Pense, Fale, Saiba e Reaja. É com estas 4 palavras que o Festival Mental se apresenta na sua 4ªedição.

Ana Pinto Coelho, diretora e curadora do festival, começou por descrever a preparação como “a mais normal possível”. Colocando a palavra “pandemia” num lugar distante, mas com toda a precaução, a organização do festival Mental fez a sua travessia de “uma forma muito zen”, isto é, “com toda a serenidade, com todos os elementos da produção, toda a organização. Passámos os dias, um de cada vez, sem qualquer tipo de pressão ou alguma coisa que nos incomodasse. Foi completamente tranquila esta edição”, começou por nos explicar a diretora do festival.

Depois das “Talks 4 all”, projeto autónomo digital desenvolvido em março durante o confinamento, que entrevistou mais de 104 pessoas, os temas para as M-Talks deste ano são a Ansiedade (e Ecoansiedade), as Toxicodependências e o Stress Pós-traumático.

Foi com a “Criatividade” que Ana abriu o seu discurso de inauguração do festival, no dia 26 de setembro. É com a aliada do entusiasmo que conta ao Gerador o quão foi gratificante desenvolver novas iniciativas este ano: “Temos uma marca nova, que é o Mental Jovem. Criamos o Mental Jovem, com a peça de Teatro “O Baile de Máscaras” e acrescentámos também uma coisa nova que é o M-Debate. Vai abrir o festival logo no dia 30. Irá falar mesmo sobre a Pandemia, mas no aspeto de saúde mental e saúde Digital, ou seja, as duas coisas juntas. Vai chamar-se “Do Real ao Digital” e conta com quatro profissionais das áreas da Tecnologia e da Cultura: Fátima Caçador, João Gata, Susana Marvão e Tiago Sigorelho. É um painel de luxo mesmo para discutir este debate que é aberto ao público, gratuitamente. Este debate é precedido de um pequeno apontamento de dança que é o que realmente vai abrir o festival. Chama-se “Acontece” e é um espetáculo feito com três mulheres que sofrem de doença mental. São três mulheres que vão estar no palco e vão fazer o seu próprio espetáculo”, explica Ana.

A inclusão de pessoas de diferentes áreas como a Dança e o Teatro, nomeadamente atores portadores de uma doença mental, é algo que acompanha todas as programações do festival.

A área da informação, além da cultural, é também uma das mais relevantes para o festival. Segundo Ana, desde “a sua génese” que a informação, a comunicação social, a informação pública, o esclarecimento público e, sobretudo, a credibilidade de informação são muito importantes para o festival: “Nós estamos aqui para promover a saúde mental. Portanto, não faz sentido haver promoção e falar em promoção ou prevenção sem informação. E a informação é pública, não é só para quem está nas nossas salas. É tão importante como qualquer outra coisa, a comunicação social para nós. Não temos problema nenhum em dizer isso. A comunicação, marketing e imagem é superimportante para o Festival Mental. Exatamente para combater o estigma”, afirma a curadora.

Fotografia em Brochura oficial

A desinformação foi também um dos temas abordados, o qual Ana reconhece que influencia na estigmatização em torno da saúde mental, “não valorizam e não é só não valorizarem. Têm vergonha, têm medo, há estigma, há preconceito inclusivamente o insulto, em que até usamos as doenças mentais: ‘tu és louco’, ‘tu és esquizofrénico’, ‘devias era de estar no Júlio de Matos’, coisas do género.” Este é o tipo de linguagem e observações que têm de parar e deixar de existir. Temos mesmo de insistir muito, todos nós, a comunicação social, e nós sociedade civil, com este trabalho que fizemos porque isto é insulto. Não há outra palavra para o definir.”

A “iliteracia”, sobretudo, na comunicação social e na sociedade em geral foram dois dos sintomas que Ana identificou e que alimentam não só a desinformação, como também o estigma, “se houvesse mais informação, pessoas mais informadas, mais cultas percebiam o que se estava a passar, sobretudo com elas próprias e, em vez de esconder, mostravam. Isto é uma coisa absolutamente normal. O que não é normal é não se falar disto”.

É com esta preocupação que o Mental Jovem, com um target diferente nesta edição, e o Mental Júnior pretendem alimentar as mentes dos mais novos, “Isto é um festival que pretende sobretudo promover e prevenir, é esse o objetivo para o grande público. E, portanto, começa de pequenino, porque também têm emoções, a partir do momento em que são seres humanos, têm saúde mental”, explica Ana.

