Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Como se atualiza o legado dos sabonetes na cultura portuguesa?

Não é fácil dissociar o sabonete da nossa génese cultural. Terminada a monarquia e após…

Texto de Mafalda Lalanda

Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Não é fácil dissociar o sabonete da nossa génese cultural. Terminada a monarquia e após a Grande Guerra, começaram a florescer várias marcas nacionais, em Portugal. É exemplo a Saboaria e Perfumaria Confiança, nascida em Braga, e especializada no offenbach, também conhecido como sabão azul e branco (ou rosa e branco). Há 12 anos que este legado pertence à centenária Ach Brito. 

Com uma longa história de produção saboeira que remonta a 1887, esta empresa portuguesa foi crescendo e ganhando a confiança do seu público ao desenvolver-se em várias áreas da cosmética – desde o momento da seleção dos ingredientes até ao embaçamento estético dos seus produtos. É sob a índole da tradição, da recuperação do passado e da sua atualização face às necessidades das novas sociedades que desenvolve o seu trabalho. 

As marcas nacionais que resistem à passagem do tempo e à mudança das gerações, apesar do seus períodos mais atribulados, conseguem resistir e vingar, muitas vezes, pela sua capacidade de comunicar e de se agregarem ao imaginário coletivo de um povo. No caso da Ach Brito, os seus valores e a sua apresentação continuam a integrar esta memória coletiva de nós próprios – um sentimento de familiaridade que é acompanhado pelo seu design singular e atualizado. É, por isso, muito provável que, mesmo sem saber, já nos tenha passado pelas mãos um sabonete Patti, best-seller da empresa, ou o de Lavanda com o carismático cheiro da colónia de frasco verde escuro. 

“Norteia-nos a tradição de saber-fazer, e fazê-lo bem. Temos muitos fãs de há longos anos, que conhecem tão bem como nós os nossos produtos, e temos agora novos clientes, que procuram qualidade e soluções para o seu bem-estar.” As palavras vêm da parte do departamento de marketing da Ach Brito que permanece naturalmente atento ao crescente número de pessoas que procuraram recuperar o sabonete no seu quotidiano: “Culturalmente, o sabonete é encarado como um produto de confiança quer pela carga emocional que acarreta quer pela importância crescente que os consumidores dão à formulação e composição dos produtos. Há uma procura crescente por produtos de qualidade e eco-friendly. O facto dos nossos sabonetes ainda serem manufaturados agrega valor que cada vez mais é apreciado e procurado pelos consumidores.” 

As expetativas que os consumidores têm face a determinado sabonete estão mais exigentes, quer pelas suas questões ideológicas, quer por questões ambientais ou de saúde. Procuram-se sabonetes que não sejam testados em animais, que sejam feitos à mão e com ingredientes de origem vegetal, sem grandes percentagens químicas. Não é apenas de agora que estas são preocupações da empresa: “Hoje em dia, os consumidores são mais exigentes porque estão mais atentos e têm maior cuidado com o que consomem. Temos consciência dessa exigência mas não é algo que nos tenha obrigado a fazer grandes alterações. Legalmente os testes em animais já não são permitidos mas a Ach Brito não faz esse tipo de testes muito antes dessa proibição ser instituída; as nossas bases de sabão são vegetais há muitos anos, muito antes de ser tendência; as formulações são maioritariamente vegetais e com um apertado controlo de qualidade e a manufatura é um dos nossos principais pilares na produção dos nossos sabonetes.”

De facto, associamos o fabrico tradicional dos sabonetes à produção da Ach Brito e isso acontece por diferentes motivos: “Os equipamentos continuam a ser os mesmos há cerca de 50 anos; a cunhagem dos sabonetes ainda é frequentemente manual; o controlo de qualidade é feito pelos nossos colaboradores e o embalamento manual é feito como antigamente.” Garantem que o conhecimento tradicional é preservado e passado de geração em geração: “Preservando os processos de produção; continuando a contar com colaboradores com décadas de experiência que vão passando conhecimento aos mais novos; mantendo alguns dos nossos fornecedores mais antigos – alguns dos quais há várias décadas.”

