Acabar uma licenciatura pode trazer mais perguntas do que respostas. Olhar para um futuro incerto — mesmo que com uma bagagem carregada de conhecimento prático e teórico — tem tanto de libertador como de assustador, mas seja qual for o cenário, é sempre um novo começo; um virar de página. “Classificados”, a exposição de fim de licenciatura dos estudantes de Design de Comunicação da Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto (FBAUP) levou essas e outras questões para a Galeria do Museu da FBAUP entre os dias 28 de junho e 5 de julho.

Uma turma de 34 estudantes, que durante quatro anos explorarem juntos o Design, reuniu modos de ver e de estar perante o mundo através das vertentes de editorial, cartaz, tipografia, identidade, fotografia, ilustração e média. Os projetos finais que tinham obrigatoriamente de fazer para terminar a licenciatura serviram de ferramenta para pensarem os limites do Design, as suas práticas e a posição de cada um numa área que tem tanto de aparentemente simples como de complexa. Miguel Santos, um dos estudantes, ficou responsável pela curadoria.

Depois de o Miguel explicar ao Gerador em que consistiu, afinal, esta mostra, reunimos a Beatriz, o Francisco, a Sara, a Margarida, o Rui, a Helena, o Hugo e a Rita, oito dos 34 estudantes, para através de um questionário online partilharem connosco os seus projetos — de Design e de vida. Ainda que o futuro esteja, para eles, em aberto, deixaram-nos uma certeza: estes jovens designers não estão à venda.

Miguel Santos (28 anos)

“Classificados” é a exposição final dos recém-licenciados em Design de Comunicação da Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto. Propõe, com humor, abordar a questão dos estudantes habituados a serem classificados por notas no final do semestre passarem a fazer parte da secção dos classificados do jornal, mas também que estes recém-licenciados pensem no papel do design dentro da sociedade.


Gerador (G.) — Como é que surgiu a ideia de associar a exposição final de Design à dos classificados?

Miguel (M.) — Há uma constante em todas as exposições de finalistas que é a questão da mudança e incerteza características desta fase de charneira dos finalistas. Com algum humor decidi abordar a questão dos estudantes habituados a serem classificados por notas no final do semestre passarem a fazer parte da secção dos classificados do jornal.

O conceito, para além de reflectir o estado actual dos estudantes finalistas, deve ainda propor uma perspectiva particular, uma direcção curatorial para a exposição. Apesar da alusão óbvia à necessidade de um emprego por parte dos recém-licenciados, procurei que o conceito não se limitasse a isso e que a exposição pudesse ser também, um momento para os estudantes ponderarem a sua classificação enquanto designers e reflectirem no papel do Design dentro da sociedade. A possibilidade de tirar partido da disciplina não apenas como reflexo do presente mas também com o intuito de repensar e classificar o futuro foi bem-vinda.


G. — Também tu és recém-licenciado em design. Como é que decidiram que a curadoria ia ficar a teu cargo?

M. — Através de um duelo sangrento que reduziu em muito o número de estudantes do curso. Brincadeira. Na verdade foi muito simples. Uma das disciplinas que faz parte do quarto ano é Projecto/Estágio, em que cada estudante escolhe, como o nome indica, fazer um projecto auto-proposto ou um estágio numa instituição, estúdio, etc. da sua escolha. Eu quis fazer o meu no Museu da faculdade pela possibilidade de pensar e exercer o design enquanto complemento para um projecto mais abrangente assim como reflectir na questão do objecto e a sua relação com o espaço. Cabe ao estagiário do Museu da FBAUP aconceptualização, organização e produção da exposição de finalistas do curso de Design de Comunicação.


G. — Qual foi o processo de seleção das obras/projetos para a exposição?

M. — Os projectos que integram a exposição final dos estudantes de design são seleccionados por um júri composto por três professores do curso e pelo responsável pelo Museu.

 

G. — Sentes que a curadoria da exposição reflete, de alguma forma, as preocupações e motivações de recém-licenciados em Design? Porquê?

M. — A representatividade de 34 pessoas diferentes com trabalhos/linguagens distintas num mesmo espaço pode resultar num projecto expositivo dissonante, dada a diversidade de tipologias de obras e conceitos, uma vez que os trabalhos que integram a exposição não foram desenvolvidos nem seleccionados em função de um tema previamente definido. Assim, o conceito pode e deve colmatar essa questão ao atribuir uma linha condutora e agregadora de todo o projecto, tornando-o coerente. Deste modo, procurei definir uma linha conceptual que não fosse nem muito particular nem, em contrapartida, demasiado global/geral. Os Classificados respondem bem a esta necessidade.

