fbpx

Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Opinião de Adriana Dias

Carta do Leitor: André, cala-te só um bocadinho…

A Carta do Leitor de hoje chega-nos pelas mãos de Adriana Dias, que estabelece um paralelo entre o seu dia a dia, e a panorâmica política atual.

Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

A Clara chegou pontualmente às 12h30. Enquanto esperava que eu encontrasse a chave do escritório, olhou pela janela e disse: “isto agora são só indianos. É impressionante. Está a ficar impossível”. Não fosse o facto de ser amiga da Clara desde os oito anos – e já terem passado alguns desde que ambas festejámos o 40o aniversário – e talvez tivesse inventado que a chave se encontrava em parte incerta e que, sem poder fechar o escritório, o almoço teria que ser cancelado. Porque o que é impressionante, na verdade, é a enxurrada de comentários ignorantes que todos os dias ouço e leio. E isso, sim, está a ficar impossível.

André Ventura, por favor, estás a arruinar a minha vida social. Nos últimos seis meses, as sementes que foste plantando desde que trocaste o Benfica pela Assembleia da República estão a crescer avassaladoramente entre pessoas “comuns”. Chamo-lhes “comuns” por não saber outra forma de qualificar amigas, colegas ou familiares que (mais à direita que eu, é certo, mas ninguém com a cabeça rapada) passaram a proferir comentários racistas e xenófobos como quem diz “prefiro esparguete a fusilli”: com naturalidade, sem um pingo que seja de vergonha e, o pior de tudo, com propriedade. E sabes, André, não há nada que me irrite mais do que pessoas que falam com propriedade sobre assuntos que desconhecem. Pessoas que te ouvem em looping na televisão a vociferar impropérios fáceis de decorar, meia dúzia de chavões simplórios, e repetem- nos como se fossem especialistas.

André, André... De cada vez que alguém que gosto diz “o gajo é doido. Mas até tem razão em algumas coisas” morre um golfinho. E morro eu, de bocadinho em bocadinho, desesperançada, cada vez com menos ar para respirar. É isso que me fazes, André. Tiras-me oxigénio de cada vez que falas.

Na semana que escrevo estas linhas, imigrantes foram atacados no Porto, André. Tão perto de onde vivo com a minha família, bandidos que levam a sério o que propagas (ódio e estupidez) espancaram pessoas imigrantes na sua própria casa, invadindo-a aos pontapés. Entendes porque sou intolerante com intolerantes? Porque não sei o que mais poderei fazer para travar o mundo em que me queres obrigar a viver: violento, ignorante, inseguro para quem já está tão frágil, para quem já se subjuga tanto.

Sabes, de cada vez que passo por pessoas magrebinas ou indostânicas olho-as bem nos olhos e sorrio-lhes. Devem achar que sou doida, com certeza. Mas, de que outra forma poderei “dizer-lhes” que não votei em ti, que o teu partido, para mim, é inconstitucional, que todas são bem-vindas, que lamento tanto, mas tanto o que os meus concidadãos e concidadãs estão a fazer-lhes?

André, tenho a confessar-te que os meus almoços têm sido solitários. Não quero deixar de ser amiga da Clara, que não vê noticiários porque “são só desgraças”, não ouve podcasts sobre a atualidade política porque não tem tempo e não lê jornais porque, afinal, quem lê?

A Clara é mãe solteira de três adolescentes. E quando digo solteira o que quero realmente dizer é que os filhos veem o progenitor de seis em seis meses, com sorte. Ou azar, depende da perspetiva. Obviamente que a fonte da atualidade da Clara é a “Bilbia mt engarsada” quando, à noite, se atira para o sofá estourada. De meme em meme, a Clara vai fazendo scroll down e é aí que tu entras em campo, André, porque o algoritmo adora-te, não é? Seja no Instagram, no Tik Tok, no YouTube ou no Facebook, não há forma de a Clara te ignorar. Há quem diga que a qualidade (aka impertinência) dos teus vídeos é o motivo para se tornarem virais. Mas não é verdade. A imagem é péssima e as edições são uma anedota. Pagando (e não é pouco), qualquer conteúdo nas redes sociais se torna viral. E a pobre da Clara, cansada de sustentar quatro pessoas sozinha, de fazer almoços e jantares, de passar a ferro, aspirar e pôr duas máquinas de roupa e uma de loiça a trabalhar, dá de caras contigo. Ei, André, calma, não te regozijes já: a Clara nunca votou em ti. Mas, de almoço em almoço, sinto-a mais longe de mim. Um comentário xenófobo aqui, uma palavra racista ali e a amizade de 35 anos começa a esfriar e eu respondo aos convites da Clara para almoçar com “hoje não posso, tenho trabalho atrasado”.

André, estás a tornar a vida um bocadinho insuportável, sabes?