Esta empresa continua a procurar respeitar a herança deixada pela extinta Litografia Ach Brito, em tempos responsável pelo grafismo e conteúdo estético dos produtos: “Produziram todas as embalagens, desenhadas à mão pelas várias equipas de artistas que, ao longo de décadas, foram passando pela empresa. Hoje queremos perpetuar e respeitar essa herança e essa identidade, ao mesmo tempo que procuramos modernizar e ir ao encontro das expetativas do mercado e dos nossos consumidores.” É isso que têm procurado fazer e é esse o motivo principal para ser difícil ficar indiferente à estética destes sabonetes. 

De facto, cada etapa de produção tem sido reinventada e adaptada às necessidades e opções ideológicas de cada empresa. Há mais consciência e educação ambientais que têm permitido a procura de alternativas sustentáveis, seguras, tradicionais. Ao longo dos anos, a Ach Brito tornou-se uma referênca nacional. Hoje associamos a sua marca a palavras como autenticidade e genuinidade, permitindo conservar um pouco mais do imaginário cultural português através dos seus produtos.

Texto de Mafalda Lalanda
Imagem via Ach Brito

Se queres ler mais notícias sobre a cultura em Portugal, clica aqui.

Publicidade

Se este artigo te interessou vale a pena espreitares estes também

8 Junho 2026

Futuro ou espaço de incerteza? A visão de João Alves sobre o ensino superior

6 Junho 2026

Procuramos jovens até 25 anos para falar sobre imaginação 

5 Junho 2026

De 11 a 14 de junho encontra um abrigo literário no FALA – Festival Literário de Alcanena

5 Junho 2026

Tempos livres. Iniciativas culturais pelo país que vale a pena espreitar

2 Junho 2026

Do livro

29 Maio 2026

Revista Gerador: uma edição sobre coletivo e formas de reconstruir o comum

29 Maio 2026

Tempos livres. Iniciativas culturais pelo país que vale a pena espreitar

28 Maio 2026

Dar uma volta com Marco Mendonça

28 Maio 2026

Procuramos pais de crianças até 10 anos para falarem sobre imaginação 

27 Maio 2026

Pensar o Colonialismo em Voz Alta: descobre algumas das reflexões da última Residência Insubmissa Gerador

Academia: Programa de Pensamento Crítico Gerador

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Fundos Europeus para as Artes e Cultura I – da Ideia ao Projeto [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Comunicação Cultural [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Imaginação para entender o Futuro

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo Literário: Do poder dos factos à beleza narrativa [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo e Crítica Musical [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Financiamento de Estruturas e Projetos Culturais [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Autor Leitor: um livro escrito com quem lê 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Literacia Mediática

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Criação e Manutenção de Associações Culturais

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Clube de Leitura Anti-Desinformação 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Curso Política e Cidadania para a Democracia

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Desarrumar a escrita: oficina prática [online]

Duração: 15h

Formato: Online

Investigações: conhece as nossas principais reportagens, feitas de jornalismo lento

20 abril 2026

Futuro ou espaço de incerteza? A visão de João Alves sobre o ensino superior

Para muitos jovens o ensino superior continua a ser o percurso natural, quase obrigatório, para garantir um futuro melhor. Apesar disso, nem todos os que escolhem seguir este caminho encontram uma realidade correspondente às expetativas. Neste projeto, procuramos perceber, através de uma reportagem aprofundada e testemunhos em vídeo, o que está realmente a em causa no ensino superior em Portugal. O que está a afastar os jovens? O que os faz ficar ou sair? E, sobretudo, que país estamos a construir quando estudar se transforma num privilégio ou num risco.

16 fevereiro 2026

Com o patrocínio do governo, a desinformação na Eslováquia está a afetar pessoas, valores e instituições

Ataques a jornalistas, descredibilização da comunicação social independente, propagação de informação falsa, desmantelamento de instituições culturais. A desinformação na Eslováquia está a crescer com o patrocínio dos responsáveis políticos, que trazem para o mainstream as narrativas das margens. Com ataques e mudanças legislativas feitas à medida, agudiza-se a polarização da sociedade que está a prejudicar a democracia e o sentimento europeísta.

Carrinho de compras0
There are no products in the cart!
Continuar na loja
0