Poderia dizer que os planos inclinados dos dispositivos expositivos presentes na exposição têm relação com os altos e baixos da carreira profissional que nos espera, ou que as superfícies pretas espelhadas sobre as mesas são uma alusão à realidade Black Mirror em que nos encontramos mas não foram pensadas com essa premissa. São soluções encontradas para criar um mood geral e um desenho expositivo equilibrado, original e apelativo, que possibilita o diálogo entre os vários projectos expostos assim como uma circulação dinâmica pelo espaço.

O conceito/curadoria de uma exposição a meu ver pode e deve levantar questões sem responder de forma definitiva às mesmas. O espectador é convidado a tirar as suas próprias conclusões.

Ainda assim, o elemento que se encontra relacionado de uma forma mais clara com o tema da exposição é o mural da entrada que acentua o conceito Classificados. Ao fixar imagens de todos os participantes na exposição de uma forma dispersa, faço uma sugestão visual aos anúncios classificados de um jornal ao mesmo tempo que é defino o tom humorístico e ligeiramente irónico do projecto expositivo, ao mesmo tempo que remeto para um retrato geral de fim de curso, estilo anuário.

G. — Achas que estas propostas se prendem ao contexto académico e expositivo ou, pelo contrário, vivem perfeitamente fora deles?

M. — Sendo que estes projectos foram desenvolvidos, na sua grande maioria, para uma unidade curricular, creio que estarão sempre relacionados com o contexto académico, nem que seja por ilustrarem e reflectirem as preocupações dos estudantes neste período específico, que foi a sua passagem pela FBAUP.

No entanto, vários trabalhos na exposição vão para além disto, quer pelo interesse das soluções formais encontradas, quer pela pertinência dos seus temas. Projectos que abordam os problemas resultantes da gentrificação na cidade, ou que procuram dar voz a quem é visto pelos outros de forma diferente, passando por trabalhos que ponderam nas preocupações de uma sociedade cada vez mais tecnológica e digital, ou ainda um estudo antropológico da situação de um designer recém-licenciado, para além de ‘viverem’ perfeitamente fora do espaço académico, são também de uma importância significativa para o público em geral.

Beatriz Costa, biakosta (22 anos)

“Nova Geração de Designers é um livro em banda-desenhada jornalística e autobiográfica sobre o meu estudo e entrevistas a estudantes de design de várias universidades ao longo do país.

Gerador (G.) — “A exposição propõe que os recém-licenciados se definam e ponderem as suas acções futuras perante a prática do Design“, lê-se na descrição da exposição. Que ferramentas é que a faculdade te deu enquanto futuro/a designer?

Beatriz (B). — Pensamento crítico, muita cultura visual e exigência com o meu próprio trabalho. Esta última é graças às pessoas do meu ano que sempre se puxaram e elevaram mutuamente – espírito de competição saudável (mas que junto da exigência dos professores às vezes chegava a roçar o esgotamento…)

G. — Não é difícil perceber o papel dos designers no mercado. Mas qual é o papel dos designers no mundo?

B. — Pois! “Será que o Design pode salvar o mundo?” Quando entrei para cá pensava no Design como algo que vem para erradicar tudo o que é feio e mal executado – “facilmente” tornando o mundo num local melhor… certo? Mas aprender Design aqui não é fácil, não se tem uma visão simplista e única, ou ‘clubística’ – como se fossemos fãs e ídolos do nosso próprio trabalho. Aprendemos que a partir do Design também se cometeram graves erros no mundo (sendo a suástica o maior exemplo, e a sociedade de consumo não lhe ficando muito atrás). O Design é bom ou mau pela sua estética, por desempenhar bem ou mal uma função ou pela própria função que desempenha? Compreendemos que o nosso trabalho pode ter grande poder e responsabilidade e (acho que muitos de nós, espero!) pomos em causa tudo isso – faz parte do processo. O Design ‘Gráfico’ (que já mal é conhecido com esse nome) passou a considerar muitos mais meios de ‘Comunicação’ e por isso acho que é essa a parte fundamental que se deve trabalhar no futuro – a mensagem, a função, a ideia que é transmitida. De que modo e com que propósito. Isso claramente será passado de forma visual, mas o intelecto e a percepção é que deveriam estar em foco daqui para a frente (pensar como poderemos combater as fake news, por exemplo – deixo o desafio aos designers do futuro!)

