O quarto episódio das Cordas Soltas, uma conversa sobre guitarra guiada pelo guitarrista André Santos, tem como convidado o guitarrista Pedro Jóia.

Jóia iniciou os estudos em guitarra aos 7 anos de idade com o professor Paulo Valente Pereira na Academia dos Amadores de Música. Segue-se o curso, no mesmo instrumento, no Conservatório Nacional. Aos 16 anos, aprofunda o seu estudo em guitarra flamenca e aos 19 começa a sua atividade como concertista. Já conta com cinco discos gravados em nome próprio. Compõe regularmente música para teatro e curtas-metragens cinematográficas. Lecionou na licenciatura em música da Universidade de Évora entre 1997 e 2003. No mesmo ano, partiu para o Brasil onde residiu até 2007, trabalhando com músicos de diversas áreas musicais como Ney Matogrosso, Yamandú Costa, Gilberto Gil entre muitos outros.

Em 2008, vence o Prémio Carlos Paredes com o disco “À espera de Armandinho”, em que aborda a obra do guitarrista lisboeta da 1ª metade do séc. XX Armando Augusto Freire, mais conhecido por Armandinho. Em 2011, inicia 2 projetos: um com a fadista Raquel Tavares, em que juntos transportam os fundamentos do fado, do flamenco, da música porteña, da música dos bairros de Lisboa, do Magrebe e desembocam no grande mar que é a música mediterrânea. O outro projeto, intitulado de Mourarias, é com o também fadista Ricardo Ribeiro, onde musicam obras de grandes poetas portugueses como Almada Negreiros, David Mourão-Ferreira e Pedro Homem de Mello, exploram terrenos musicais que vão desde o tango, as bulerías e a música tradicional portuguesa.

Revelada a história sobre a primeira vez em que pegou numa guitarra com o professor Paulo Valente Pereira, a conversa desagua na razão por detrás da escolha pela guitarra. Pedro partilha que os pais tinham o desejo de pôr os filhos a estudar música. À partida, seria o piano o instrumento escolhido, mas ao aperceberem-se do preço do instrumento foram seguindo uma lista de instrumentos e excluindo hipóteses, até chegarem à eleição da guitarra. Partilha, em relação ao seu processo de aprendizagem, que só aos dez anos começou a tocar acordes.

Valoriza muito o som personalizado de cada instrumentista, principalmente na guitarra, por ser “um som muito personalizável”. “Na guitarra, cada um tem a sua unha, a sua pele, a sua palhetada e tudo isso é muito personalizado. A identificação e a personalidade de cada guitarrista são uma questão que me cativa muito”.

De seguida, a conversa segue o rumo do virtuosismo e o que pode caber nesse conceito. Nesse sentido, Pedro partilha que, no seu entender, a guitarra “é um instrumento que está refém de um estigma. As pessoas quando ouvem guitarra estão, não só à espera de ver um guitarrista, mas também, a um dado momento, um fogo de artificio”. Não deixa ainda de salientar que velocidade ou virtuosismo não são sinónimos de qualidade: “mesmo dentro do virtuosismo e da velocidade há o bom e o mau”, defende. Quanto ao estudo e abordagem do instrumento, Jóia aponta que “este é um instrumento de luta diária e ingrata. Um instrumento a quem dás tudo e que pouco te dá”.

O estudo em guitarra flamenca surge pelo desejo de “ter uma liberdade mais selvagem” no instrumento, tentando fugir ao acorde clássico. E esse foi o caminho que permitiu dar mais espaço às músicas populares na sua vida, com o desígnio de ser guitarrista flamenco incendiado ainda durante os últimos anos de Conservatório.

Começa um duo com um colega João Dias, com o qual começou a tocar em restaurantes e bares com um repertório “meio clássico, meio flamenco”, que lhes permitiu juntar algum dinheiro para ir estudar flamenco para Espanha. A viragem para um circuito profissional já em salas de concerto inaugurou-se na casa do povo de Samora Correia, a solo. Mais tarde, começou a pisar o palco em trio flamenco com João Dias e José Salgueiro, o primeiro músico profissional com quem tocou. E assim se iniciou um percurso de vários projetos, com múltiplos grupos e variadas paragens, inclusive pelo Brasil para onde partiu para tocar com Ney Matogrosso.  

Quanto à técnica, ao som de cada um, são desenvolvidos na solidão do quarto de cada músico, sustenta Pedro, e é aí que reside a importância das referências de cada guitarrista. “Os ídolos são muito importantes, são uma espécie de farol” que surge no meio da escuridão, afirmam ambos os guitarristas.  

Os últimos minutos da conversa são dedicados a partilhas de domínio técnico, desde as dificuldades do instrumento, o aquecimento, a exploração do braço da guitarra, ou a ferramentas para a composição. Para terminar a conversa da melhor forma, somos presenteados por um tema tocado pelo Pedro Jóia.

Podes ver o vídeo da conversa, aqui:

André Santos é um guitarrista madeirense de amplos interesses. Foi no conservatório de Amesterdão que fez o mestrado em jazz, tendo desenvolvido uma tese sobre cordofones madeirenses, grupo no qual se inserem instrumentos como o rajão, a braguinha e a viola de arame. Foi essa investigação que muito inspirou o cunho com que contribuiria para Mano a Mano, o projeto a duo que tem com o seu irmão, também guitarrista, Bruno Santos, que já conta com três volumes editados. Tem ainda um trio com Carlos Bica e dirige um projeto de música tradicional madeirense reinventada, Mutrama, para o qual convidou Salvador Sobral, Maria João e Ricardo Ribeiro. Tem dois discos em nome próprio e participa noutros tantos, como são exemplo, os de Salvador Sobral e Pedro Moutinho. Mais recentemente, integrou o novo quinteto de Salvador Sobral. Agora, avança com o conceito e criação deste ciclo de conversas sobre guitarra, Cordas Soltas, sobre o qual podes saber mais, aqui.

Às 18h de dia 10 de julho poderás ver/ouvir a quinta conversa entre o André Santos e Mário Delgado. O Gerador é parceiro deste ciclo de conversas, pelo que vamos partilhar contigo cada uma delas no nosso site, através da página de Facebook do guitarrista madeirense. Fica atento!

Texto de Andreia Monteiro
Cartaz de Dário Gomes
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