Mel e outros líquidos do mesmo tom amarelo acastanhado fazem soar o canto de um paiol dos Açores. E o mesmo som que muitos outros pássaros, num chilrear imponente e contínuo, com ligeiras variações de volume, intensidade e cadência naquele coletivo de passarada, que se ouve, em parte, graças a uma máquina azul. O sol incide exatamente sobre a maquinaria, como se soubesse previamente que a obra artística iria sair dali. Toda esta descrição pode parecer um pouco incomum e até um pouco estranha ao leitor. Mas nestas primeiras linhas assistimos à primeira atuação do segundo dia do Exquisito. E bom, o que se pode exigir de um festival assim se não uma performance exquisita?

Chilrear de Mesa com Francisco Pinheiro e Paulo Morais

Toda aquela engenharia é controlada por dois artistas, Francisco Pinheiro e Paulo Morais. Os dois rodam à volta da sua mesa que chilreia, ajustando válvulas para controlar o som. Desde o início da atuação até ao momento em que o público que se junta ali na Esquina da Capela começa a aplaudir, os dois nunca desviaram o olhar da sua instalação sonora. Uma senhora de idade passa com o seu saco de compras e esboça uma expressão de incompreensão face ao que vê (e ao que ouve). Depois passam dois senhores de fato, que seguem talvez rumo às suas casas e famílias, depois de um cansativo dia de trabalho. Olham com estranheza aquele cenário. O som vai gradualmente diminuindo e os artistas lentamente afastam-se cada vez mais da máquina sonora. De repente, ouve-se o riso de uma criança, e o público repara que não se ouviu nenhuma ave canora por detrás do riso. Eis que o silêncio leva o público a aplaudir alegremente, enquanto Francisco e Paulo agradecem numa vénia conjunta. De seguida, ouve-se novamente pássaros a cantar, mas, desta vez, pássaros verdadeiros.

E, tal como em qualquer outro dia de Exquisito, também o dia de ontem trouxe uma Conversa Exquisita, desta vez sob o tema “Depois das certezas absolutas nas artes musicais”, onde se abordam as certezas e incertezas da música e o seu futuro. Daniel Neves inaugura o diálogo com uma questão dirigida a Joana Gama e a Luís Fernandes, que atuam em duo mais tarde no Auditório da Biblioteca. Joana Gama é pianista de formação clássica. Luís Fernandes é programador.

Conversa Exquisita sobre “Depois das certezas absolutas nas artes musicais”, no Pátio da Biblioteca

Luís afirma que a ligação entre os instrumentos acústicos e a eletrónica não é recente e que procura, com a sua atuação neste festival, “encontrar um espaço na relação entre estes dois instrumentos”. O músico Mestre André, que ocupa uma cadeira da ponta no painel de oradores, esconde o seu olhar atrás de uns óculos escuros, que combinam com o seu vestuário negro. A sua companheira de atuação, desabafa agora com o público, que se distribui por todo o pátio da Biblioteca Orlando Ribeiro, em Telheiras. “Sempre que faço concertos, penso que deveria ter tocado menos, reduzir, dar espaço a coisas mais pequenas, em vez de procurar a complexificação da música”. Depois sorri e revela que John Cage é seu padrinho. “Ele não sabe que é, mas é muito importante para mim aquela frase que ele diz: ´faz o que tens a fazer`”, afirma Joana Gama, que declara, em seguida, que ela e Luís são pessoas bastante diferentes a tocar na vida real, mas não muito críticos em relação um ao outro.

Passa-se, agora, a palavra ao Mestre André, que revela na conversa uma ideia sua bem definida. ”Acho que se não houver um ambiente completamente fechado e escuro, as pessoas não conseguem fechar os olhos”, declara, sorrindo. Na plateia, a audiência é bastante diferente, mas todos olham com um sorriso para os artistas que durante aqueles minutos partilham com eles as suas convicções e certezas (até incertezas). “Já tive mais certezas absolutas”, diz André, conquistando um riso geral. Depois, o seu rosto torna-se novamente sério, sem, por isso, deixar de transmitir um semblante sereno, que esconde o olhar vivo típico de artista por causa dos óculos escuros. “Eu quero uma escuta livre, fora de emoções”, afirma, sublinhando que as suas obras não estão focadas no lado emocional, e refere o que são para si, três técnicas que vendem: “sexo, amor e paixões perdidas”.