G. — De que forma é que a tua obra ou projeto final espelha o que te move enquanto designer?

B. — Se calhar diz que não vou ser designer! (é realmente uma das partes do livro). Durante o processo deste último projeto debati-me com as realidades de estudo e trabalho de vários designers e foi claramente um tempo sabático para repensar o meu próprio percurso e intenções enquanto designer. Das várias conversas que tive, acho que consegui resolver o meu puzzle com o Design através de um amigo (Hugo V. Pereira) que me disse: “O Designer é um gajo (ou gaja!) que pensa nas coisas e depois as mostra de alguma forma. Por isso é uma pessoa porreira para chamar para mostrar uma empresa. Mas podemos mostrar outro tipo de coisas, eventualmente” — e é isso que eu quero fazer! Há tantas coisas que precisam de chegar às pessoas como os produtos nas prateleiras dos supermercados… A educação, a filosofia, a economia… Há tantas matérias mal comunicadas no mundo às quais o design poderia dar uma ajuda… Eu quero continuar a estudar e a usar o design como ponte de comunicação entre a população e essas matérias incompreendidas. Quase de certeza não o farei com logotipos, banners ou cartazes. Se calhar fá-lo-ei através de animação, ilustração, banda-desenhada. Mas… será que isso é Design? Se eu quiser, se calhar sim.

G. — Que obstáculos é que achas que podes encontrar no teu caminho, num futuro próximo?

B. — Chegou agora a fase de procurar trabalho e uma grande parte dessa procura acho que serão rejeições – mas nada que eu não esteja à espera, acontece a todos. Prefiro uma rejeição a um trabalho mal pago. Esse sim é, infelizmente, o pior dos obstáculos da maioria dos designers e que cada vez se torna mais difícil de ultrapassar (como se tivéssemos encalhado num buraco que só conseguimos continuar a cavar) porque atrás de um trabalho mal pago, rapidamente pode outro ainda mais mal pago – ficamos baratos! E isso começa até mesmo dentro da faculdade com professores que nos dizem que devemos trabalhar de graça ou com concursos em que o prémio é trabalhar e “oportunidade de construir portfolio” (sem remuneração ou prémio realmente). Cada exemplo destes é mais uma pedra na consciência que não deixa de pesar e de nos fazer pensar que o nosso trabalho nunca é bom o suficiente, ou que o dinheiro é para os capitalistas. Como é suposto subsistir assim?? A insegurança (financeira e artística) – esse vai ser o maior obstáculo, a curto ou longo prazo.

G. — Que mensagem deixarias para ti mesmo/a, enquanto recém-licenciado, para leres daqui a 20 anos?

B. — Então, onde andas? Já fizeste o doutoramento? Vários?? Andas a escrever? Crítica ou livros infantis? Espero que já tenhas um blog decente (aquele que estou sempre a dizer que vou começar…) Em quantos projetos andas metida agora? Olha que filhos também contam como projetos! Tens tempo para a família? Vê lá, não te deixes ir ao esgotamento – não vais conseguir salvar o mundo! Mas de certeza que já o tornaste um pouco melhor, mesmo que não penses isso.

Francisco Ramos (21 anos)

“Choices – Based on the work of Scott McCloud” é uma animação curta com o intuito de expor diferentes tipos de escolhas a fazer ao criar uma banda desenhada/narrativa ilustrada.

Gerador (G.) — “A exposição propõe que os recém-licenciados se definam e ponderem as suas acções futuras perante a prática do Design“, lê-se na descrição da exposição. Que ferramentas é que a faculdade te deu enquanto futuro/a designer?

Francisco (F.) — Sobretudo saber estudar, filtrar e comunicar ideias – assim como saber rejeitá-las, se necessário.

G. — Não é difícil perceber o papel dos designers no mercado. Mas qual é o papel dos designers no mundo?

F. — Expor mensagens, divulgar ideais, ligar pessoas: no fundo, fazer pontes. Neste momento há áreas que necessitam mais dessas tarefas do que a área comercial!

G. — De que forma é que a tua obra ou projeto final espelha o que te move enquanto designer?

F. — Gosto de desenho em movimento, gosto de mundos imaginários e gosto de poder ser útil. Considero que o projeto reflete todas estas características.

