Até dia 17 de novembro o Alkantara Festival regressa ao Teatro Bairro Alto. Depois de estrear na Biblioteca Palácio Galveia, a nova criação de Clara Amaral bebe da intemporalidade, pensa a identidade e parte de mão em mão voltando a si.

Passar folha a folha. Para a (re)visitar é necessário consultar o marcador que acompanha o livro de Clara Amaral. A performance pensada para cinco pessoas foi pensada em 2019, num conceito de mestrado e, posteriormente, numa residência no espaço Alkantara. Hoje, abraça-se no festival com um conteúdo de Clara. É íntimo dela e de quem vê.

Clara Amaral estará até 17 e novembro no Teatro do Bairro Alto (TBA).

"Aos poucos tornou-se claro que estava a pesquisar o formato do livro e quais seriam as possibilidades de trabalhar com ele de uma forma mais distinta", afirma.

A pesquisa no Alkantara já foi feita com Karoline Swiezynski, que é a desenhadora gráfica do projeto juntamente com a Ronja Andersen. Tratava-se apenas da ativação das páginas e de tentar perceber se havia possibilidade de criar uma coreografia com as suas mãos e a sua voz.

Acompanhar esta evolução, chegou a vez do conteúdo. "Tornou-se evidente. esta questão da minha avó não saber ler e ter que assinar algum documento. A minha mãe escrevia o nome dela diante de si e, depois, a minha avó copiava. Posteriormente, eu comecei a falsificar a assinatura dela, não numa perspetiva de me aproveitar ou ocupar a sua identidade legal, mas numa perspetiva de poder acolher a mão dela na minha mão", explica.

É desta forma que se (re)pensa a importância do acesso à educação através do gesto, o mesmo que em tempos foi visto como um ato normal, substituir a assinatura por um X. "Acredito que a recusa da minha mãe representar a minha avó com um X é também interessante, uma vez que se trata de não a silenciar devido a uma condição social. Estas pessoas não tiveram ou têm voz, com esta representação", acrescenta.

Clara acolhe a sua mão. A dela e da avó. É neste ato que reflete a permissão de expressar a identidade e a sua importância. A assinatura é também uma representação que influencia a realidade política. Clara reconhece que há uma distância entre a existência de quem cria e a partir do momento que se decide interiorizar aquele é o "teu nome e aquela que é a tua assinatura."

Neste trabalho de pesquisa percebeu que é a segunda mulher na família que sabe ler e escrever. "Acredito que as pessoas que cresceram nos centros de Portugal tivessem vivências diferentes, mas eu venho do Fundão e a minha avó vinha ainda de uma cidade muito mais pequena. Obviamente, houve sempre uma relação mais ligada à terra que não existia com os estudos."

Clara explica ainda que, apesar de esta não ser uma realidade tão presente nos dias de hoje, há vestígios."Por exemplo, se fores a um notário numa relação mais heteronormativa de mulher-homem pode ser que, talvez, a pessoa que esteja a fazer o contrato diga que o homem é o primeiro titular. Ainda que as coisas tenham mudado imenso em termos de emancipação, acredito que ainda existem muitos vestígios dessa realidade. As mulheres estavam muito abrangidas pela autoridade do pai e depois do marido." 

A artista portuguesa que vive atualmente em Amesterdão, explora no seu trabalho a relação entre texto e performance. "She gave it to me I got it from her (Ela deu-me, Eu recebi dela) é um livro e uma coreografia, lida em voz alta e manuseada por uma intérprete, para um grupo de pessoas. É a partir da sua prática artística interdisciplinar que pretende criar um investigação de modalidades de publicação inovadoras, alcançando ainda o aspeto performativo da escrita e da linguagem, através de uma abordagem feminista interseccional.


Texto por Patrícia Silva
Fotografia da cortesia do TBA

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