Pensar a(s) família(s) foi o mote para que o Teatrão, companhia de teatro de Coimbra, abraçasse cinco das histórias escritas pelo autor Valério Romão, em 2014, que estreia em palco nos dias 9 e 10 de dezembro. Das transformações atuais naquela que é a estrutura e dinâmica das famílias ao desassossego que questionam, da família ultrapassa labirintos, questiona famílias e espreita pela fechadura da porta.

Partindo da obra da família, de Valério Romão, o espetáculo acontece em duas partes distintas. Os cinco episódios familiares apresentam "uma estrutura fabulista, mítica e fantástica, embora paradoxalmente quotidiana", assim se começa por descrever o espetáculo em comunicado.

Não há épocas, locais ou pessoas particulares. Há uma contemporaneidade que se ausenta de passados e futuros. As personagens que se diversificam nas cincos casas tem tantos pais Henriques, como mães Martas, filhos Rogérios, Antónios, Ritas e Raqueis e os cães Neros. Dos que não conseguem atender, aos não conseguem educar, amar ou deslumbrar, da família é um espetáculo que apresenta "insere-se quase numa perspetiva privilegiada do buraco da fechadura sobre a família", começa por explicar Valério Romão, responsável pelo olhar dramaturgo da peça.

A partir de um desequilíbrio e desassossego, o espetáculo "socializa angústias". É neste processo de (des)construção que Valério e o encenador Marco António Rodrigues acompanham um processos de criação de diversas frentes. Os intérpretes transformam-se numa voz em constante mutação ao longo do seu encontro com as personagens. É nesta "tradução", que os contos ganham vida através de olhar dramatúrgico.

Momento de transição. Do outro lado do ecrã Valério e Marco, que se fizeram ouvir em momentos diferentes do dia, refletem ainda o questionamento de uma sociedade que vive em constantes transições. É também a partir destes momentos de transição que Marco reconhece a importância de "desestruturar" cada representação familiar, ao qual dá o nome de "núcleos". É do quotidiano que estas experiências se afirmam e, como tal, cada detalhe em cena será evidente.

É a partir de um espaço composto por uma estrutura que aparente ser um prédio que "a visão apocalíptica de um mundo, uma cidade, uma casa novinha em folha de quarenta anos, contrapõe, porém, um sopro que também como reminiscência faz parte das lides populares desse território abençoado pela tradição revolucionária seja como jardim, seja como praça pública", acrescenta o encenador em comunicado partilhado com o Gerador.

Sobre as vivências que alimentaram esta peça e a sua encenação, foi depois de se cruzarem com os textos do Valério que a companhia quis dar-lhe voz, espaço e reflexão. "É muito interessante perceber a forma como o Valério potências as personagens e a forma como elas se transformam, no bem ou no mal", acrescenta o encenador.

Contando com a composição musical de Victor Torpedo, músico português, e os intérpretes Cláudia Carvalho, Isabel Craveiro, Hugo Inácio, João Santos, Margarida Sousa, Pedro Lamas e Sofia Coelho, o espetáculo integrará ainda conversas da família, uma das atividades paralelas da nova produção do Teatrão. Este é um ciclo criado em parceria com o Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, nomeadamente com a investigadora Sílvia Portugal, que dedica a sua investigação social às questões familiares. Serão seis temas que se organizam na perspetiva do mundo do trabalho na sua configuração atual, nas suas consequências sobre as subjetividades pessoais na comunidade familiar. Seis famílias se representam nestes ciclos que acontecem dezembro de 2021 e janeiro de 2022 - da família Contemporânea; da família e do Estado; da família passional; da família Nuclear; da família Tradicional e da família Consanguínea.

O espetáculo estará ainda na Oficina Municipal do Teatro até 16 de janeiro de 2022. A primeira parte é apresentada à terça-feira, quinta-feira e sábado, e a segunda à quarta-feira, sexta-feira e domingo. Ao longo do período do espetáculo decorrerão também sessões com interpretação em Língua Gestual Portuguesa - de 18 de dezembro a 29 de dezembro e de 15 a 16 de janeiro -, e com audiodescrição, nos dias 15 e 16 de janeiro.

Texto de Patrícia Silva
Fotografia de Carlos Gomes
Se queres ler mais reportagens sobre a cultura em Portugal, clica aqui.