G. — Que obstáculos é que achas que podes encontrar no teu caminho, num futuro próximo?

F. — Dificuldade em conciliar diferentes projetos/objetivos de vida entre si. Os obstáculos que imagino de momento parecem-me mais internos do que externos.

G. — Que mensagem deixarias para ti mesmo/a, enquanto recém-licenciado, para leres daqui a 20 anos?

F. — Espero que não tenhas deixado de ver bonecos.

Sara Brandão (21 anos)

“A voz dos avós” pretende ser uma ode às memórias dos mais velhos, que muitas vezes são esquecidos e uma chamada de atenção às gerações mais novas ao abandono da terceira idade. Na exposição estiveram expostas as duas edições do conto ‘A latitude do tempo’ e uma manta de retalhos em tricot e bordado, que construí com a minha avó como metáfora para a mensagem da história do conto e incentivo a um contacto e troca entre gerações tão distantes.

Gerador (G.) — “A exposição propõe que os recém-licenciados se definam e ponderem as suas acções futuras perante a prática do Design“, lê-se na descrição da exposição. Que ferramentas é que a faculdade te deu enquanto futuro/a designer?

Sara (S.) — É difícil para mim conseguir separar as ferramentas que a faculdade me deu enquanto futura designer das que aprendi e partilhei com os meus colegas. Estes quatro anos fizeram-se em mais do que um caminho paralelo. Quando a faculdade me faltava, era amparada por algum colega com um ensinamento ou uma maneira de dar a volta. E a verdade é que tudo se fez e tudo se faz. Na faculdade aprendi técnicas e usei ferramentas que moldaram os meus gostos e as minhas intenções de hoje. Muito da faculdade, pelo menos para mim, fez-se por pessoas que me incentivaram a ver para lá daquelas paredes, essencialmente colegas amigos, mas também professores. Por isso, enquanto futura designer, a maior ferramenta que trago comigo é que, quando todas as ferramentas faltam, há no design uma maneira de sair por cima.

G. — Não é difícil perceber o papel dos designers no mercado. Mas qual é o papel dos designers no mundo?

S. — O design é um trabalho relativamente recente. Acabei um curso de quatro anos, que a minha avó não percebe o que é, muito menos o que faço e porquê. Por isso, o papel dos designers no mundo deve começar precisamente por educar as pessoas quanto à importância do mesmo. O Design tem inúmeras vertentes, que por consequência levam a impactos totalmente distintos. Mas todo o design trabalha, ou deve trabalhar, para um mundo mais compreensivo, acessível e aliado à arte. Pelo menos para mim, o papel dos designers no mundo passa muito por motivar e cultivar nas pessoas novos princípios e formas de ver, em vez de só olhar, numa sociedade apressada e movida pelo consumismo.

G. — De que forma é que a tua obra ou projeto final espelha o que te move enquanto designer?

S. — O meu projecto final espelha o que para mim é uma das mais valias de poder fazer design, que é o design enquanto solução a um problema específico e maioritariamente o design a favor de uma sociedade mais igualitária e inclusiva. Enquanto ascendente designer, motiva-me saber que tenho a possibilidade de ajudar a integrar na sociedade quem muitas vezes é excluído por desleixo ou falta de atenção de um mundo movido e gerado por grandes empresas e mentalidades jovens e activas. Ainda para mais, o design tem o poder de informar e educar, o que significa que um design comunitário serve não só para solucionar questões singulares, como para ensinar a toda a comunidade o porquê e a necessidade das mesmas.

G. — Que obstáculos é que achas que podes encontrar no teu caminho, num futuro próximo?

S. — Vou com certeza deparar-me com problemas monetários, mas esta é uma questão que vai para além do design. Infelizmente ainda vivemos numa sociedade que suporta a ideia de trabalhos não pagos em troca de experiência e que oferece estágios a pessoas experientes, que precisam desses estágios para a ganhar. É um ciclo venenoso no qual o Design não é excepção. Para além disso, tudo o que envolve arte (e não só), funciona muito por nome e nem sempre por gosto ou vontade. Por exemplo, a probabilidade de alguém comprar uma ilustração a um artista desconhecido a um preço justo porque verdadeiramente gostou dela, é muito menor a comprar-se uma obra a um ilustrador que já apareceu na revista x ou y, tem mais valor e peso enquanto compra. Eu acho que vou sofrer deste “anonimato do artista”.