M-Cinema: as curtas-metragens do Festival Mental

A programação do Festival inclui também o M-Cinema – Mostra Internacional de Curtas Metragens, composta por um conjunto de 19 filmes selecionados, que chegaram até Catarina Belo, programadora e produtora executiva do festival, vindos de todo mundo.

Numa breve conversa, Catarina Belo contou-nos como foi pensada a programação e de que forma chegaram até ela.

A “Qualidade” não só técnica, como também de conteúdo, é a palavra-chave criteriosa da seleção. “Não há um critério diferente. O que nós damos atenção na programação é a qualidade, se o filme tem qualidade a nível técnico como a nível de conteúdo, por isso, é que a equipa dos programadores é formada por um grupo de pessoas um bocadinho diferentes”, afirma a programadora.

Assim como Ana Pinto Coelho, Catarina defende que a veracidade, nomeadamente, das doenças mentais é muito importante para o festival.       
Outra das considerações tidas na seleção foi ainda a abertura que as curtas-metragens apresentavam: “Este ano o que aconteceu é que tinham uma linha lógica com uma abertura das doenças mentais ou o que é a doença mental com um espectro muito abstrato. Os filmes que temos, não são sobre uma doença em específico, ou sobre patologias específicas. Pode ser mais sobre emoções, sobre um estado de espírito e foi mais por aí. É algo que acho bastante interessante e que a edição deste ano tem”, partilha.

A nível nacional, uma das participações destacadas foi o filme “Gastão” da Tânia Teixeira. “De facto, o da Tânia foi o único que sobressaiu dos outros que recebemos, nesse sentido, em que era uma coisa muito bem construída e contava uma história superinteressante de uma maneira também muito interessante. Nós temos sempre o cuidado de incluir filmes portugueses. Quanto mais, melhor, portanto, quando fazemos a seleção a verdade é que tomamos muita atenção a isso e, muitas vezes, damos prioridades aos filmes portugueses se assim fizer sentido. Este ano acabamos só com um, mas ainda recebemos alguns filmes”, conta Catarina.

Imagem do filme “Gastão”

Ainda que a participação do cinema português tenha aumentado ao longo das edições, a produtora executiva reconhece que Portugal “ainda está um bocadinho atrás no interesse em fazer filmes sobre a saúde mental, sem dúvida. Não tanto como nos outros sítios”.

No caso do filme vencedor, “O Som” (The Sound), realizado por Antony Petrou, o filme fala-nos de uma jovem que procura desesperadamente a origem de um som que começa a levar a sua mãe à loucura. Questionada sobre o significado que o filme poderia reservar, Catarina refere que “pode tentar abordar um bocadinho as coisas de uma maneira subjetiva, mas de uma forma concreta ao mesmo tempo. Isto, porque é um som e é um filme que pode ter muitas analogias nesse sentido. Curiosamente, o que eu senti quando vi o filme foi que o realizador, o que queria, era que pensássemos se aquilo era mesmo um som real ou não. Era uma coisa muito específica e que ficava ali no limbo do que é real e do que não é, mais do que qualquer analogia a outras problemáticas. Ele trata o tema de uma maneira ambígua também para assim o ser. Eu acho que pode também significar uma fração da sociedade que tenta procurar a origem do som ou, neste caso, dos problemas, em vez de simplesmente atribuí-lo como uma patologia de algumas pessoas.”

Cartaz do filme “The Sound”

A evolução por parte do público foi-se mostrando ao longo das edições, de acordo com o que a organizadora e produtora executiva afirmam, no entanto, os apoios à cultura e à saúde mental continuam a não ser suficientes.
Tal como disse Ana Pinto Coelho, “Nós trabalhamos e não ganhámos dinheiro para fazer isto.  Serviço Público — é a forma como eu intitulo”.

No caso de Catarina, a mesma também reconhece que os poucos recursos afetam o festival: “Essencialmente sim, claro que obviamente quando há poucos recursos isso afeta o festival e qualquer equipa, no sentido em que o festival acaba por funcionar pela vontade de muita gente, inclusive nós, da equipa. Mas ele faz-se na mesma e faz-se bem, porque tentamos ao máximo que se faça o melhor possível com o pouquíssimo que há.”

O festival Mental começa dia 30 de setembro, entre as salas do Cinema São Jorge, o Espaço Atmosfera M e a Fábrica do Braço de Prata, e termina no dia 9 de outubro.

Podes consultar mais detalhes sobre a programação e festival, aqui.

Texto de Patrícia Silva
Fotografias Cartaz Festival Mental e Brochura do festival

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