Tenho na memória um texto magnífico, que penso ser  do  saudoso Dr Dário Castro Alves, embaixador do Brasil em Lisboa, sobre a tradição do cozido à portuguesa (que na opinião de alguns etnólogos terá estado na base da criação da  Feijoada no país-irmão) e de como as donas de casa do Brasil dos “córónéis” competiam umas com as outras para deitarem para dentro da panela cada vez mais ingredientes e mais estranhos… até milho lhe deitavam, já em desespero de causa para desanimar a concorrência…

Em minha casa o “Cozido” era feito tradicionalmente ao domingo , e a sua preparação começava logo na véspera, com a compra das couves, cenouras, nabos e  das carnes secas e salgadas.  A minha mãe nunca foi grande artista em frente às panelas pelo que esta tarefa de fazer o cozido em minha casa era mais para homens. Que eram dois: pai e filho (moi).

Na altura a que me refiro, o que eu – com os meus 15 anos – sabia fazer na cozinha era espreitar para ver se ainda demorava muito e …sentar-me à mesa para comer.
Felizmente que o meu pai sabia quase tudo que metesse comeres e beberes desde a respetiva génese,  ou não fosse um apaixonado por todas as coisas boas da vida, tendo-a vivido plenamente até mesmo ao final precoce dos seus dias.

Era ele que comandava as hostes. Comprava, temperava, partia, cozia, retirava das panelas e aconchegava nas travessas.

Um único problema: só sabia trabalhar para audiências de um certo tamanho… cozido que ele fizesse dava à vontade para 8 ou 9 pessoas… Lá em casa éramos 4. O que obrigava que o cozido fosse repartido por duas refeições, a última das quais era uma espécie de adaptação da “meia desfeita”,  desta vez com as carnes desfiadas e os restos das couves e nabos.

Dizem algumas línguas maldosas, que eu herdei essa tendência exagerativa dos genes paternais. Ou então, como aprendi muito do que sei a ver, lá na Beira Alta, fazer comida para os familiares e trabalhadores da quinta, ficou a minha cabeça e a minha mão feitas àquelas quantidades… Mas adiante que não estamos em Amarante.

Vem toda esta conversa para explicar que normalmente quem se lembrava de “desejar o cozidinho à portuguesa” era a senhora minha mãe. Davam-lhe vontades súbitas de comer um cozido num qualquer fim-de-semana.

O meu pai – por vários motivos que não são para aqui chamados – não costumava ignorar estas ânsias.

O problema é que a senhora mãe era muito opinativa – como todos os que nada fazem, mas têm sempre uma crítica a apresentar – e não largava a cozinha com as suas observações chatinhas.

A verdadeira arte do meu pai – para evitar querelas e maiores desavenças – consistia em fazer o cozido à maneira dele, com aquilo que ele tinha comprado, dando a ideia que aceitava todas as observações da legítima esposa.

Para concretizar tal desiderato a grande aliada era a missinha dos Domingos. Ciente que tinha duas horitas de paz e sossego, o queima-cebolas de serviço lá em casa bendizia o padre Raul da paróquia, que tinha o hábito de prolongar a homilia para além do razoável, para generalizado desespero da maioria dos fiéis com larica.

Quando chegávamos a casa vindos da igreja já estava a mesa posta.  Não se livrava meu pai da crítica póstuma, mas pelo menos ouvia-a de barriga cheia de coisas bem feitas e à sua maneira.

-Sobre Manuel Luar-

Manuel Luar é o pseudónimo de alguém que nasceu em Lisboa, a 31 de agosto de 1955, tendo concluído a Licenciatura em Organização e Gestão de Empresas, no ISCTE, em 1976. Foi Professor Auxiliar Convidado do ISCTE em Métodos Quantitativos de Gestão, entre 1977 e 2006. Colaborou em Mestrados, Pós-Graduações e Programas de Doutoramento no ISCTE e no IST. É diretor de Edições (livros) e de Emissões (selos) dos CTT, desde 1991, administrador executivo da Fundação Portuguesa das Comunicações em representação do Instituidor CTT e foi Chairman da Associação Mundial para o Desenvolvimento da Filatelia (ONU) desde 2006 e até 2012. A gastronomia e cozinha tradicional portuguesa são um dos seus interesses.  Editou centenas de selos postais sobre a Gastronomia de Portugal e ainda 11 livros bilingues escritos pelos maiores especialistas nesses assuntos. São mais de 2000 páginas e de 57 000 volumes vendidos, onde se divulgou por todo o mundo a arte da Gastronomia Portuguesa. Publica crónicas de crítica gastronómica e comentários relativos a estes temas no Gerador. Fez parte do corpo de júri da AHRESP – Associação de Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal – para selecionar os Prémios do Ano e colabora ativamente com a Federação das Confrarias Gastronómicas de Portugal para a organização do Dia Nacional da Gastronomia Portuguesa, desde a sua criação. É Comendador da Ordem de Mérito da República Italiana.

*O Manuel Luar é o autor da crónica Bem Comer, que entrará em interregno a partir da próxima semana, para passar a dar voz a estas gargantas soltas, quinzenalmente.

Texto de Manuel Luar
Ilustração de André Carrilho