G. — Que mensagem deixarias para ti mesmo/a, enquanto recém-licenciado, para leres daqui a 20 anos?

S. — Há 20 anos saías de Belas Artes com vontade e motivação em fazer um Design preocupado e educacional. Saías licenciada com uma mentalidade aberta em saber sempre mais para poder fazer melhor. Saías com a ânsia de cultivar estes estímulos com a idade. Espero que já tenhas feito muito e estejas pronta para fazer mais e melhor.

Margarida Ferreira (22 anos)

“Porto de Situação” é uma banda desenhada que fala de como é o Porto neste preciso momento do tempo, abordando os temas da gentrificação e da massificação do turismo.

Gerador (G.) — “A exposição propõe que os recém-licenciados se definam e ponderem as suas acções futuras perante a prática do Design“, lê-se na descrição da exposição. Que ferramentas é que a faculdade te deu enquanto futuro/a designer?

Margarida (M.) — Curiosamente, talvez a ferramenta mais importante tenha sido precisamente o espírito crítico necessário para avaliar quando é que a prática do design é útil, e quando não é. Acho que é importante que se aprenda a ética por detrás de cada profissão, e cá na faculdade, com tantos professores com ideologias tão diferentes (e tão vocais acerca delas!) senti que fui tendo um panorama de como a profissão normalmente decorre, e como eu gostaria de a praticar. Existe, se calhar, uma noção de que tudo deve ter ‘Design‘ — logotipos bonitos, e identidades completas e papel de carta — mas muitas vezes isso pode tornar-se redundante, ou até mesmo nocivo. É preciso pensar nas necessidades de cada contexto, e nos impactos que a nossa intervenção vai ter. Um exemplo giro disso que eu abordo no meu projeto final é a identidade Porto Ponto! Começa por parecer uma abordagem inofensiva para homogeneizar a mancha gráfica da cidade, mas agora em 2019 apercebemo-nos que quase funciona como o rótulo de um produto, que sustenta o sentimento de que a cidade está a ser vendida ao turismo, e que serve para “abafar” as imagens que surgem em oposição a isso.

G. — Não é difícil perceber o papel dos designers no mercado. Mas qual é o papel dos designers no mundo?

M. — Na minha opinião, a produção de imagens para a comunicação pode possibilitar uma conversa mais ‘universal’, que ultrapassa barreiras de linguagem e transcende significados concretos e objetivos, pois expressa algo mais do que uma mensagem só falada ou escrita… acho eu. É uma ideia muito espiritual, mas gosto de pensar que ao aceitar o subjetivo das imagens podemos comunicar e conectar com os outros de formas mais verdadeiras e humanas, e isso pode ajudar a construir coisas bonitas!

G. — De que forma é que a tua obra ou projeto final espelha o que te move enquanto designer?

M. — Eu sempre gostei muito de ilustrar e de contar histórias, e foi isso que fiz. Normalmente crio a partir do meu imaginário próprio e das minhas experiências, mas desta vez tentei contar uma história real, sobre uma causa que tem imensas implicações sociais e que me diz muito — a do direito à cidade. Claro que acabei por abordar isto segundo a minha perspetiva e as minhas observações, e a história tem também muito de mim e da minha relação com a cidade. E há momentos mais cómicos, momentos poéticos, e momentos contemplativos… No fim fica uma mescla sentimental sobre a cidade, as suas pessoas, e eu. Acho que ‘mescla sentimental’ define bastante bem o meu tipo de trabalho!

G. — Que obstáculos é que achas que podes encontrar no teu caminho, num futuro próximo?

M. — Acho que em Portugal o ensino artístico e a cultura visual são muito negligenciados. Acaba por formar-se um gap muito grande entre designers/artistas e entre pessoas sem esse background, o que resulta em falhas de comunicação ou pouca compreensão daquilo que fazemos e aquilo que referenciamos. Quando as pessoas têm uma cultura visual mais limitada acabam por habituar-se sempre aos mesmos registos e tornam-se menos abertas a abordagens mais ‘fora da caixa’ que podem ser mesmo ricas e estimulantes. O obstáculo para os designers neste caso é superar este gap, e tentar não desistir de criar coisas realmente interessantes para as pessoas.