Ao lado de Luís, está Diana Combo, que trabalha com discos de vinil. “Precisei de encontrar uma maneira de trabalhar o som”, explica, argumentando que não tem ainda a proeza de tocar um instrumento com virtuosismo. Diana aproveita para dizer que também adotou o Cage como padrinho, sobretudo, quando ele disse que qualquer um pode ser músico. A jovem deixa transparecer o seu fascínio pior trabalhar com sons que já existem. A artista rebusca memórias de infância, recordando o momento em que depois de vir da escola perguntou um dia ao pai: “como é que temos música num pedaço de plástico?”.  Diana revela que lhe agrada poder guardar os sons e depois ver o plástico dar-lhe os sons de volta. Quando compra discos, é muito tentadora a ideia de poder experimentá-los. Para espanto de alguns, a artista conta que pede sempre autorização para poder alterar as obras dos outros artistas, mas que, em quase todas as vezes, são os próprios artistas que lhe pedem para trabalhar os seus sons e que lhe oferecem até os discos. André já não tem os óculos escuros, e sorri, ao ouvir o que a sua colega diz.

Já na reta final de tão exquisita conversa, Joana conta que aproveitou o som da “gravação de uma caixa de alta tensão junto a uma cascata”. Podia ter aproveitado em vez disso o som da água, mas caixa de alta tensão ofereceu-lhe, naquele momento, a nota musical som num registo afinadíssimo. Diana ri-se e acrescenta um episódio semelhante. “Hoje o elevador do metro tinha um som que pensei: `tenho de cá voltar´”.

Quem descer as escadas da Biblioteca em direção ao subpalco, pode assistir, em breves instantes, à atuação de cinco mulheres, numa performance inspirada na obra “Fragmentos de um discurso amoroso”, de Roland Barthes. “L´age libre” está prestes a começar. Ouve-se agora um coro feminino que se aproxima da sala onde o público espera já as artistas. Depois, as cinco atrizes ocupam as cinco cadeiras que lhes estavam destinadas. Catarina Rôlo Salgueiro, Isabel Costa, Leonor Buescu, Mia Tomé e Nídia Roque. São estes os nomes das cinco mulheres.

L’age Libre com Leonor Buescu, Nídia Roque, Catarina Rôlo Salgueiro, Isabel Costa e Mia Tomé

Uma delas traz na cabeça um lenço colorido, outra uma saia vermelha, a do meio um vestido com corações pretos, e as da ponta um laço vermelho e uma guitarra. Ouve-se uma voz a cantar, mas demora até se conseguir perceber qual delas era. Antes mesmo de se conseguir descobrir, já as cinco cantam “odeio-te” ao mesmo tempo, como se aquela expressão fosse a mais carinhosa que alguém já viu. Ao longo da peça, fala-se de amores e desamores, de encontros e desencontros, de quão estimulante para a criatividade é estar sozinho, de como o amor à primeira vista é como um choque elétrico e do que é estar em osmose com alguém. Até o virar de páginas, perfeitamente encadeado e coreografado coincide com o olhar determinado que as cinco demonstram. Fala-se de “contigos” e do tudo e do nada. Num dos momentos, há uma frase que paira no ar. “Quem quer ouvir falar de amor se não for para alguém?”. E antes mesmo de se poder recuperar desta reflexão, já três destas mulheres têm um leque aberto e gritam a palavra “amor”. Agora diz-se “amo-te” em 5 línguas diferentes, uma de cada vez. Às vezes falam três ao mesmo tempo, outras vezes cinco, ou quatro, ou até só uma. Mas continuam a dizer “amo-te” numa quantidade de línguas cujo número total é, sem dúvida, um múltiplo de cinco. Nesta peça contam-se histórias, ouvem-se verbos que rimam com amor e fala-se da psicóloga da “Elle” e de maneiras como as coisas acabam. As luzes apagam-se e acendem, assim como os amores e os desamores que se cantaram nos últimos minutos naquela sala. A peça chegou ao fim e o público aplaude entusiasmadamente.

Caminhando na direção do Lagar da Quinta de S. Vicente, ouve-se alguém perguntar: “o concerto d´O Morto é aqui?”. São quase nove da noite e Mestre André prepara-se para a sua performance no Exquisito, sob o nome de O Morto.

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A caixa cheia de luzes e botões onde manipula os sons jaz no meio da sala que nem um caixão. Mas O Morto está bem vivo e entra na sala erguendo a mão direita. Essa mão repousa, minutos mais tarde, sobre esta mesa que produz os sons que ali se ouvem. “Boa viagem” são as últimas palavras que O Morto diz. Últimas antes de o concerto começar, claro.

Die Von Brau fecha o segundo dia de Exquisito, deixando o público completamente contaminado pela música envolvente. Hoje outro público e até o mesmo têm a possibilidade de assistir a muitos outros concertos e performances de artistas que prometem, mais do que outra coisa, performances bastante exquisitas.

Texto de Carolina Gaspar
Fotografias de Matilde Cunha
O Exquisito é uma ideia e iniciativa do Gerador

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