissionais – embora com crianças seja muito mais complicado porque não têm experiência nenhuma. E por isso quando fotografo crianças peço sempre que a professora esteja presente para ajudar na tradução artística e técnica também. Fotografar crianças é muito mais complicado, mas é também muito mais genuíno. Fotografar profissionais é muito mais simples porque eu não preciso de dizer nada, eles sabem o que têm que fazer. Com as crianças é preciso ter atenção a diversos elementos técnicos: a posição do pé, das mãos, as pernas esticadas…é que depois o público do Ballet ou da fotografia de dança é muito exigente. Tive algumas criticas em algumas das minhas imagens, especialmente no Facebook, em que as pessoas chegam até a ser agressivas. Eu valorizo naturalmente toda a componente técnica do Ballet, mas para mim o mais importante no projeto “Dancers and their Cities” é, mais do que ter a perfeição, a participação dos miúdos, a experiência para eles. Isto é algo a que eles não estão habituados e que, segundo o feedback deles também, dizem que foi uma experiência única na vida. Para mim isso é muito mais importante do que verdadeiramente aferir se a ponta está bem feita. Ao mesmo tempo, o objetivo foi também projetar a dança, estas escolas, e dar a estes miúdos este tipo de experiência.

G.- E agora pretende dar continuidade ao projeto? Alargá-lo a outras cidades portuguesas e, quem sabe, outras cidade europeias e mundiais?

C.A. – Agora que voltei para a Polónia estou a pensar alargar o projeto e continuá-lo aqui. Quando voltar a Portugal, portanto entre novembro e dezembro, para umas férias, conto retomar o projeto, claro. Até porque houve muitos contactos cujas sessões ficaram por fazer, uma vez que entretanto voltei para a Polónia. Mas na Polónia é mais complicado porque as cidades são todas muito longe e fica tudo muito disperso. Complica em termos logísticos e financeiros, porque isto é um trabalho cujas despesas são todas minhas. 

G. – Qual está a ser reação ao projeto e qual a mensagem que pretende transmitir?

C.A. – Se formos a ver, isto que eu fiz não é nada de novo. A novidade é ser um português a fazê-lo em Portugal. Há uns anos sei que houve um projeto do género, mas somente em Lisboa. A minha ideia foi fazer por cidades portuguesas porque nós temos cidades lindíssimas e, portanto, a ideia era também mostrar essas cidades. Ainda não fiz nem sequer 5% do que poderia ter feito.
Este projeto em termos artísticos não é nada de novo existe por exemplo o “Ballerina Project” e aí entram fotógrafos de vários pontos do mundo. Eu baseei-me em todas estas ideias para o “Dancers and their Cities” com a particularidade de que é só um fotografo a passear pelo país e a fotografar estudantes de dança e professoras profissionais.

G.- E até onde é que o Carlos pretende levar o seu trabalho? Qual próximo projeto ao qual devemos estar atentos?

C.A.- Agora existem muitas outras ideias para implementar. Estou a pensar fazer um filme – estou agora a escrever o script – de maneira que vai ser escrito e dirigido por mim. A Natalia será a principal bailarina. E o filme vai ser gravado em princípio no final deste ano e início de 2021.
Ao nível da fotografia vou fazer o possível para continuar e alargar o “Dancers and their Cities”, não só na Polónia mas noutras cidades aqui perto. Depois, de projetos à parte, ainda não tenho nada planeado. Neste momento estou novamente a trabalhar com a Natalia, faremos também alguma coisa com os alunos dela porque tem uma escola de Ballet e também uma companhia de bailado. E acho que é isso. 

Entrevista de Bárbara Dixe Ramos