G. — Que mensagem deixarias para ti mesmo/a, enquanto recém-licenciado, para leres daqui a 20 anos?

M. — Telefona aos teus amigos. Eles sempre foram a tua maior fonte de inspiração e tu vais querer saber o que é que eles andam a fazer.

Rui Miranda (22 anos)

PROFILES RE-CREATION PROJECT foi criado pela João Monteiro, pela Margarida Saldanha e por mim (Rui Miranda). O nosso projeto é um cibertexto em forma de uma instalação artística aberta ao público em geral, com caráter interventivo, capaz de proporcionar ao público uma experiência sensorial/estética, comunicar o conceito do projeto e promover reflexão sobre ele.

Gerador (G.) — “A exposição propõe que os recém-licenciados se definam e ponderem as suas acções futuras perante a prática do Design“, lê-se na descrição da exposição. Que ferramentas é que a faculdade te deu enquanto futuro/a designer?

Rui (R.) — A FBAUP providencia uma formação bastante diversificada aos seus alunos e, por consequência, faz com que os alunos se vejam munidos de várias ferramentas para o seu futuro enquanto designers. Em primeiro lugar, a licenciatura em Design de Comunicação está inserida numa faculdade com outros cursos dentro da área das Artes Visuais, o que o permite partilha de experiências com alunos de outras áreas e enriquecimento curricular. Em segundo lugar, os docentes e os técnicos superiores da escola desenvolvem trabalho académico e profissional de qualidade em várias áreas. Por fim, os currículos das disciplinas e os docentes são bastante exigentes e têm como principal objetivo obrigar e incentivar o aluno a trabalhar de forma autónoma, o que implica um ritmo de aprendizagem e trabalho muito intenso. Posto isto, a FBAUP despertou em mim uma curiosidade constante, levando-me a sentir a necessidade de aumentar sempre a minha cultura visual. Além disso, adquiri um bom ritmo de trabalho e uma forma de trabalhar bastante autónoma. Por fim, permitiu-me conhecer e trabalhar em várias áreas do design e, dessa forma, a tornar-me um designer polivalente.

G. — Não é difícil perceber o papel dos designers no mercado. Mas qual é o papel dos designers no mundo?

R. — O papel dos designers não é fácil de perceber no mercado português. Esta situação talvez seja diferente fora do país, mas, em Portugal, grande parte da população não sabe ainda o que é o Design ou qual as potencialidades do mesmo. O pior é que ainda dentro dessa parte da população, há uma percentagem da mesma que é dona de empresas e chefe de instituições públicas/privadas que poderiam potenciar e comunicar melhor os produtos e serviços que vendem ou prestam. Se for colocada de parte essa questão, parece-me que o papel dos designers no mundo atual talvez seja a de assumir um papel mais crítico relativamente àquilo que faz, pensar no impacto daquilo que faz e nas implicações visuais, sociais, éticas, económicas, urbanísticas, históricas, ambientais, entre outras. Para além disto, tendo em conta as facilidades que a tecnologia atual permite, um designer pode ter uma ‘vida dupla’. O designer pode conciliar a sua atividade profissional com projetos pessoais (em papel, em ambiente digital ou na web), com fins lucrativos ou não, com o objetivo de defender causas humanitárias, alertar a população para um problema, informar o público sobre um determinado assunto, entre outros objetivos. Em suma, o papel do designer no mundo é do de prestar um serviço o melhor possível e o de contribuir para um mundo melhor.

G. — De que forma é que a tua obra ou projeto final espelha o que te move enquanto designer?

R. — O PROFILES RE-CREATION PROJECT, criado pela João Monteiro, pela Margarida Saldanha e por mim, tem um caráter interventivo e pretende alertar o público para um problema premente da sociedade contemporânea. Este caráter interventivo do Design é algo que nos motiva como designers. A possibilidade de chamar à atenção para uma problemática e, eventualmente, contribuir para uma mudança positiva de comportamentos através de um dispositivo de comunicação visual interativo é incrível e altamente motivadora. Ao mesmo tempo, também nos sentimos muito entusiasmados por poder proporcionar uma experiência em que várias pessoas possam estar juntas e interagir entre si.

