Nómada voz que escala o muro a torre,
insubmissa vagueia como o vento.

– António Salvado

Serão poucas as ocasiões em que perante um espectáculo a que assistimos pensemos imediatamente na sua origem territorial, no seu local de concepção. Quando isso acontece é provável que, estando em Lisboa ou no Porto, consideremos que o mesmo é produto daquele exacto lugar. Não é que haja algo de errado nisto, mas evidencia um diagnóstico obscuro sobre a forma como entendemos a criação artística e cultural assim como o seu mecanismo de descentralização no país.

Como bem sabemos, o território nacional é profundamente marcado por dois fenómenos de organização: o da litoralização e outro de bipolarização da população à volta das principais áreas metropolitanas, Porto e Lisboa. Tal facto vem não só demonstrar como, por força destes aspectos, as políticas de descentralização cultural têm sido enformadas num movimento em que se parte destes grandes centros para as periferias – numa lógica de digressão –, como também explica parte da conceção errada de que no outro lado da margem, isto é, nas zonas interiores, existe um deserto sem pulsação artística e sem públicos.

Não pretendo com isto desvalorizar o facto da movida cultural e artística ser mais ativa em determinados territórios, à conta sobretudo de fatores endógenos – como um maior acesso a graus de formação superior ou mais facilidade no acesso a equipamentos ligados à fruição cultural –, mas há surpresas pelo caminho. Se analisarmos com detalhe, podemos ver que são muitos os projetos, estruturas e coletivos artísticos que surgiram nas últimas décadas que não são originários destes aglomerados urbanos. E que não só surgem em territórios mais isolados, como os ajudam a transformar, demonstrando, muitas das vezes, grande aptidão para um pensamento em rede, criando laços entre pares.

São também estes projetos que nos levam a olhar com maior profundidade para o território nacional e nas suas possíveis margens. Num tempo de pandemia, e talvez mais do que nunca, olha-se para as vantagens que o interior, ou as zonas de baixa densidade populacional, podem ter em relação às grandes áreas metropolitanas. Nos últimos meses, aliás, deu-se grande destaque à possibilidade de se trocar o habitual turismo das zonas de praia, por opções diferenciadas, com a oportunidade de se conhecer regiões cujo património histórico e simbólico merece ser descoberto.

Acontece que materializar a estratégia turística e cultural de uma cidade situada em zonas de baixa densidade populacional apenas naquilo que é o seu património – promovendo os seus costumes e tradições – pode tornar-se, em última instância, uma forma de condenar essas mesmas localidades a uma estagnação. Note-se o que tem acontecido com tantos locais, um pouco por esta Europa fora, transformados em museus a céu aberto, onde há um passado que se revisita constantemente, mas onde não há presente, quanto mais futuro.

É também por estes exemplos que a ideia de se museualizar cidades é contrária a qualquer noção de sustentabilidade ou criação de estratégias de futuro, que até têm em vista a fixação de pessoas nestas zonas. Vale a pena relembrar as palavras de Augusto Santos Silva, que nos explica como, a partir de 1974, as políticas culturais em Portugal têm seguido “a crença pós-iluminista na razão civilizadora, associados à aposta moderna nas responsabilidades e capacidades do Estado na estruturação da vida cultural” [1], e que a crescente autonomia das autarquias em relação a este pelouro só se tem vindo a manifestar nas últimas duas décadas.

Podemos certamente pensar nas cidades como os novos museus, onde o património deve ser preservado mas também defendido. No entanto, terá de haver sempre espaço para o novo, para o que é disruptivo e que nem sempre é de fácil perceção. Para tal, exige-se que os municípios, especialmente em zonas mais interiores do país, estejam permanentemente atentos a estas dinâmicas e que se mostrem dispostos a apoiar projetos que à primeira vista até podem nem ser fáceis de percecionar ou de comunicar com os diversos públicos.

Compreende-se que o preservar da tradição em territórios desta natureza contribui para a manutenção de uma identidade e de certos legados, mas tal não significa que o disruptivo venha ameaçar esse mesmo status quo. Neste sentido, podemos ver que muitos destes projetos ou coletivos são eficazes a trazer para cima da mesa esse equilíbrio de forças, sendo que contribuem igualmente para a promoção de uma dada região, através das propostas artísticas que criam e dos locais por onde passam.

Na minha última crónica aqui publicada, falava da necessidade imperativa das cidades (do futuro) olharem para o espaço público, como espaço por excelência da cultura e da sua fruição. É tempo de direcionarmos esse mesmo olhar para territórios que nem sempre figuram no nosso pensamento, que muitas vezes são duplamente isolados – territorialmente e simbolicamente – do nosso mapeamento cultural. O território só existe enquanto resultado da ação humana e, tanto as formas de ocupação quanto a relação com o espaço, dependem dos valores culturais e dos interesses de grupos que motivam o aparecimento de projetos artísticos.

Como alguém que é originário de um destes territórios de baixa densidade populacional, acredito que uma aposta estratificada na cultura pode ajudar a mudar as dinâmicas socioeconómicas destas regiões, contribuindo igualmente para a sua promoção. Para isso é necessário que haja um equilíbrio: que se apoiem da mesma forma novos projetos artísticos ou culturais como se apoia a preservação do património e das tradições. Regressemos à outra margem.

[1] Silva, Augusto Santos (2004) “Como Classificar as Políticas Culturais? Uma Nota de Pesquisa” in OBS, nº 12, Lisboa: Observatório das Actividades Culturais, pp. 10-20.

-Sobre Ricardo Ramos Gonçalves-

Ricardo Ramos Gonçalves nasceu em Castelo Branco, em 1995, mas é em Lisboa que reside e trabalha atualmente como jornalista no Gerador, plataforma de comunicação na área da cultura que lhe permite estar envolvido em projetos artísticos que escapam às próprias fronteiras do universo da comunicação. É licenciado em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa e mestre em História Moderna e Contemporânea pelo ISCTE. Ao longo deste tempo de itinerância entre áreas de estudo – que lhe permitiu viver e estudar por um breve período em Pádua, em Itália –, tem-se dedicado e envolvido sobretudo em iniciativas de âmbito cultural, em especial nos campos da literatura, do cinema e das artes visuais.

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografia de Andreia Mayer
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