O meu tio Quim combateu na guerra colonial. Matou e viu matar. Sempre o soube racista, mas um certo pudor fazia-o demonstrar o preconceito sob a forma de anedotas. Depois do cumprimento oficial nos encontros de família, sem falhar, lá vinha: “primaça (é assim que me trata), já sabes aquela do preto...” E ria-se. Ria-se muito. Eu não achava piada às anedotas, mas as suas gargalhadas, como um gaiato que sabe que disse um palavrão e não devia, sempre foram capazes de me arrastar com elas.

Hoje, não consigo estar com o meu tio Quim. As anedotas continuam a ser contadas, mas em vez de virem acompanhadas pelas suas gargalhadas sonoras, têm como companhia comentários racistas, mesquinhos, insolentes, ignorantes. O meu tio já não tem pudor em ser descaradamente racista. E a culpa é tua, André. Tu legitimaste o racismo. E ao fazê-lo, tornaste desesperadora a vida de quem o rejeita, de quem o condena.

Tu, os 49 elementos que levaste para a Assembleia e, mais recentemente, a caricatura de candidato que escolheste para o Parlamento Europeu, conseguem provocar-me ansiedade severa todos os dias. Não me agrada nada ser dramática, acredita, mas tu e a grupeta que te segue metem-me medo. Medo porque ninguém sabe como agarrar a tua popularidade e despejá-la na sanita. Organizam-se fóruns, mesas de debate e palestras e, da direita à esquerda, não há quem conheça os ingredientes do antídoto que faça desaparecer as sementes que plantaste e que estão a dar tantos frutos podres.

Gostas de memes, André? Conheces aquele do Toy? Não? Uma criança pede-lhe, no meio de uma festa onde o Toy cantava: “cala-te só um bocadinho...” Por favor, André, cala-te só um bocadinho.

Se quiseres ver um texto teu publicado no nosso site, basta enviares-nos o teu texto, com um máximo de 4000 caracteres incluindo espaços, para o geral@gerador.eu, juntamente com o nome com que o queres assinar. Sabe mais, aqui.
Texto de Adriana Dias

As posições expressas pelas pessoas que escrevem as colunas de opinião são apenas da sua própria responsabilidade.

Se este artigo te interessou vale a pena espreitares estes também

23 Julho 2024

Tranças de resistência

22 Julho 2024

A nuvem cinzenta dos crimes de ódio

22 Julho 2024

Incertezas e ambiguidades: a nuvem cinzenta dos crimes de incitamento ao ódio

19 Julho 2024

Tempos Livres. Iniciativas culturais pelo país que vale a pena espreitar

18 Julho 2024

Carta do Leitor: Admitir que não existem minorias a partir de um lugar de (semi)privilégio é uma veleidade e uma hipocrisia

17 Julho 2024

42: Caixas e cartas

17 Julho 2024

Mais de 1800 pessoas e entidades defendem “liberdade de escrever, de publicar e de ler”

16 Julho 2024

Assassinato de carácter: o (pré)juízo de Cláudia Simões

12 Julho 2024

Tempos Livres. Iniciativas culturais pelo país que vale a pena espreitar

11 Julho 2024

Carta do Leitor: Afinar a curiosidade na apressada multidão

Academia: cursos originais com especialistas de referência

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Introdução à Produção Musical para Audiovisuais [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Viver, trabalhar e investir no interior [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo e Crítica Musical [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Iniciação ao vídeo – filma, corta e edita [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Criação e manutenção de Associações Culturais (online)

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Planeamento na Produção de Eventos Culturais [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Narrativas animadas – iniciação à animação de personagens [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Comunicação Cultural [online e presencial]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Escrita para intérpretes e criadores [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Fundos Europeus para as Artes e Cultura II – Redação de candidaturas [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Financiamento de Estruturas e Projetos Culturais [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Soluções Criativas para Gestão de Organizações e Projetos [online]

Duração: 15h

Formato: Online

Investigações: conhece as nossas principais reportagens, feitas de jornalismo lento

22 Julho 2024

A nuvem cinzenta dos crimes de ódio

Apesar do aumento das denúncias de crimes motivados por ódio, o número de acusações mantém-se baixo. A maioria dos casos são arquivados, mas a avaliação do contexto torna-se difícil face à dispersão de informação. A realidade dos crimes está envolta numa nuvem cinzenta. Nesta série escrutinamos o que está em causa no enquadramento jurídico dos crimes de ódio e quais os contextos que ajudam a explicar o aumento das queixas.

5 JUNHO 2024

Parlamento Europeu: extrema-direita cresce e os moderados estão a deixar-se contagiar

A extrema-direita está a crescer na Europa, e a sua influência já se faz sentir nas instituições democráticas. As previsões são unânimes: a representação destes partidos no Parlamento Europeu deve aumentar após as eleições de junho. Apesar de este não ser o órgão com maior peso na execução das políticas comunitárias, a alteração de forças poderá ter implicações na agenda, nomeadamente pela influência que a extrema-direita já exerce sobre a direita moderada.

A tua lista de compras0
O teu carrinho está vazio.
0