G. — Que obstáculos é que achas que podes encontrar no teu caminho, num futuro próximo?

R. — Nos últimos tempos, tenho procurado saber o que fazer depois do fim do curso. Percebi que se quiser continuar o meu percurso académico, encontrarei problemas como o preço excessivo das propinas (que muitas vezes não correspondem a um melhor ensino ou melhores condições para o mesmo) ou a falta de habitação a preços adaptados à minha condição de estudante ou trabalhador-estudante. Se pretender iniciar o meu percurso profissional, deparar-me-ei com uma oferta muito grande de estágios não remunerados ou muito mal pagos, empresas que procuram pessoas com formação em várias áreas do Design e ainda com competências elevadas em programação (um somatório de capacidades difícil de conseguir) ou trabalhos em que os designers são contratados para fazer serviço técnicos, executando ordens gestores de marketing que baseiam as suas certezas sobre o mercado em suposições criadas entre eles e que raramente sabem algo sobre Design.

G. — Que mensagem deixarias para ti mesmo/a, enquanto recém-licenciado, para leres daqui a 20 anos?

R. — Independentemente do que estiveres a fazer, tenta fazê-lo da melhor forma possível, não te leves muito a sério, o dinheiro é para ser usado e faz um esforço por ser feliz.

Helena Ruão (23 anos)

“Magis” é um jogo de aventura/puzzle em realidade aumentada.

Gerador (G.) — Não é difícil perceber o papel dos designers no mercado. Mas qual é o papel dos designers no mundo?

Helena (H.) — O design é capaz de apresentar conhecimento de uma forma informativa e interessante, especialmente quando colabora com outras áreas do conhecimento. Isto resulta num aumento de compreensão e discernimento por parte do leitor.

G. — De que forma é que a tua obra ou projeto final espelha o que te move enquanto designer?

H. — No caso específico do “Magis” é o meu interesse por jogos, um medium cada vez mais significativo nas nossas vidas.

G. — Que obstáculos é que achas que podes encontrar no teu caminho, num futuro próximo?

H. — Dificuldade em conseguir ser completamente independente; até que ponto é que o design paga as despesas? Como vou fazer mestrado para a Dinamarca, pelo menos durante os próximos 2 anos vou viver noutro país que oferece mais empregos na área dos Videojogos.

G. — Que mensagem deixarias para ti mesmo/a, enquanto recém-licenciado, para leres daqui a 20 anos?

H. — Lena, sinceramente espero que estejas a trabalhar numa coisa que realmente gostes. Não te esqueças das tuas motivações, dos teus standards, e de quem tu és.

Hugo Sá (21 anos)

“Quinta Cor” centra-se na busca pelas fronteiras e limites de um formato emergente—o cartaz interativo digital—, tendo como ponto de partida a premissa de que a interação pode funcionar como uma ‘quinta cor’ ou técnica especial capaz de envolver o leitor de novas maneiras e proporcionar novas possibilidades narrativas num formato até à pouco tempo predominantemente estático.

G. — “A exposição propõe que os recém-licenciados se definam e ponderem as suas acções futuras perante a prática do Design“, lê-se na descrição da exposição. Que ferramentas é que a faculdade te deu enquanto futuro/a designer?

Hugo Sá (H.S.) — O curso vai enfrentar mudanças que irão alterar a sua natureza atual. Neste momento, equipa-nos de sentido crítico, e incita em nós uma vontade de procurar novos percursos, com recursos a novas tecnologias, e a uma variedade de ferramentas e abordagens criativas bastante alargada. Mas acima de tudo transparece que a identidade do design é mutável, que anda de mão em mão com a tecnologia, com a política, e com a ética, e que cabe a nós lavrar o percurso dessa identidade, o papel e campo de ação do próprio design, e as ideias que ele gera e promove na nossa sociedade.

G- — Não é difícil perceber o papel dos designers no mercado. Mas qual é o papel dos designers no mundo?

H.S. — O design muitas vezes é exercido com a melhor das intenções, mas o seu papel no nosso tipo de sociedade é geralmente tingido pelo papel no qual é visto no nosso tipo mercado. Vemos a mera presença de design parece anunciar estabilidade, oportunidade de investimento, ou futilidade para além do essencial. É necessário um esforço coletivo para que se possa usar design em situações de crise social ou humanitária, sem que estas sejam depois automaticamente trivializadas na consciência pública pelo o mero toque do design como ferramenta de ajuda.

G. — De que forma é que a tua obra ou projeto final espelha o que te move enquanto designer?

H.S. — O projeto da “Quinta Cor” foi um dos primeiros passos num crescente interesse pela interseção entre o cartaz tradicionalmente estático e as possibilidades interativas digitais. Preocupa-se não só com a exploração de novas maneiras de expandir as mensagens que temos para comunicar para além do estático, mas também em colocar a audiência na linha da frente dessa comunicação, dando-lhe a oportunidade de participar activamente na forma da própria mensagem ao nível individual, e promovendo interação e participação de uma maneira apenas possível nos novos moldes de viver.

G. — Que obstáculos é que achas que podes encontrar no teu caminho, num futuro próximo?

H.S. — Encontramo-nos hoje numa altura em que a ideia de comunicação unidirecional está a morrer. Quando te digo algo, tu queres-me dizer algo de volta! Hoje vamos passar mais tempo a olhar para os ecrãs que se infiltraram nas nossas ruas, estações, e bolsos, do que para formatos físicos, e isso apresenta um grande desafio cheio de novas e fantásticas possibilidades para quem desenha para esses novos formatos.

G. — Que mensagem deixarias para ti mesmo/a, enquanto recém-licenciado, para leres daqui a 20 anos?

H.S. — Quero relembrar-me de que uma abordagem menos séria — que se divirta e que mostre que se está a divertir — do design pode tornar a disciplina mais acessível ao tipo de pessoas que normalmente são afastadas de praticar design nos moldes tradicionais: corporativos e dominantes.

Rita Silvestre (22 anos)

2015 — 2019 +  visa demonstrar os artistas que estão a finalizar o curso na FBAUP. Desta forma, junto o talento num editorial A3 que tem como objetivo deixar na faculdade enquanto memória do ano 2015 — 2019.

Gerador (G.) — “A exposição propõe que os recém-licenciados se definam e ponderem as suas acções futuras perante a prática do Design“, lê-se na descrição da exposição. Que ferramentas é que a faculdade te deu enquanto futuro/a designer?

Rita (R.) — A faculdade deu as ferramentas base do design, essenciais para desenvolvê-lo. Na minha perspetiva, ter atividades extra curriculares como a FBAUP Design Inc. enriqueceram-me mais, pela experiência com clientes e do mercado real — algo que não nos é transmitido de todo na faculdade.

G. — Não é difícil perceber o papel dos designers no mercado. Mas qual é o papel dos designers no mundo?

R. — O designer tem o papel fundamental para que a comunicação seja bem sucedida. A cima disso, o designer tem a função de resolver grandes problemas no mundo e até poder para mudar mentalidades. Temos o poder de mover e fazer acontecer coisas.

G. — De que forma é que a tua obra ou projeto final espelha o que te move enquanto designer?

R. — O meu design tenta sempre ter em vista um determinado objetivo. Neste projeto pretendi deixar a nossa memória na faculdade, pelo talento que sinto que o meu ano tem. Nestes tempos difíceis na FBAUP, onde somos confrontados com más condições e outros problemas adjacentes, quis mostrar a boa colheita que mesmo assim saiu. Imaginem se tivéssemos boas condições!

G. — Que obstáculos é que achas que podes encontrar no teu caminho, num futuro próximo?

R. — Sair da faculdade e estar a bater à porta do emprego já é algo que nos assusta. Estou agora a enfrentar o meu primeiro obstáculo ao aceitar vir viver para Amesterdão para fazer estágio profissional, num espaço de 1 mês. Saí completamente da minha zona de conforto. Sei que terei sempre obstáculos como qualquer pessoa na carreira, desde a procura de emprego. Um grande medo é não conseguir ser tudo o que pretendo.

G. — Que mensagem deixarias para ti mesmo/a, enquanto recém-licenciado, para leres daqui a 20 anos?

R. — O mundo ainda precisa de ti, não pares.

O Miguel, a Beatriz, o Francisco, a Sara, a Margarida, o Rui, a Helena, o Hugo e a Rita não sabem o que o futuro lhes reserva. Encontrar um estágio não remunerado pelo caminho parece ser uma hipótese segura, mas submeter-se a algo com que não se identificam não lhes parece opção.

Ainda que com poucas certezas sobre o que virá daqui para a frente, os nove estão cientes da visão que, pelo menos para já, pretendem associar às suas práticas. Não sabem se irão conseguir tornar o Mundo um pouco melhor, ou se o caminho que estão a traçar assentará nos mesmos pilares daqui a 20 anos; mas certamente o Mundo à sua volta irá sentir o eco das suas ações.

Texto e imagem de Carolina Franco

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